Metformina: para que serve, como tomar e efeitos colaterais
Metformina: o guia do endocrinologista sobre indicações, uso correto e segurança
Resumo rápido
- A metformina é o remédio mais usado no mundo para o diabetes tipo 2. Ela reduz a glicose principalmente porque diminui a produção de açúcar pelo fígado.
- Também é usada no pré-diabetes de maior risco, na síndrome dos ovários policísticos (SOP) e, em situações selecionadas, no diabetes gestacional.
- Não é remédio para emagrecer: a perda de peso, quando acontece, é modesta, em torno de 2 kg. Também não engorda.
- Os efeitos mais comuns são digestivos e melhoram com dose inicial baixa, aumento gradual, tomada com a refeição e a versão de liberação prolongada (XR).
- Sozinha, não causa hipoglicemia. Os cuidados reais são a função dos rins, a vitamina B12 no uso prolongado, o álcool em excesso e as situações de desidratação.
"Doutor, a metformina serve para quê, exatamente? Minha mãe toma para diabetes, minha amiga toma para ovário policístico e me disseram que ela emagrece." Essa pergunta, metformina para que serve, chega ao consultório quase toda semana, e com razão: é um remédio barato, antigo e muito prescrito, mas cercado de confusão.
A metformina está no mercado há décadas e continua sendo uma das ferramentas mais seguras da endocrinologia. Mesmo assim, vejo dois extremos: quem a abandona na primeira semana por causa do intestino e quem a toma por conta própria para perder peso.
Neste guia, explico como ela age, para quem é indicada, como tomar para evitar efeitos colaterais e quais são os cuidados de verdade.
O que Você Precisa Saber
A metformina age principalmente no fígado. Ela reduz a quantidade de glicose que o fígado lança no sangue, sobretudo durante a noite e no jejum, e melhora de forma modesta a resposta do corpo à insulina. Ela não aumenta a produção de insulina pelo pâncreas.
É eficaz, segura e tem décadas de uso. A Associação Americana de Diabetes (ADA), em 2026, descreve a metformina como eficaz, segura, barata e amplamente disponível. Ela não é mais obrigatoriamente o primeiro remédio para todos, mas segue como base do tratamento de muita gente.
O intestino é o principal obstáculo, e tem solução. Diarreia, gases e desconforto abdominal são os efeitos mais comuns, sobretudo no início. Na maioria das vezes, a forma de tomar resolve.
Os cuidados importantes são poucos e bem conhecidos. Função dos rins, vitamina B12 em quem usa por anos, álcool em excesso e dias de doença com desidratação. Com isso sob controle, a maioria das pessoas a usa por anos sem problemas.
Como a metformina age: a torneira de glicose do fígado
Costumo explicar assim: o fígado funciona como uma torneira de glicose. Entre as refeições e durante a noite, ele libera açúcar no sangue para manter o cérebro e os músculos abastecidos. Na resistência à insulina e no diabetes tipo 2, essa torneira fica aberta demais. Por isso tanta gente acorda com a glicose alta sem ter comido nada.
A metformina fecha parcialmente essa torneira. Ela reduz a gliconeogênese, que é a fabricação de glicose nova pelo fígado, e assim baixa principalmente a glicemia de jejum.
processo pelo qual o fígado fabrica glicose a partir de outras substâncias, como aminoácidos, lactato e glicerol. No diabetes tipo 2, esse processo fica acelerado e contribui para a glicose alta em jejum.
Ela também age no intestino, alterando a microbiota e aumentando a liberação de GLP-1, hormônio ligado à saciedade, o que ajuda a explicar parte do efeito e os sintomas digestivos.
Perceba o que ela não faz: não estimula o pâncreas a produzir mais insulina. A insulina é como uma chave que abre a fechadura das células para a glicose entrar; a metformina não fabrica mais chaves, ela diminui o excesso de açúcar que chega à porta. Por isso, sozinha, não derruba a glicose abaixo do normal. Aprofundo esse mecanismo no guia sobre resistência à insulina.
Para que serve a metformina: as indicações
1. Diabetes tipo 2. É a indicação principal. Ela reduz a glicemia e a hemoglobina glicada, não causa hipoglicemia sozinha e pode ser combinada com praticamente todos os outros remédios para diabetes.
No estudo britânico UKPDS, publicado em 1998, pessoas com diabetes tipo 2 recém-diagnosticado e excesso de peso tratadas com metformina tiveram redução de 39% no risco de infarto e de 36% na mortalidade por qualquer causa, em comparação com o tratamento convencional da época.
Em 2026, a ADA reforça que o remédio inicial deve ser escolhido conforme o perfil de cada pessoa: quem tem doença cardiovascular, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica recebe agonistas de GLP-1 ou inibidores de SGLT2 pelo benefício próprio, com ou sem metformina. Explico essa lógica no artigo sobre tratamento do diabetes tipo 2.
2. Pré-diabetes de maior risco. No Diabetes Prevention Program (DPP), a metformina reduziu em 31% o risco de evoluir para diabetes, e a mudança de estilo de vida, em 58%. Por isso, a ADA sugere considerá-la nos grupos que mais se beneficiaram: menos de 60 anos, IMC de 35 ou mais e histórico de diabetes gestacional. Detalhei esse tema no guia sobre pré-diabetes.
glicose acima do normal, mas ainda abaixo do limite de diabetes: glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% ou glicose entre 140 e 199 mg/dL duas horas após a sobrecarga no teste oral de tolerância à glicose.
3. Síndrome dos ovários policísticos (SOP). A bula brasileira inclui a SOP entre as indicações, e a diretriz internacional de 2023 recomenda considerar a metformina em adultas com SOP e IMC de 25 ou mais, principalmente pelos benefícios metabólicos. Um esclarecimento, porque é uma busca muito comum: a metformina não "limpa os ovários". Ela atua na resistência à insulina, um dos motores da SOP. Para induzir ovulação, a primeira escolha hoje é outro remédio, decidido com o ginecologista.
4. Diabetes gestacional, em casos selecionados. Na gestação, a insulina é a primeira escolha. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) aceita a metformina como alternativa quando a dieta não basta e a insulina não é viável. Como ela atravessa a placenta, é uma decisão do obstetra com o endocrinologista, nunca por conta própria.
O que a metformina não é
Não é remédio para emagrecer. No DPP, a perda média de peso com metformina foi de cerca de 2 kg. É um efeito real, mas pequeno, muito distante dos 15% a 20% observados com semaglutida e tirzepatida. Para quem tem obesidade, as opções eficazes estão no guia sobre semaglutida (Ozempic e Wegovy), que também compara com a tirzepatida (Mounjaro).
Não engorda. A ADA classifica a metformina como neutra para o peso, com possibilidade de perda modesta.
Não é diurético nem "remédio da longevidade". Ela não age nos rins para eliminar água, e não existe prova de benefício contra o envelhecimento em pessoas saudáveis. Usar sem indicação expõe aos efeitos colaterais sem ganho demonstrado.
Metformina comum ou XR: como tomar
Existem duas formas principais:
- Liberação imediata (comprimidos de 500 mg, 850 mg e 1 g): em geral tomada duas ou três vezes ao dia, junto com as refeições.
- Liberação prolongada (XR, como o Glifage XR e os genéricos XR): o comprimido libera o remédio aos poucos, o que permite uma tomada ao dia, geralmente no jantar, e costuma causar menos efeitos digestivos.
formulação em que o comprimido libera a metformina lentamente, ao longo de horas. Controla a glicose como a versão comum, com melhor tolerância intestinal. Não deve ser partida nem mastigada.
Na prática, sigo três regras:
Começar baixo. Em geral, inicio com 500 mg por dia, junto da principal refeição.
Subir devagar. O aumento é feito a cada uma ou duas semanas, conforme a tolerância, até a dose eficaz para aquela pessoa, respeitando a dose máxima da bula.
Tomar com comida, nunca em jejum. A metformina comum vai junto ou logo após a refeição; a XR, no jantar ou conforme a receita. Tomar em jejum é um dos erros que mais causam diarreia e náusea. Se esquecer uma dose, não dobre a seguinte.
A glicose começa a cair em dias a semanas, e a hemoglobina glicada mostra o resultado completo em cerca de três meses, quando reavalio em consulta.
Efeitos colaterais: o que é comum e o que é raro
Efeitos digestivos (comuns). Diarreia, gases, distensão, dor abdominal, náusea e gosto metálico aparecem, em geral, no início ou após aumentos de dose, e melhoram em algumas semanas com aumento gradual, tomada com refeição e troca para XR. Diarreia que surge depois de anos de uso estável merece investigação. Explico tudo no artigo sobre metformina e diarreia.
Vitamina B12 baixa (no uso prolongado). Ao longo dos anos, a metformina pode reduzir a absorção de B12, e a deficiência causa anemia e formigamentos que se confundem com a neuropatia do diabetes. A SBD recomenda dosar a B12 anualmente após quatro anos de uso, ou antes, se houver sintomas ou outros fatores de risco. Se vier baixa, em geral se repõe a vitamina e se mantém a metformina. Detalhes no artigo sobre metformina e vitamina B12.
Acidose lática (muito rara). É o acúmulo de ácido lático no sangue, complicação grave que ocorre principalmente com rins muito comprometidos, infecção grave, desidratação importante ou uso abusivo de álcool.
Uma revisão sistemática da Cochrane reuniu 347 estudos, somando mais de 70 mil pacientes-ano de uso de metformina, e não encontrou nenhum caso de acidose lática fatal ou não fatal, nem diferença nos níveis de lactato em relação a outros tratamentos. Usada dentro das indicações e com função renal adequada, a metformina tem risco extremamente baixo dessa complicação.
Hipoglicemia (não causa sozinha). O risco aparece quando ela é combinada com insulina ou sulfonilureias, como glibenclamida e gliclazida.
Contraindicações e cuidados: rins, contraste, álcool e dias de doença
Função dos rins. É o cuidado mais importante, porque a metformina é eliminada pelos rins.
estimativa de quanto sangue os rins filtram por minuto, calculada a partir da creatinina do exame de sangue, da idade e do sexo. É expressa em mL/min/1,73 m² e define se a metformina pode ser usada e em que dose.
As regras da ADA e da FDA, agência americana, são estas:
- TFG de 45 ou mais: pode usar normalmente, com acompanhamento periódico.
- TFG entre 30 e 45: não se deve iniciar a metformina. Quem já usa pode continuar, em geral com dose reduzida e monitoramento mais frequente.
- TFG abaixo de 30: contraindicada; deve ser suspensa.
Exames com contraste. Nem todo exame com contraste exige suspender a metformina: depende da função renal, do tipo de contraste e do protocolo do serviço. Sempre avise a equipe do exame que usa metformina. Expliquei as situações no artigo sobre metformina e contraste.
Álcool. O uso excessivo é contraindicação, porque aumenta o risco de acidose lática. Uma dose ocasional, com comida, não costuma ser problema para quem tem rins e fígado saudáveis. Escrevi um guia prático sobre álcool e diabetes.
Outras contraindicações. Doença do fígado avançada, insuficiência cardíaca descompensada, infarto recente, infecção grave e qualquer quadro de acidose. Antes de cirurgias maiores, costuma ser suspensa temporariamente.
Dias de doença. Vômitos repetidos ou diarreia intensa podem desidratar e piorar os rins. Oriento ter um plano combinado em consulta: em geral, pausar a metformina até voltar a comer e beber normalmente, e procurar atendimento se não houver melhora.
Metformina combinada com outros remédios
A metformina combina bem com quase todos os remédios para diabetes, inclusive em comprimidos que já trazem duas substâncias:
- Inibidores de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina): protegem coração e rins.
- Agonistas de GLP-1 e tirzepatida (semaglutida/Ozempic, tirzepatida/Mounjaro): reduzem glicose e peso de forma importante; os efeitos digestivos podem se somar.
- Inibidores de DPP-4 (sitagliptina, vildagliptina, linagliptina): efeito mais modesto.
- Pioglitazona e insulina: em resistência à insulina importante ou quando a glicose segue alta.
Alimentação para quem usa metformina: low carb em primeiro lugar
A metformina fecha a torneira do fígado, mas não compensa o que entra pela boca. No diabetes tipo 2 e no pré-diabetes, a minha orientação alimentar é sempre low carb.
padrão alimentar com carboidratos reduzidos, em geral abaixo de 130 gramas por dia, ou entre 26% e 45% das calorias, referência usada pela Sociedade Brasileira de Diabetes. Versões mais restritas podem ser usadas quando indicadas, com acompanhamento.
Na prática, priorizo:
Cortar o que é líquido e doce: refrigerante, suco (inclusive natural), achocolatado e doces.
Reduzir de verdade pães, massas, arroz, tapioca e farinhas, e não apenas trocar pela versão integral na mesma quantidade.
Proteína em todas as refeições: ovos, carnes, peixes, iogurte natural e queijos. A Relação Proteína|Energia ajuda a escolher alimentos que saciam mais com menos energia.
Vegetais não amiláceos à vontade e gorduras naturais, como azeite, abacate, castanhas e peixes.
O cardápio para diabético semanal mostra isso no dia a dia. Veja que a metformina sozinha não causa hipoglicemia com essa alimentação, mas há alertas: quem usa insulina, sulfonilureias ou inibidores de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico ao reduzir carboidratos, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Pessoas com diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e quem tem doença renal avançada precisam de acompanhamento próximo.
Como costumo dizer, não existe equilíbrio, existe prioridade: a alimentação e o movimento vêm primeiro, e a metformina potencializa esse trabalho.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- A metformina emagrece?
Pouco. No principal estudo de prevenção do diabetes, a perda média com metformina foi de cerca de 2 kg, contra praticamente nenhuma com placebo. É um efeito real, mas pequeno, e por isso a metformina não é indicada como remédio para emagrecer. Para quem tem obesidade, semaglutida e tirzepatida, junto com mudanças de hábito, produzem perdas muito maiores.
- A metformina engorda?
Não. A metformina é considerada neutra para o peso, com possibilidade de pequena perda. Quando alguém ganha peso durante o tratamento, a causa costuma ser outra: alimentação, medicamentos que favorecem o ganho, como insulina e sulfonilureias, ou a evolução do diabetes. Inchaço também não é efeito típico dela e deve ser investigado.
- Posso tomar a metformina à noite?
Sim, desde que seja junto com o jantar. A metformina XR, inclusive, costuma ser tomada no jantar, porque age durante a noite, quando o fígado mais libera glicose, e isso ajuda a controlar a glicemia de jejum. A versão comum pode ser dividida entre as refeições do dia. O horário exato deve seguir a sua receita.
- Posso tomar a metformina em jejum?
Não é recomendado. Em jejum, a metformina causa mais náusea, dor abdominal e diarreia. A versão comum deve ser tomada durante ou logo após a refeição, e a XR no jantar ou na refeição indicada pelo médico. Se você toma pela manhã e não tem o hábito de comer cedo, converse sobre ajustar o horário.
- Quanto tempo a metformina leva para fazer efeito?
A glicose começa a melhorar nos primeiros dias a semanas, à medida que a dose é ajustada. O efeito completo aparece na hemoglobina glicada depois de cerca de três meses, porque esse exame reflete a média da glicose desse período. Os efeitos digestivos, quando aparecem, costumam diminuir em poucas semanas.
- Quem toma metformina pode beber cerveja ou outras bebidas alcoólicas?
O excesso de álcool é contraindicado, porque aumenta o risco de acidose lática, sobretudo com fígado doente. Uma dose ocasional, junto com comida, costuma ser segura para quem tem rins e fígado saudáveis. Cerveja, porém, também traz carboidrato e calorias. Quem usa insulina ou sulfonilureia precisa de cuidado extra, pois o álcool aumenta o risco de hipoglicemia, inclusive horas depois.
- A metformina dá hipoglicemia?
Sozinha, não. Ela não estimula o pâncreas a produzir mais insulina, então não derruba a glicose abaixo do normal. A hipoglicemia pode acontecer quando ela é combinada com insulina ou com sulfonilureias, como glibenclamida e gliclazida. Tontura e fraqueza em quem usa só metformina geralmente têm outra causa e devem ser avaliadas.
- Vou ter que tomar metformina para sempre?
Depende da indicação e da evolução. No diabetes tipo 2, costuma ser um tratamento de longo prazo, e é seguro usá-la por muitos anos com acompanhamento dos rins e da B12. Com perda de peso importante e alimentação low carb, algumas pessoas reduzem a dose ou até suspendem, sempre com avaliação médica. No pré-diabetes e na SOP, a necessidade é reavaliada periodicamente.
- Metformina é a mesma coisa que Glifage?
Sim. Glifage é o nome comercial original da metformina, e existem genéricos e similares com a mesma substância. O Glifage XR e os genéricos XR são as versões de liberação prolongada: a substância é a mesma, mas o comprimido a libera aos poucos, o que muda o número de tomadas por dia e a tolerância intestinal.
Cuide do seu diabetes com orientação individual
Referências
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- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes: tratamento farmacológico da hiperglicemia no DM2 e terapia nutricional no diabetes. Edição atual.
- Glifage (cloridrato de metformina). Bula para o profissional de saúde. Merck S/A. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
