Gliclazida (Diamicron MR) e glibenclamida (Daonil): para que servem e se ainda têm lugar no diabetes
Gliclazida para que serve, glibenclamida e glimepirida (Amaryl): hipoglicemia, peso e SUS
Resumo rápido
- Gliclazida (Diamicron MR), glibenclamida (Daonil) e glimepirida (Amaryl) fazem o pâncreas liberar insulina mesmo com a glicose normal.
- Diminuem bem a glicose e custam pouco, mas causam hipoglicemia e ganho de peso.
- A glibenclamida é a que mais causa hipoglicemia.
- Com doença do coração ou do rim, outros remédios protegem e vêm antes.
- No SUS, há glibenclamida e gliclazida; no Farmácia Popular, só a glibenclamida.
Imagine um homem de 74 anos, com diabetes tipo 2, que toma metformina e glibenclamida (Daonil). Passou a almoçar menos para emagrecer e, à tarde, sente tremor e suor frio. Sugerem a gliclazida (Diamicron MR), e a filha pesquisa: gliclazida para que serve? É melhor?
Veja que a pergunta certa é outra: ele ainda precisa de uma sulfonilureia? O passo a passo está em tratamento do diabetes tipo 2; aqui, o foco são esses comprimidos.
O que Você Precisa Saber
Funcionam, mas sem freio. Liberam insulina com a glicose alta ou normal; daí a hipoglicemia.
Não são todas iguais. A glibenclamida tem o maior risco de hipoglicemia da classe.
Não protegem coração nem rim. Para isso, há a dapagliflozina e os agonistas de GLP-1.
Mudar a alimentação pede ajustar a dose. Cortar carboidrato com sulfonilureia, sem o médico, aumenta muito o risco de hipoglicemia.
Como agem: a torneira que não fecha
Pense numa torneira de boia: o pâncreas libera insulina quando a glicose sobe e fecha a torneira quando ela baixa. A sulfonilureia prende a boia, e a torneira segue aberta.
classe de comprimidos para diabetes tipo 2 que estimula o pâncreas a liberar insulina, independentemente da glicose do momento.
A metformina, sozinha, não causa hipoglicemia. Com sulfonilureia, pular refeição é arriscado.
Glibenclamida, gliclazida e glimepirida: as diferenças
| Remédio (nome comercial) | Tomada e duração, pela bula | Risco de hipoglicemia | Rim, pela bula | Observações |
|---|---|---|---|---|
| Glibenclamida (Daonil) | Antes do café da manhã; efeito por cerca de 24 horas | O maior da classe | Não usar com disfunção grave | De 2,5 a 15 mg por dia, em geral; ação longa |
| Gliclazida de liberação prolongada (Diamicron MR) | Uma vez ao dia, no café da manhã | Menor que o da glimepirida (GUIDE) | Leve ou moderada: com monitoramento; grave: não usar | De 30 a 120 mg por dia |
| Glimepirida (Amaryl) | Uma vez ao dia, antes da primeira refeição principal | Maior que o da gliclazida (GUIDE) | Rim fraco: mais sensibilidade ao remédio | De 1 a 4 mg por dia, em geral; ação longa |
Numa meta-análise de 2007, a glibenclamida teve 83% mais risco de hipoglicemia que outras sulfonilureias. No estudo GUIDE, de 2004, com 845 pessoas e glicada parecida, a hipoglicemia ocorreu em 3,7% com gliclazida e 8,9% com glimepirida.
O que os grandes estudos mostraram
No UKPDS, estudo britânico de 1998, 3.867 pessoas com diabetes tipo 2 recém-diagnosticado receberam controle intensivo, com sulfonilureia ou insulina, ou convencional. A glicada média ficou em 7,0% contra 7,9%, e as complicações dos pequenos vasos, a maioria na retina, foram 25% menores. Dez anos após o estudo, o grupo intensivo tinha 15% menos infarto e 13% menos mortes.
- ADVANCE (2008): em 11.140 pessoas, o tratamento intensivo com gliclazida levou a glicada a 6,5%, contra 7,3%. O risco de doença renal diminuiu 21%; o de infarto, AVC e morte, não de forma significativa. Hipoglicemia grave: 2,7% contra 1,5%.
- CAROLINA (2019): em 6.033 pessoas com risco cardiovascular alto, infarto, AVC ou morte cardiovascular: 11,8% com linagliptina e 12,0% com glimepirida; hipoglicemia: 10,6% contra 37,7%.
- TOSCA.IT (2017): em 3.028 pessoas com metformina, somar pioglitazona ou sulfonilureia, sobretudo gliclazida e glimepirida, deu eventos cardiovasculares semelhantes; hipoglicemia: 10% contra 34%.
Perceba: as sulfonilureias não aumentaram os eventos do coração, mas não mostraram a proteção da dapagliflozina e dos agonistas de GLP-1.
Hipoglicemia: quem tem mais risco e o que fazer
glicose abaixo de 70 mg/dL, com tremor, suor frio, coração acelerado, fome súbita ou confusão.
Pelas bulas, o risco aumenta com idade avançada, refeições puladas ou menores, jejum, exercício sem carboidrato, rim ou fígado funcionando mal, álcool e outros remédios.
Na hora, use a regra dos 15: 15 g de açúcar de absorção rápida, esperar 15 minutos e medir de novo. Com sulfonilureia, ela pode voltar, porque o remédio age por horas: avise o médico; sem melhora após duas rodadas, com confusão ou desmaio, é urgência. Veja como tratar a hipoglicemia.
Idosos. Os critérios de Beers de 2023, da Sociedade Americana de Geriatria, mandam evitar sulfonilureias como primeira ou segunda opção, salvo barreiras à metformina, aos agonistas de GLP-1 ou aos inibidores de SGLT2; se usadas, preferem as de ação curta às de ação longa, como glibenclamida e glimepirida.
Dirigir e álcool. Meça a glicose antes de dirigir; abaixo de 90 mg/dL, coma antes. Com sintomas ao volante, pare, trate e espere 45 minutos. O álcool pode causar hipoglicemia horas depois: beba com comida.
Peso: a gliclazida engorda?
Pode aumentar um pouco. No UKPDS, o ganho foi de 1,7 kg com glibenclamida e de 4,0 kg com insulina; no ADVANCE, o grupo intensivo pesou 0,7 kg a mais. Com sobrepeso ou obesidade, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) indica o agonista de GLP-1 ou a tirzepatida; veja tirzepatida (Mounjaro) e semaglutida (Ozempic) no diabetes tipo 2.
SUS e Farmácia Popular
| Remédio | RENAME 2024 (SUS) | Farmácia Popular |
|---|---|---|
| Glibenclamida 5 mg | Sim, componente básico | Sim, gratuita |
| Gliclazida 30 e 60 mg de liberação prolongada e 80 mg | Sim, componente básico | Não |
| Glimepirida | Não | Não |
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) de 2024 saiu na Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024; a oferta segue a lista de cada município. O Farmácia Popular, gratuito desde fevereiro de 2025, traz em 2026 a glibenclamida, não a gliclazida nem a glimepirida.
Onde ainda têm lugar e onde não deveriam ser a primeira escolha
Pela SBD e pela ADA 2026, com doença cardiovascular ou risco alto, o inibidor de SGLT2 ou o agonista de GLP-1 entra qualquer que seja a glicada; com insuficiência cardíaca, a ADA indica o inibidor de SGLT2; na doença renal crônica, ele ou o agonista de GLP-1. Veja dapagliflozina (Forxiga) e empagliflozina (Jardiance). Não existe equilíbrio, existe prioridade: com coração ou rim doente, o remédio que protege vem antes.
As sulfonilureias têm lugar quando essas opções e a metformina não podem ser usadas ou não estão ao alcance: custam pouco e estão no SUS. Com sede, urina em excesso e perda de peso com glicose muito alta, a SBD recomenda insulina, e a ADA 2026 a considera; veja insulina basal.
Na minha visão, quem está na meta, sem hipoglicemia nem doença do coração ou do rim, não precisa trocar às pressas; veja tratamento do diabetes com endocrinologista em São Paulo.
Como reduzir ou trocar, sempre com o médico
Ao começar tirzepatida, semaglutida ou insulina, as bulas preveem diminuir a dose da sulfonilureia. Pela bula da gliclazida, perda de peso e mudança de hábitos podem exigir outra dose. Dose, troca e suspensão são decisões com o médico: parar por conta própria faz a glicose voltar a subir.
Alimentação: low carb, com a dose ajustada antes
No diabetes tipo 2, oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia, ou de 26% a 45% das calorias, referência da SBD, com prioridade de proteína e vegetais não amiláceos. No prato: metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade. Veja dieta low carb para diabetes.
Com gliclazida, glibenclamida ou glimepirida, reduzir o carboidrato sem ajustar a dose com o médico aumenta muito o risco de hipoglicemia: o remédio continua liberando insulina para uma refeição que ficou menor. Quem usa insulina também precisa de ajuste, e, com inibidor de SGLT2, cortar carboidrato aumenta o risco de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Gliclazida (Diamicron MR): para que serve?
Serve para diminuir a glicose no diabetes tipo 2 quando alimentação, atividade física e perda de peso não bastam, sozinha ou com outros remédios. Faz o pâncreas liberar mais insulina. Pela bula, é tomada uma vez ao dia, no café da manhã, de 30 a 120 mg. Não trata diabetes tipo 1 e não emagrece.
- Gliclazida (Diamicron MR) ou glibenclamida (Daonil): qual é melhor?
Diminuem a glicose de forma parecida, mas a glibenclamida causa mais hipoglicemia: numa meta-análise de 2007, 83% mais risco que outras sulfonilureias. Os critérios de Beers de 2023 pedem evitar as de ação longa, como ela, em idosos. Na minha visão, se uma sulfonilureia é necessária, a gliclazida é a mais segura.
- Gliclazida (Diamicron MR) engorda ou emagrece?
Não emagrece e pode aumentar um pouco o peso, como as outras sulfonilureias. No estudo ADVANCE, o grupo do tratamento intensivo com gliclazida pesou 0,7 kg a mais. Se o peso é prioridade, os agonistas de GLP-1 e a tirzepatida (Mounjaro) diminuem a glicose e o peso, com indicação médica.
- A gliclazida (Diamicron MR) pode ser tomada à noite?
Pela bula, a gliclazida de liberação prolongada é tomada uma vez ao dia, com o café da manhã, sempre seguida de uma refeição; a bula não prevê dose à noite. Se esquecer, não aumente a dose do dia seguinte. A glibenclamida (Daonil) vai antes do café da manhã. Mudar o horário se combina com o médico.
- Posso tomar gliclazida (Diamicron MR) junto com metformina (Glifage)?
Pode, quando o médico indica: é uma combinação antiga, testada, por exemplo, no estudo TOSCA.IT, em que todos usavam metformina. A metformina sozinha não causa hipoglicemia, mas a combinação pode causar, por causa da sulfonilureia. Refeição pulada, exercício intenso e álcool pedem atenção; tremor ou suor frio devem ser contados ao médico.
- A gliclazida (Diamicron MR) pode ser partida?
Pela bula, o comprimido de 60 mg pode ser dividido ao meio, mas não deve ser mastigado nem triturado. Ele é de liberação prolongada: solta o remédio aos poucos ao longo do dia, e triturar altera essa liberação. Se a dose exige partir outro comprimido, confirme a apresentação com o médico ou o farmacêutico.
- A glibenclamida (Daonil) causa hipoglicemia?
Sim, e é a sulfonilureia que mais causa. No UKPDS, hipoglicemias graves ocorreram em 1,4% ao ano com glibenclamida, contra 0,7% com o tratamento convencional. O risco cresce com idade, rim fraco, refeições puladas, exercício e álcool. Abaixo de 70 mg/dL, use a regra dos 15 e avise o médico: o efeito dura horas.
- Gliclazida pega na Farmácia Popular?
Não. Em 2026, o Farmácia Popular oferece de graça só a glibenclamida 5 mg. A gliclazida de 30, 60 e 80 mg está na RENAME 2024, no componente básico do SUS, retirada com receita nas unidades de saúde, conforme a lista do município. A glimepirida não está em nenhuma das duas.
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Referências
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- 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081. doi:10.1111/jgs.18372.
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- Bulas brasileiras de gliclazida de liberação prolongada (Diamicron MR; Servier), glibenclamida (Daonil; Sanofi, texto aprovado pela Anvisa em 5 de maio de 2017) e glimepirida (Amaryl; Sanofi, texto atualizado em 8 de setembro de 2026). Consultadas em novembro de 2026.
