Insulina basal no diabetes tipo 2: quando começar, tipos e como a dose é ajustada
Insulina basal: NPH, glargina (Lantus, Basaglar, Toujeo), degludeca (Tresiba) e a insulina semanal
Resumo rápido
- A insulina basal é a insulina de fundo: age o dia inteiro e controla sobretudo a glicose de jejum.
- Entra cedo com sede, urina em excesso, perda de peso ou glicose muito alta, pela SBD e pela ADA 2026.
- Sem urgência, a ADA 2026 prefere começar por agonista de GLP-1 ou tirzepatida (Mounjaro) e somá-los à insulina quando ela entra.
- A dose começa baixa e sobe pela glicemia de jejum, num plano combinado com o médico.
- A insulina semanal icodeca (Awiqli) foi aprovada pela Anvisa em março de 2025; a efsitora (Onswik), nos Estados Unidos, em setembro de 2026.
Imagine um homem de 58 anos com diabetes tipo 2 há doze anos, três remédios e glicada de 9,4%. Ao ouvir "insulina basal", trava: é o fim da linha? Vai ficar dependente? Pode ficar cego?
Perceba que o medo vem de histórias antigas: a insulina é o hormônio que o corpo fabrica, agora em caneta, em geral uma vez por dia.
Se você procura o exame de sangue chamado insulina basal, ou insulina de jejum, veja insulina alta com glicose normal.
Metas, remédios e acompanhamento estão reunidos na página sobre o tratamento do diabetes com endocrinologista em São Paulo.
O que Você Precisa Saber
A basal é o fundo, não a refeição. Ela cobre a glicose entre as refeições e durante a noite.
Insulina não é castigo. É uma ferramenta, e às vezes temporária.
A dose é construída aos poucos. Começa baixa e sobe pela glicemia de jejum, no ritmo combinado com o médico.
Hipoglicemia e peso se previnem. Com meta individual, plano escrito e, muitas vezes, um agonista de GLP-1 junto.
O que é insulina basal: a torneira aberta o dia todo
Costumo explicar com uma torneira. O pâncreas deixa um fio de insulina escorrendo o dia inteiro, para segurar o fígado, que solta glicose no sangue entre as refeições. Na hora de comer, abre um jato extra.
insulina de ação longa que imita esse fio contínuo. Controla principalmente a glicemia de jejum.
A insulina das refeições, de ação rápida, faz o papel do jato. No diabetes tipo 2, o algoritmo da ADA começa pela basal.
Quando a insulina basal entra no diabetes tipo 2
| Situação | O que a diretriz diz | Fonte |
|---|---|---|
| Diabetes recente, glicada acima de 9%, com sede, urina em excesso ou perda de peso | A insulina é recomendada | SBD |
| Sintomas de glicose alta, glicada acima de 10% ou glicose a partir de 300 mg/dL | Considerar insulina em qualquer fase | ADA 2026 |
| Sem sintomas nem glicose muito alta | Agonista de GLP-1 ou tirzepatida, preferidos à insulina | ADA 2026 |
| Fora da meta com quatro remédios | Acrescentar insulina | SBD |
| Quando a insulina é usada | Somar agonista de GLP-1 ou tirzepatida; considerar a combinação fixa na mesma caneta | ADA 2026 e SBD |
Veja que a ordem mudou: pela ADA, agonista de GLP-1 e tirzepatida diminuem a hemoglobina glicada tanto quanto a insulina basal ou mais, com vantagem no peso. Detalho em tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic) no diabetes tipo 2.
Medo de insulina: os três mitos mais comuns
"É o fim da linha." Quando ela entra por glicose muito alta, ADA e SBD admitem simplificar depois, às vezes trocando por outros remédios.
"Vicia." Não existe dependência: é o hormônio que o corpo produz. Quando ela fica, é porque o diabetes tipo 2 tende a progredir.
"Cega." O que lesa a retina é a glicose alta por anos.
No estudo britânico UKPDS, de 1998, 3.867 pessoas com diabetes tipo 2 recém-diagnosticado receberam controle intensivo da glicose, com sulfonilureia ou insulina, ou convencional. Em cerca de dez anos, o grupo intensivo teve 25% menos complicações dos pequenos vasos, a maioria na retina.
Tipos de insulina basal
| Insulina (nome comercial) | Aplicação | Duração aproximada | Atenção |
|---|---|---|---|
| NPH (insulina humana) | 1 ou 2 vezes ao dia; ao deitar, se for dose única | Cerca de 12 horas, com pico | Mais hipoglicemia que os análogos; à noite, age de madrugada |
| Glargina U100 (Lantus, Basaglar) | 1 vez ao dia, no mesmo horário | Cerca de 24 horas | Sem pico importante |
| Glargina U300 (Toujeo) | 1 vez ao dia; a bula permite até 3 horas antes ou depois | Até 36 horas | Vinda da U100, a dose pode precisar ser 10% a 18% maior |
| Degludeca (Tresiba) | 1 vez ao dia; mínimo de 8 horas entre as doses | Mais de 42 horas | Maior folga de horário |
| Degludeca com liraglutida (Xultophy) | 1 vez ao dia | Diária | Insulina e agonista de GLP-1 na mesma caneta |
Glargina ou degludeca? Para a maioria, as duas funcionam bem; pela bula da glargina U300, a hipoglicemia noturna foi de 18% a 21% menor que com a U100 no tipo 2. A detemir (Levemir) ficou fora: saiu do mercado americano no fim de 2024 e vem sendo retirada de outros países.
Insulina semanal: o que mudou em 2025 e 2026
- Icodeca (Awiqli): aprovada na União Europeia em maio de 2024 e pela Anvisa em março de 2025, para adultos com tipo 1 e 2, sem data de lançamento anunciada; nos Estados Unidos, em março de 2026, só para o tipo 2.
- Efsitora (Onswik): parecer favorável da agência europeia em junho de 2026 e aprovação americana em setembro de 2026, para adultos com tipo 2. Até a publicação deste texto, não havia registro na Anvisa.
No estudo ONWARDS 1, de 78 semanas, 984 adultos com diabetes tipo 2 sem uso prévio de insulina receberam icodeca semanal ou glargina U100 diária. Na avaliação principal, a glicada diminuiu 1,55 ponto com a icodeca e 1,35 com a glargina.
No tipo 1, a agência europeia pede benefício claro para iniciar a icodeca, pelo risco maior de hipoglicemia.
Como a dose é ajustada: o algoritmo que o médico combina com você
ajuste gradual da dose, em pequenos passos, até a glicose chegar à meta.
Pelo algoritmo da ADA, o início costuma ser de 10 unidades por dia ou de 0,1 a 0,2 unidade por quilo; a bula da degludeca (Tresiba) fala em 10 unidades; a da glargina U300 (Toujeo), em 0,2 unidade por quilo. Um ritmo citado como exemplo: 2 unidades a mais a cada 3 dias até a glicemia de jejum chegar à meta, sem hipoglicemia. Com hipoglicemia, a ADA manda procurar a causa; sem causa clara, o médico reduz a dose em 10% a 20%.
A meta é individual. Pela SBD, a glicemia de jejum fica entre 80 e 130 mg/dL na maioria dos adultos, entre 90 e 150 no idoso frágil e entre 100 e 180 no idoso muito comprometido.
Meta, passos e limite saem de um plano escrito com o médico: não comece nem mude a dose por conta própria. Pela ADA, o sensor de glicose deve ser oferecido também a quem usa só insulina basal; veja sensor de glicose contínuo: vale a pena?.
Quando a dose sobe e a glicada não cai: superbasalização
uso de insulina basal além do que ela resolve, tentando corrigir com ela a glicose que sobe nas refeições.
Os sinais da ADA: diferença grande entre a glicose ao deitar e a da manhã, ou entre antes e depois das refeições; hipoglicemia; oscilação grande. Em edições anteriores, como a de 2021, a lista trazia dose acima de 0,5 unidade por quilo por dia; na de 2025, esse número saiu. O caminho costuma ser somar agonista de GLP-1 ou tirzepatida, ou insulina rápida na maior refeição.
Hipoglicemia, peso e o dia a dia
Hipoglicemia. É glicose abaixo de 70 mg/dL, com tremor, suor frio, coração acelerado ou fome súbita. Trate com 15 g de açúcar de absorção rápida, espere 15 minutos e meça de novo; veja hipoglicemia. Todo episódio vai para a consulta.
Peso. Na análise citada pela SBD, quem recebeu insulina ganhou em média 2,8 kg; somar agonista de GLP-1 diminui esse efeito.
Rotina. Veja como guardar as insulinas, locais de aplicação e rodízio e, se você dirige, diabetes, insulina e direção.
Alimentação: low carb com insulina, sempre com ajuste combinado
No diabetes tipo 2, com ou sem insulina, oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia, ou de 26% a 45% das calorias, referência da SBD, com prioridade de proteína e vegetais não amiláceos. No prato: metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade. Veja dieta low carb para diabetes.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico ao reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- O que é insulina basal e para que serve?
É a insulina de fundo: age devagar, por 24 horas ou mais, e imita o fio de insulina que o pâncreas libera o dia todo. Controla sobretudo a glicose de jejum, porque segura o fígado, que solta açúcar no sangue entre as refeições. A insulina da refeição é outra, de ação rápida.
- Insulina basal no exame de sangue é a mesma coisa que a do tratamento?
Não. No laudo, insulina basal é a insulina de jejum medida no sangue, usada para estimar a resistência à insulina. No tratamento, é a insulina de ação longa aplicada com caneta, como a glargina (Lantus) ou a degludeca (Tresiba). O exame não indica o remédio; quem decide são a glicada, a glicemia e o quadro clínico.
- Qual a diferença entre a insulina NPH e a glargina (Lantus)?
A NPH é insulina humana de ação intermediária: dura cerca de 12 horas, tem pico e muitas vezes precisa de duas aplicações. A glargina (Lantus, Basaglar) é um análogo que dura cerca de 24 horas, sem pico importante, em uma aplicação. A ADA aponta mais hipoglicemia com a insulina humana. A glargina não é regular nem NPH.
- Glargina (Lantus) ou degludeca (Tresiba): qual é melhor?
Para a maioria, as duas controlam bem a glicose de jejum. A degludeca (Tresiba) dura mais de 42 horas e, pela bula, admite mudar o horário com ao menos 8 horas entre as doses; a glargina U300 (Toujeo) permite aplicar até 3 horas antes ou depois do habitual. Pesam hipoglicemias anteriores, rotina e acesso. Escolha e troca se fazem com o médico.
- Como é feito o ajuste da dose da insulina basal?
Pelo algoritmo da ADA, começa-se em geral com 10 unidades por dia ou 0,1 a 0,2 unidade por quilo e sobe-se aos poucos, por exemplo 2 unidades a cada 3 dias, até a glicemia de jejum chegar à meta sem hipoglicemia. Meta, passos e limite são combinados com o médico, por escrito. Não comece nem mude a dose sozinho.
- A insulina glargina (Lantus) engorda?
Pode aumentar o peso, como qualquer insulina. Na análise citada pela Sociedade Brasileira de Diabetes, quem recebeu insulina ganhou em média 2,8 kg. Somar um agonista de GLP-1 ou a tirzepatida (Mounjaro) diminui esse efeito; alimentação low carb com proteína e treino de força ajudam. Não corte a insulina por conta própria.
- A insulina semanal já chegou ao Brasil?
A icodeca (Awiqli) foi aprovada pela Anvisa em março de 2025, para adultos com diabetes tipo 1 e 2; na aprovação, não havia data de lançamento, então vale confirmar a disponibilidade na consulta. A efsitora (Onswik) foi aprovada nos Estados Unidos em setembro de 2026, só para o tipo 2, e não encontrei registro na Anvisa até esta publicação.
- Depois que começa a insulina, é para sempre?
Nem sempre. Quando a insulina entra por glicose muito alta, a ADA e a SBD admitem simplificar o tratamento depois que a glicose se controla, às vezes trocando por outros remédios. Com muitos anos de diabetes, ela costuma ficar, porque a doença tende a progredir. Insulina não vicia: é o hormônio que o corpo produz. Nunca suspenda por conta própria.
Cuide do seu diabetes com orientação individual

Referências
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S183-S215. doi:10.2337/dc26-S009.
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes—2025 (Figura 9.4, intensificação para terapias injetáveis). Diabetes Care. 2025;48(Suppl 1). doi:10.2337/dc25-S009.
- Lyra R, Albuquerque L, Cavalcanti S, Tambascia M, Silva Júnior WS, Bertoluci MC. Manejo da terapia antidiabética no DM2. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2026 (capítulo revisado em setembro de 2024). doi:10.29327/5412848.2024-7.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Metas no tratamento do diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (revisão de maio de 2023). doi:10.29327/557753.2022-3.
- UK Prospective Diabetes Study (UKPDS) Group. Intensive blood-glucose control with sulphonylureas or insulin compared with conventional treatment and risk of complications in patients with type 2 diabetes (UKPDS 33). Lancet. 1998;352(9131):837-853. doi:10.1016/S0140-6736(98)07019-6.
- Rosenstock J, Bain SC, Gowda A, et al. Weekly Icodec versus Daily Glargine U100 in Type 2 Diabetes without Previous Insulin (ONWARDS 1). N Engl J Med. 2023;389(4):297-308. doi:10.1056/NEJMoa2303208.
- Breaking Barriers With Basal Insulin Biosimilars in Type 2 Diabetes. Clin Diabetes. 2023;41(2):154-162 (Tabela 1, farmacocinética das insulinas basais). doi:10.2337/cd22-0016.
- European Medicines Agency. Informação do produto de Tresiba (insulina degludeca), Toujeo (insulina glargina 300 unidades/mL) e Lantus (insulina glargina 100 unidades/mL); EPAR de Awiqli (insulina icodeca), autorizado em 17 de maio de 2024; parecer favorável do CHMP para Onswik (insulina efsitora alfa), 25 de junho de 2026. Bula brasileira de Xultophy (insulina degludeca e liraglutida). Consultados em novembro de 2026.
- Conselho Federal de Farmácia. Anvisa autoriza primeira insulina semanal para diabetes tipo 1 e 2 no Brasil. 10 de março de 2025. U.S. Food and Drug Administration: aprovação de Awiqli (insulin icodec-abae), 26 de março de 2026, e de Onswik (insulin efsitora alfa-gobe), 24 de setembro de 2026. Novo Nordisk: descontinuação de Levemir (insulin detemir) nos Estados Unidos ao fim de 2024.
