Dapagliflozina (Forxiga) e empagliflozina (Jardiance): para que servem e quem se beneficia no rim e no coração
Dapagliflozina (Forxiga) para que serve, empagliflozina (Jardiance), efeitos colaterais e SUS
Resumo rápido
- A dapagliflozina (Forxiga) e a empagliflozina (Jardiance) fazem o rim eliminar glicose e sódio pela urina.
- Pelas bulas brasileiras, tratam diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca e doença renal crônica, as duas últimas com ou sem diabetes.
- Nos estudos, diminuíram a piora da insuficiência cardíaca e a progressão da doença renal.
- O efeito mais comum é a candidíase genital; cetoacidose euglicêmica e gangrena de Fournier são raras.
- Antes de cirurgia, a agência americana (FDA) pede pausa de ao menos 3 dias.
Imagine uma mulher de 68 anos, sem diabetes, que recebe alta após uma crise de insuficiência cardíaca com receita de dapagliflozina (Forxiga). Ela pesquisa: dapagliflozina para que serve? E estranha: o remédio aparece como tratamento de diabetes.
Veja que a dapagliflozina e a empagliflozina (Jardiance) nasceram para o diabetes e hoje protegem também coração e rim.
A classe está em inibidores de SGLT2 no diabetes tipo 2; aqui, o foco são esses dois remédios.
O que Você Precisa Saber
Não são só remédios de diabetes. Insuficiência cardíaca e doença renal crônica estão nas bulas, com ou sem diabetes.
A proteção independe do diabetes. No DAPA-HF, o benefício foi semelhante com e sem diabetes.
Os efeitos comuns são previsíveis. Urinar mais e ter candidíase genital, sobretudo no início.
Há momentos de pausa. Cirurgia, jejum prolongado e doença aguda, sempre com o médico.
Como agem: a glicose sai pela urina
Costumo explicar com uma porta giratória. A glicose filtrada pelo rim volta ao sangue por portas no túbulo renal; a principal, o SGLT2, devolve glicose junto com sódio. As duas trancam essa porta, e parte da glicose e do sódio sai na urina.
remédio que bloqueia o SGLT2, transportador do rim que devolve glicose e sódio ao sangue.
Além da glicose:
- Sódio e água: mais urina e pressão arterial discretamente menor.
- Pressão dentro do rim: com mais sódio adiante no túbulo, o rim estreita a entrada do filtro, e a pressão lá dentro diminui.
Pela bula da dapagliflozina, o efeito na glicose diminui com filtração abaixo de 45 mL/min/1,73 m²; a proteção do rim, porém, foi estudada com filtração a partir de 20.
Para que servem: indicações aprovadas no Brasil
| Indicação | Dapagliflozina (Forxiga) | Empagliflozina (Jardiance) |
|---|---|---|
| Diabetes tipo 2, controle da glicose | Sim | Sim |
| Insuficiência cardíaca crônica | Adultos com sintomas (classes II a IV) | Adultos, qualquer fração de ejeção, com ou sem diabetes |
| Doença renal crônica | Adultos | Adultos |
| Dose | 10 mg uma vez ao dia, em todas as indicações | 10 mg uma vez ao dia; no diabetes, até 25 mg |
| Diabetes tipo 1 | Não indicada | Não deve ser usada |
Dose e troca são decididas com o médico.
Coração: o que os estudos mostraram
No EMPA-REG OUTCOME, de 2015, 7.020 adultos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular receberam empagliflozina ou placebo por cerca de 3,1 anos. A morte cardiovascular ocorreu em 3,7% contra 5,9%, e a internação por insuficiência cardíaca, em 2,7% contra 4,1%.
- DECLARE-TIMI 58 (2019): 17.160 adultos com diabetes tipo 2, 10.186 deles sem doença cardiovascular; a dapagliflozina diminuiu internação por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular, sem efeito significativo em infarto e AVC.
- DAPA-HF (2019): 4.744 adultos com fração de ejeção de 40% ou menos; morte cardiovascular ou piora da insuficiência cardíaca 26% menor com dapagliflozina.
- EMPEROR-Reduced (2020): 3.730 adultos com fração de 40% ou menos; morte cardiovascular ou internação por insuficiência cardíaca em 19,4% com empagliflozina e 24,7% com placebo.
- EMPEROR-Preserved (2021): 5.988 adultos com fração acima de 40%; mesmo desfecho em 13,8% contra 17,1%.
- DELIVER (2022): 6.263 adultos com fração acima de 40%; piora da insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular em 16,4% com dapagliflozina e 19,5% com placebo.
porcentagem do sangue que o coração bombeia a cada batida; até 40%, é reduzida.
Rins: DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY
O DAPA-CKD, de 2020, incluiu 4.304 adultos com filtração de 25 a 75 mL/min/1,73 m² e albuminúria de 200 a 5.000 mg/g. A dapagliflozina diminuiu perda importante da função, falência renal ou morte renal ou cardiovascular, com ou sem diabetes.
No EMPA-KIDNEY, de 2023, 6.609 adultos com doença renal crônica, cerca de 44% com diabetes tipo 2, tinham filtração de 20 a 45 mL/min/1,73 m², ou de 45 a 90 com albuminúria a partir de 200 mg/g. Em cerca de dois anos, progressão da doença renal ou morte cardiovascular ocorreram em 13,1% com empagliflozina e 16,9% com placebo.
O KDIGO 2024, diretriz internacional de rim, recomenda o inibidor de SGLT2 com filtração de 20 ou mais, no diabetes tipo 2 e, sem diabetes, com albuminúria a partir de 200 mg/g ou insuficiência cardíaca. Veja albuminúria no diabetes.
Quem se beneficia, com e sem diabetes
| Situação | O que diminuiu | Estudo |
|---|---|---|
| Diabetes tipo 2 com doença cardiovascular | Morte cardiovascular e internação por insuficiência cardíaca | EMPA-REG OUTCOME |
| Diabetes tipo 2 com doença ou fatores de risco cardiovascular | Internação por insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular | DECLARE-TIMI 58 |
| Insuficiência cardíaca, fração de até 40% | Piora da insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular | DAPA-HF, EMPEROR-Reduced |
| Insuficiência cardíaca, fração acima de 40% | Piora da insuficiência cardíaca ou morte cardiovascular | EMPEROR-Preserved, DELIVER |
| Doença renal crônica | Progressão da doença renal ou morte cardiovascular | DAPA-CKD, EMPA-KIDNEY |
Dapagliflozina para quem não tem diabetes? Com insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, sim. Sem essas doenças, não há indicação para "prevenir" nem para emagrecer.
Onde entram no diabetes tipo 2
Pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e pela ADA 2026, com doença cardiovascular ou risco alto, o inibidor de SGLT2 ou o agonista de GLP-1 entra qualquer que seja a glicada; com insuficiência cardíaca, a ADA indica o inibidor de SGLT2; na doença renal crônica, ele ou o agonista de GLP-1.
Não existe equilíbrio, existe prioridade: com coração ou rim doente, o remédio que protege vem antes do ajuste fino da glicada. A dapagliflozina pode se somar à metformina, inclusive no comprimido de dapagliflozina com metformina (Xigduo XR), e à tirzepatida (Mounjaro) ou à semaglutida (Ozempic). Veja o guia de tratamento do diabetes tipo 2.
Dapagliflozina ou empagliflozina: o que muda na prática
- Comparação: cada uma foi testada contra placebo, não contra a outra.
- Dose: 10 mg nas duas; só a empagliflozina vai a 25 mg, no diabetes.
- Rim: pela agência europeia, não se inicia a dapagliflozina com filtração abaixo de 25, nem a empagliflozina abaixo de 20.
Na minha visão, vale a que tem indicação, acesso e boa tolerância para você.
Genéricos, SUS e Farmácia Popular: o que mudou
- Genéricos: há genéricos de dapagliflozina; em 25 de maio de 2026, a Anvisa registrou o primeiro que a combina com metformina, equivalente ao de referência (Xigduo XR).
- Farmácia Popular: gratuita desde 13 de fevereiro de 2025, para diabetes associado à doença cardiovascular.
- SUS, diabetes tipo 2: com doença ou risco cardiovascular alto, em faixas de idade definidas pela Conitec.
- SUS, insuficiência cardíaca: fração de 40% ou menos, com sintomas apesar do tratamento padrão; em 26 de dezembro de 2025, o Ministério da Saúde decidiu não incorporá-la para fração acima de 40%.
- SUS, doença renal crônica: incorporada em setembro de 2022; pelo protocolo de 2024, filtração de 25 a 75 mL/min/1,73 m² e, sem diabetes, albuminúria acima de 300 mg/g.
Efeitos colaterais
| Efeito | Frequência, pela bula | O que fazer |
|---|---|---|
| Urinar mais | Comum | Esperado no início |
| Candidíase genital | Comum | Tratar e, em geral, manter o remédio; veja candidíase com gliflozinas |
| Infecção urinária | Até 1 em cada 10 pessoas | Ardor, febre ou dor lombar: procurar o médico |
| Desidratação e tontura | Desidratação incomum; tontura comum | Atenção a diarreia, diurético e idade a partir de 75 anos |
| Hipoglicemia | Muito comum só com sulfonilureia ou insulina | O médico revisa a dose desses remédios |
| Cetoacidose euglicêmica | Rara: até 1 em 1.000 com diabetes tipo 2 | Náusea, vômitos, dor na barriga ou falta de ar: atendimento imediato |
| Gangrena de Fournier | Rara | Dor, inchaço ou vermelhidão genital com febre: pronto-atendimento |
Cetoacidose euglicêmica e quando suspender
acúmulo de cetonas que deixa o sangue ácido com a glicose normal ou pouco elevada, às vezes abaixo de 250 mg/dL. O glicosímetro normal não a descarta.
Costuma aparecer com pouca insulina e pouca comida: doença aguda, vômitos, jejum prolongado, desidratação e cirurgia. Pela FDA, dapagliflozina e empagliflozina são suspensas ao menos 3 dias antes de cirurgia ou procedimento com jejum prolongado, quando possível, e retomadas com a pessoa estável e comendo. Na doença aguda, siga o plano de dias de doença no diabetes; suspensão e volta são decididas pelo médico.
Função renal: até quando usar e por que a filtração diminui no começo
A função do rim é medida antes e durante o tratamento, no ritmo combinado na consulta; veja com que frequência consultar o endocrinologista. Pela bula americana, a dapagliflozina não é iniciada com filtração abaixo de 25, mas pode seguir se ela diminuir depois; o KDIGO 2024 orienta manter até a diálise ou o transplante, se tolerada.
Nas primeiras semanas, a filtração diminui um pouco: no DAPA-HF, 4,3 mL/min/1,73 m² com dapagliflozina e 1,1 com placebo; no DAPA-CKD, 4,0 e 0,8 no 14º dia. É como diminuir a pressão de uma mangueira: sai menos água, mas ela se desgasta menos. Esse degrau, sozinho, não é motivo para parar.
Alimentação: low carb com atenção à cetoacidose
No diabetes tipo 2, com ou sem gliflozina, oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia, ou de 26% a 45% das calorias, referência da SBD, com prioridade de proteína e vegetais não amiláceos. No prato: metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade. Veja dieta low carb para diabetes.
Atenção: com dapagliflozina ou empagliflozina, reduzir muito o carboidrato aumenta as cetonas e o risco de cetoacidose euglicêmica. Por isso, a redução se combina antes com o médico, que ajusta a medicação. Quem usa insulina ou sulfonilureia também precisa de ajuste, pelo risco de hipoglicemia. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Dapagliflozina (Forxiga) serve para quê?
Pela bula brasileira, para controle da glicose no diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca crônica e doença renal crônica, as duas últimas em adultos com ou sem diabetes. Nos estudos, diminuiu a piora da insuficiência cardíaca e a progressão da doença renal. A dose é de 10 mg uma vez ao dia.
- A dapagliflozina genérica é igual à dapagliflozina (Forxiga) de marca?
Tem o mesmo princípio ativo e a mesma dose, e o genérico precisa ser intercambiável com o de referência, a dapagliflozina (Forxiga). Há genéricos à venda no Brasil, e em maio de 2026 a Anvisa registrou o primeiro genérico de dapagliflozina com metformina. O que importa é tomar todos os dias.
- Quem não tem diabetes pode tomar dapagliflozina (Forxiga)?
Pode, se tiver insuficiência cardíaca ou doença renal crônica: a bula brasileira inclui as duas em adultos, com ou sem diabetes. No DAPA-HF e no DAPA-CKD, o benefício apareceu com e sem diabetes. Sem essas doenças, não há indicação, nem para prevenir. Sem insulina ou sulfonilureia, a hipoglicemia é rara.
- Dapagliflozina (Forxiga) emagrece?
Pode levar a uma perda de peso pequena, porque parte da glicose sai pela urina, mas não é remédio para emagrecer: não é registrada para obesidade, e a bula lista a perda de peso como efeito incomum. Usá-la só para isso expõe aos efeitos colaterais sem benefício. A obesidade tem tratamentos próprios.
- Dapagliflozina (Forxiga) ou empagliflozina (Jardiance): qual é melhor?
As duas têm estudos positivos em insuficiência cardíaca e doença renal crônica, mas cada uma foi testada contra placebo, não contra a outra. A dapagliflozina usa 10 mg em todas as indicações; a empagliflozina, 10 mg, e até 25 mg no diabetes. A escolha é feita com o médico, pela indicação e pelo acesso.
- Quais são os efeitos colaterais da dapagliflozina (Forxiga)?
Os mais comuns são urinar mais, candidíase genital, infecção urinária, tontura e desidratação, sobretudo em idosos e em quem usa diurético. Com sulfonilureia ou insulina, a hipoglicemia é muito comum pela bula. Raras, mas graves: cetoacidose euglicêmica, que pode vir com glicose quase normal, e gangrena de Fournier. Nesses casos, procure atendimento imediato.
- Dapagliflozina (Forxiga) pode ser tomada à noite ou em jejum?
Pode. Pela bula, são 10 mg uma vez ao dia, a qualquer hora, com ou sem comida; o melhor horário é o que você não esquece. Não é para tomar duas vezes ao dia. Se esquecer, tome ao lembrar; perto da próxima dose, pule a esquecida e nunca tome duas doses juntas.
- A dapagliflozina (Forxiga) é de graça na Farmácia Popular ou no SUS?
Desde 13 de fevereiro de 2025, a dapagliflozina 10 mg é gratuita na Farmácia Popular, com receita, para diabetes associado à doença cardiovascular. No SUS, está incorporada para diabetes tipo 2 em critérios definidos, insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 40% ou menos e doença renal crônica, mas não para fração acima de 40%.
Cuide do seu coração e dos seus rins com orientação individual

Referências
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- Bulas brasileiras de Forxiga (dapagliflozina) e Jardiance (empagliflozina); informação do produto da Agência Europeia de Medicamentos (Forxiga e Jardiance); bulas americanas (FDA) de Farxiga (revisão de junho de 2026) e Jardiance. Conitec: Portaria SCTIE/MS nº 106, de 26 de setembro de 2022; Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 11, de 16 de setembro de 2024 (PCDT da doença renal crônica); Relatório de Recomendação nº 1.067 e Portaria SCTIE/MS nº 97, de 26 de dezembro de 2025. Conselho Federal de Farmácia: Farmácia Popular com 100% de gratuidade (13 de fevereiro de 2025) e primeiro genérico de dapagliflozina com metformina (25 de maio de 2026). Consultados em novembro de 2026.
