Tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic) no diabetes tipo 2: quando indico e o que esperar
Tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic) para diabetes: glicada, coração, rins e doses
Resumo rápido
- A tirzepatida (Mounjaro) e a semaglutida (Ozempic) estimulam a insulina quando a glicose sobe e diminuem o glucagon.
- No SURPASS-2, a glicada caiu de 2,0 a 2,3 pontos com tirzepatida e 1,9 com semaglutida 1 mg.
- A semaglutida protegeu coração e rim; a tirzepatida não foi inferior a outro remédio protetor.
- Entram cedo com obesidade, doença do coração, do rim ou gordura no fígado.
- Sozinhas, raramente causam hipoglicemia; com insulina ou sulfonilureia, a dose desses é revista.
Imagine uma mulher de 61 anos com diabetes tipo 2, metformina e glibenclamida, glicada de 8,4%, obesidade, um stent e albumina na urina; o último fundo de olho foi há três anos. Ela quer saber se a tirzepatida (Mounjaro) no diabetes tipo 2 funciona, se a semaglutida (Ozempic) seria melhor e se escapa da insulina.
Veja que a pergunta vai além do peso, comparado em tirzepatida (Mounjaro) ou semaglutida (Ozempic); aqui, o foco é o diabetes.
Metas, remédios e acompanhamento estão reunidos na página sobre o tratamento do diabetes com endocrinologista em São Paulo.
O que Você Precisa Saber
Não são insulina. Fazem o pâncreas liberar a própria insulina quando a glicose sobe.
A glicada costuma cair 1 ponto ou mais. Depende do ponto de partida e da dose.
O benefício vai além da glicose. Coração e rins pesam na escolha.
Começar exige revisar o resto. Sulfonilureia, insulina, olhos e alimentação.
Como a tirzepatida e a semaglutida diminuem a glicose
Costumo explicar com a chave e a fechadura. O GLP-1, hormônio do intestino liberado após a refeição, é a chave; a fechadura fica no pâncreas, no estômago e no cérebro. A semaglutida é uma chave que dura uma semana; a tirzepatida abre também a fechadura do GIP.
remédio que imita o GLP-1, como a semaglutida. A tirzepatida é agonista duplo, de GIP e GLP-1.
Com a fechadura aberta:
- Insulina na hora certa: mais insulina quando a glicose sobe, menos quando normaliza.
- Menos glucagon: o fígado solta menos glicose.
- Estômago mais lento: a glicose da refeição sobe menos, e o apetite diminui.
É outro caminho, diferente da metformina e dos inibidores de SGLT2; por isso, a diretriz brasileira prevê associá-los.
Quanto diminuem a glicada: os estudos SUSTAIN e SURPASS
No SUSTAIN-6, partindo de 8,7%, a semaglutida levou a hemoglobina glicada a 7,6% com 0,5 mg e a 7,3% com 1 mg em dois anos, contra 8,3% com placebo.
No SURPASS-2, estudo de 40 semanas com 1.878 pessoas com diabetes tipo 2 em uso de metformina e glicada inicial de 8,3%, a tirzepatida diminuiu a glicada em 2,0, 2,2 e 2,3 pontos com 5, 10 e 15 mg, contra 1,9 ponto com a semaglutida 1 mg.
A meta da maioria é glicada abaixo de 7%, individualizada, como no guia de tratamento do diabetes tipo 2.
Coração e rins: SUSTAIN-6, SOUL, SURPASS-CVOT e FLOW
Para mim, isso pesa mais que a glicada.
- SUSTAIN-6 (2016): em 3.297 pessoas com risco cardiovascular alto, a semaglutida injetável diminuiu infarto, AVC e morte cardiovascular de 8,9% para 6,6% em dois anos.
- SOUL (2025): com doença cardiovascular ou renal, a semaglutida oral de 14 mg os diminuiu em 14%.
- SURPASS-CVOT (2025): em mais de 13 mil pessoas com doença aterosclerótica, a tirzepatida foi comparada à dulaglutida, agonista de GLP-1 que já protege o coração. Em 4 anos, os eventos foram 12,2% contra 13,1%: não inferior, sem provar superioridade; a morte por qualquer causa foi 16% menor.
perda de albumina, uma proteína, na urina; sinal precoce de lesão do rim. Veja albuminúria no diabetes.
O rim tem estudo próprio:
No estudo FLOW, de 2024, 3.533 pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica com albuminúria receberam semaglutida 1 mg por semana ou placebo. Em 3,4 anos, falência renal, perda de metade da função ou morte por causa renal ou cardiovascular ocorreram em 18,7% contra 23,2%, 24% a menos.
Quando entram no tratamento: o que dizem a SBD e a ADA
Pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e pela Associação Americana de Diabetes (ADA, 2026), pesam o risco cardiovascular, o peso e a glicada:
| Situação | O que costuma entrar | Fonte |
|---|---|---|
| Sem excesso de peso, risco baixo ou intermediário, glicada abaixo de 7,5% | Metformina | SBD |
| Sobrepeso ou obesidade | Agonista de GLP-1 ou tirzepatida | SBD |
| Glicada de 7,5% ou mais | Dois remédios desde o início | SBD |
| Doença cardiovascular ou risco alto | Agonista de GLP-1 ou inibidor de SGLT2, qualquer que seja a glicada | SBD e ADA 2026 |
| Insuficiência cardíaca | Inibidor de SGLT2; com fração de ejeção preservada e obesidade, também tirzepatida ou agonista de GLP-1 | ADA 2026 |
| Doença renal crônica | Inibidor de SGLT2 ou agonista de GLP-1; na doença avançada, o agonista de GLP-1 | ADA 2026 |
| Gordura no fígado com risco de fibrose | Agonista de GLP-1; tirzepatida ou pioglitazona como alternativas | ADA 2026 |
| Diagnóstico recente, glicada acima de 9%, sede e perda de peso | Insulina | SBD |
Não existe equilíbrio, existe prioridade: com stent e albumina na urina, o remédio que protege vem antes do ajuste fino da glicada, muitas vezes com um inibidor de SGLT2.
Agonista de GLP-1 ou insulina?
Pela SBD, a insulina vai preferencialmente para quem tem sintomas, como sede, urina em excesso e perda de peso com glicose muito alta, ou segue fora da meta com vários remédios. Fora disso, o agonista de GLP-1 ou a tirzepatida costumam vir antes, e podem se somar à insulina basal.
Hipoglicemia. Sozinhos, raramente causam. Com insulina ou sulfonilureia, como a glibenclamida, o risco sobe, e as bulas preveem diminuir a dose desses, decisão do médico. Veja hipoglicemia.
Retinopatia: por que o olho entra na conversa
lesão dos vasos da retina pela glicose alta, sem sintomas no começo; veja retinopatia diabética sem sintomas.
O alerta veio do SUSTAIN-6:
No SUSTAIN-6, complicações da retinopatia, como sangramento no olho ou necessidade de laser, ocorreram em 3,0% com semaglutida e 1,8% com placebo; 83,5% dos casos foram em quem já tinha retinopatia.
Uma análise posterior as ligou à queda grande e rápida da glicada, efeito também visto com insulina, e a SBD pede cautela na retinopatia proliferativa. Antes de começar, confiro o último fundo de olho, anual desde o diagnóstico; com retinopatia, o oftalmologista acompanha.
Doses no diabetes, pela bula
| Remédio | Como se usa | Início | Manutenção |
|---|---|---|---|
| Semaglutida injetável (Ozempic) | Uma vez por semana | 0,25 mg por 4 semanas | 0,5 mg; se preciso, 1 mg e até 2 mg |
| Semaglutida oral (Rybelsus) | Comprimido diário, em jejum, com até 120 mL de água, 30 minutos antes de comer | 3 mg por 30 dias | 7 mg; se preciso, 14 mg |
| Tirzepatida (Mounjaro) | Uma vez por semana | 2,5 mg por 4 semanas | 5 mg; se preciso, mais 2,5 mg a cada 4 semanas ou mais, até 15 mg |
A dose de início não controla a glicose; subir, manter ou trocar de remédio se decide com o médico.
O que mudou em 2025 e 2026 no Brasil
- Tirzepatida: nas farmácias desde maio de 2025.
- Receita retida: desde junho de 2025, por regra da Anvisa, a receita de semaglutida e de tirzepatida tem duas vias, vale 90 dias e uma via fica na farmácia.
- Rim: em fevereiro de 2026, a Anvisa estendeu a indicação da semaglutida (Ozempic) ao diabetes tipo 2 com doença renal crônica.
- Semaglutida nacional: após a patente, a Anvisa registrou a primeira versão sintética, para diabetes tipo 2, em maio de 2026, e o primeiro genérico, em agosto.
Efeitos digestivos e como diminuir
Náusea, diarreia, vômito e intestino preso predominam no início e nos aumentos de dose. Ajudam porções menores, mastigar devagar, parar na saciedade, evitar frituras e beber água, porque vômito e diarreia desidratam e podem piorar os rins. Dor forte e contínua no alto da barriga pode ser pancreatite, efeito raro, e pede atendimento.
Alimentação: low carb junto com o remédio
No diabetes tipo 2, com ou sem caneta, oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia, ou de 26% a 45% das calorias, referência da SBD, com prioridade de proteína e vegetais não amiláceos. No prato: metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade. Veja dieta low carb para diabetes.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico antes de reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- A tirzepatida (Mounjaro) serve para diabetes tipo 2?
Sim. A Anvisa a registrou para diabetes tipo 2 em 2023 e, em 2025, também para obesidade. No SURPASS-2, diminuiu a glicada em 2,0 a 2,3 pontos, mais que a semaglutida 1 mg. A diretriz brasileira a coloca entre as primeiras opções com sobrepeso ou obesidade, junto com alimentação e atividade física.
- Quanto a semaglutida (Ozempic) diminui a hemoglobina glicada?
Depende do ponto de partida e da dose. No SUSTAIN-6, partindo de 8,7%, a glicada foi a 7,6% com 0,5 mg e a 7,3% com 1 mg em dois anos. No SURPASS-2, partindo de 8,3%, a dose de 1 mg a diminuiu em 1,9 ponto em 40 semanas.
- A tirzepatida (Mounjaro) é insulina? Pode substituir a insulina?
Não é insulina: faz o pâncreas liberar a própria insulina quando a glicose sobe. Muitas vezes entra antes da insulina ou se soma a ela. Mas, com sede, urina em excesso e perda de peso com glicose muito alta, ou fora da meta com vários remédios, a insulina é necessária. Nunca a suspenda por conta própria.
- A tirzepatida (Mounjaro) ou a semaglutida (Ozempic) causam hipoglicemia?
Sozinhas, raramente, porque o estímulo à insulina diminui quando a glicose normaliza. No SURPASS-2, a hipoglicemia ocorreu em 0,2% a 1,7% com tirzepatida e 0,4% com semaglutida. O risco sobe com insulina ou sulfonilureia, como a glibenclamida; as bulas preveem diminuir a dose desses remédios, e quem ajusta é o médico.
- Qual é a dose da semaglutida (Ozempic) no diabetes tipo 2?
Pela bula, começa com 0,25 mg por semana por 4 semanas, só para o corpo se acostumar. Depois, 0,5 mg e, se preciso, 1 mg e até 2 mg, com ao menos 4 semanas entre os degraus. A semaglutida para obesidade (Wegovy) usa doses maiores. A dose se decide com o médico.
- Quem tem diabetes tipo 1 pode usar tirzepatida (Mounjaro) ou semaglutida (Ozempic)?
Não são registradas para o tipo 1, e a bula da semaglutida exclui esse uso, assim como a cetoacidose. No tipo 1 falta insulina, e nenhuma delas a substitui. Com obesidade, o especialista pode considerá-las como adjuvante, fora da bula, com acompanhamento próximo e sempre junto com a insulina.
- Quem tem retinopatia pode usar semaglutida (Ozempic)?
Pode, com cuidado. No SUSTAIN-6, as complicações da retinopatia foram mais frequentes com semaglutida, sobretudo em quem já tinha a doença. A SBD pede cautela na retinopatia proliferativa. Antes de começar, vale um fundo de olho recente; com retinopatia, acompanhamento com o oftalmologista e avaliação logo se a visão piorar.
- A semaglutida (Ozempic) serve para pré-diabetes?
Não é registrada para isso. A semaglutida para obesidade (Wegovy) é indicada com IMC de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com doença associada, como o pré-diabetes. Sem excesso de peso, o pré-diabetes se trata com alimentação, atividade física e, em alguns casos, metformina.
Cuide do seu diabetes com orientação individual

Referências
- Frías JP, Davies MJ, Rosenstock J, et al. Tirzepatide versus Semaglutide Once Weekly in Patients with Type 2 Diabetes (SURPASS-2). N Engl J Med. 2021;385(6):503-515. doi:10.1056/NEJMoa2107519.
- Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes (SUSTAIN-6). N Engl J Med. 2016;375(19):1834-1844. doi:10.1056/NEJMoa1607141.
- Vilsbøll T, Bain SC, Leiter LA, et al. Semaglutide, reduction in glycated haemoglobin and the risk of diabetic retinopathy. Diabetes Obes Metab. 2018;20(4):889-897. doi:10.1111/dom.13172.
- Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes (FLOW). N Engl J Med. 2024;391(2):109-121. doi:10.1056/NEJMoa2403347.
- McGuire DK, Marx N, Mulvagh SL, et al. Oral Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in High-Risk Type 2 Diabetes (SOUL). N Engl J Med. 2025;392(20):2001-2012.
- Nicholls SJ, et al.; SURPASS-CVOT Investigators. Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2025;393(24):2409-2420. doi:10.1056/NEJMoa2505928.
- Lyra R, Albuquerque L, Cavalcanti S, Tambascia M, Silva Júnior WS, Bertoluci MC. Manejo da terapia antidiabética no DM2. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição atual (capítulo revisado em setembro de 2024). doi:10.29327/5412848.2024-7.
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). doi:10.2337/dc26-S009.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 973/2025 (retenção de receita de agonistas de GLP-1); Anvisa aprova novas indicações para semaglutida (2 de fevereiro de 2026); registros de semaglutida sintética e genérica (maio a agosto de 2026); bulas de Ozempic, Rybelsus e Mounjaro. Bulas americanas (FDA) dos mesmos produtos, consultadas em novembro de 2026.
