Progesterona na reposição hormonal: para que serve e quem precisa
Progesterona micronizada, didrogesterona ou DIU: quem precisa, sono, mama e cremes
Resumo rápido
- Na reposição hormonal, a progesterona protege o endométrio, a camada interna do útero, do estímulo do estrogênio.
- Precisa quem tem útero e usa estrogênio que chega ao sangue: gel, adesivo, spray, comprimido ou implante.
- Sem útero, em geral não precisa; a exceção mais discutida é a endometriose.
- A progesterona micronizada dá sono e vai à noite; na mama, tem dados observacionais mais favoráveis que os sintéticos antigos, sem risco zero.
- Creme ou gel de progesterona na pele não protege o útero de forma comprovada.
Imagine uma mulher de 51 anos que começou a reposição hormonal com estradiol em gel e recebeu também progesterona para tomar à noite. A irmã, que tirou o útero, usa só o gel. Por que uma precisa e a outra não? Engorda? E o creme que uma amiga passa no braço não serviria?
A progesterona na reposição hormonal não é um hormônio "para equilibrar": tem uma função precisa, proteger o útero.
Quem tem indicação de reposição está em reposição hormonal na menopausa, e a escolha do estrogênio, em estradiol em gel, adesivo ou comprimido.
O que Você Precisa Saber
A progesterona protege o útero, não trata o fogacho. Quem alivia os sintomas é o estrogênio; o progestagênio impede que ele faça o endométrio crescer demais.
O útero é o critério. Com útero e estrogênio sistêmico, progestagênio sempre; sem útero, em geral, não.
Tipo, dose, dias e via importam. Dose baixa, dias de menos ou via que absorve mal deixam o endométrio desprotegido.
Na mama, o tipo de progestagênio pesa. Progesterona micronizada e didrogesterona têm dados mais favoráveis, mas nenhum esquema combinado tem risco zero.
Por que o estrogênio sozinho espessa o endométrio: a grama e o cortador
camada que reveste o útero por dentro. Na idade fértil, cresce a cada ciclo e descama na menstruação.
Costumo explicar assim: o estrogênio é o adubo, e o endométrio, a grama. Com adubo todo dia e ninguém para cortar, a grama cresce sem parar. A progesterona é o cortador: faz o endométrio amadurecer e parar de crescer. Antes da menopausa, o ovário faz esse papel depois da ovulação; na reposição, o cortador vem de fora.
No estudo americano PEPI, com 596 mulheres de 45 a 64 anos acompanhadas por três anos, o estrogênio conjugado isolado levou a hiperplasia simples do endométrio em 27,7%, complexa em 22,7% e atípica em 11,8%, contra 0,8%, 0,8% e 0% no placebo. Nos esquemas que associaram progestagênio, a hiperplasia ficou semelhante à do placebo.
Hiperplasia é o crescimento excessivo do endométrio, e a atípica pode evoluir para câncer. Por isso, estrogênio sem progestagênio, tendo útero, é o risco mais evitável da reposição.
Quem precisa e quem não precisa de progesterona
Pela Sociedade Europeia de Endocrinologia (ESE, 2025): com útero, estrogênio com progestagênio; sem útero, estrogênio isolado.
| Situação | Precisa de progestagênio? | O que costuma ser usado |
|---|---|---|
| Tem útero e usa estrogênio em gel, adesivo, spray ou comprimido | Sim | Progesterona micronizada, didrogesterona, DIU de levonorgestrel ou comprimido combinado |
| Tem útero e usa implante de estradiol | Sim | As mesmas opções |
| Perimenopausa, ainda com ciclos, em estrogênio sistêmico | Sim | Em geral, esquema cíclico |
| Tirou o útero | Em geral, não | Estrogênio isolado |
| Tirou o útero e teve endometriose | Pode precisar | Esquema combinado contínuo, preferido pela EMAS (2025) |
| Usa só estrogênio vaginal em dose baixa | Em geral, não | Creme, óvulo ou comprimido vaginal |
Na endometriose, a EMAS prefere manter o progestagênio mesmo sem útero, para diminuir a chance de reativar focos da doença, com evidência limitada; veja menopausa, endometriose e reposição. O estrogênio vaginal em dose baixa, para secura, tem absorção mínima e, em geral, dispensa progestagênio.
Implante de estradiol. Embora ainda contraindicado pelas diretrizes médicas, em casos específicos e selecionados pode ser uma via possível de reposição hormonal, com dose controlada, acompanhamento dos níveis hormonais e progesterona em quem tem útero.
Progesterona micronizada ou progestagênio sintético: as opções no Brasil
grupo que inclui a progesterona natural e substâncias sintéticas parecidas com ela. Todos protegem o endométrio, mas agem de forma diferente na mama, na coagulação e no humor.
A progesterona micronizada é idêntica à do ovário; os sintéticos são outras moléculas. Pelas bulas brasileiras:
| Opção | Como se usa, pela bula | Observação |
|---|---|---|
| Progesterona micronizada (Utrogestan) | 100 mg à noite, de 25 a 30 dias por mês, ou 200 mg à noite, de 12 a 14 dias por mês | Longe das refeições; dá sono |
| Didrogesterona (Duphaston) | 10 mg por dia, de 12 a 14 dias por ciclo | Sintética, de uso oral |
| DIU de levonorgestrel 52 mg (Mirena) | Dentro do útero | A bula inclui a proteção do endométrio na reposição |
| Estradiol com drospirenona (Angeliq) | Comprimido com os dois hormônios | O estrogênio vai pela boca |
| Estradiol com noretisterona (Cliane) | Comprimido com os dois hormônios | O estrogênio vai pela boca |
Um painel internacional, numa revisão sistemática de 2016, concluiu que 200 mg de progesterona micronizada por dia, de 12 a 14 dias por mês, protegem o endométrio por até cinco anos. Dose, esquema e troca são decisões com o médico, e a receita precisa dizer quais dias tomar, como explico em como iniciar a reposição hormonal.
Esquema cíclico ou contínuo: o que muda no sangramento
Cíclico. Estrogênio todo dia e progestagênio em parte do mês; cerca de 90% das mulheres têm um sangramento previsto, em geral de 3 a 7 dias. Comum na perimenopausa.
Contínuo. Os dois todos os dias, em geral para quem está há 12 meses ou mais sem menstruar. Escapes no início são comuns, e espera-se que o sangramento pare por volta do sexto mês.
Sangramento que dura mais de 7 dias, vem com coágulos, aparece quase todo dia ou volta depois de meses sem sangrar não é o esperado; veja sangramento na reposição hormonal.
Mama: o que o WHI e o estudo francês E3N mostram
No Women's Health Initiative (WHI), com estrogênio conjugado e acetato de medroxiprogesterona, um progestagênio sintético, o câncer de mama apareceu, por ano, em 4,5 de cada 1.000 mulheres, contra 3,6 no placebo, em mais de 20 anos de seguimento. Com estrogênio isolado, sem útero, foram 3,0 contra 3,7.
Na coorte francesa E3N, com 80.377 mulheres na pós-menopausa acompanhadas em média por 8,1 anos, o estrogênio com progesterona micronizada não aumentou o risco de câncer de mama (risco relativo de 1,00). Com didrogesterona, o aumento foi pequeno e incerto (1,16). Com os outros progestagênios sintéticos, o risco foi 69% maior.
O E3N é observacional: quem usou cada hormônio pode diferir em outros aspectos. Uma revisão sistemática de 2018 não viu aumento com progesterona micronizada em até cinco anos de uso, mas achou evidência limitada de aumento depois disso. Possível menor risco, não risco zero; veja mamografia e reposição hormonal.
Efeitos: sono, inchaço, humor e trombose
Sono. A bula traz sonolência e tontura de 1 a 3 horas após a dose e desaconselha dirigir depois. Por isso a progesterona micronizada vai à noite; se a insônia continua, veja insônia na menopausa.
Inchaço e outros. Cansaço, inchaço, dor de cabeça e alteração de peso estão entre os efeitos muito comuns da bula.
Humor. Na bula, irritabilidade é incomum, e depressão, rara; se o humor piorar, o esquema é revisto com o médico.
Trombose. No estudo francês ESTHER, a progesterona micronizada não aumentou a trombose venosa (0,7); os derivados norpregnanos, sintéticos, sim (3,9).
Vias: oral, vaginal, DIU e por que o creme não serve
Oral ou vaginal. No Brasil, a bula da progesterona micronizada (Utrogestan) permite trocar a oral pela vaginal, nas mesmas doses, quando há efeito adverso. A revisão de 2016 concluiu que a via vaginal pode proteger o endométrio, com estudos menores; em outros países, costuma ser uso fora da bula.
DIU de levonorgestrel. Libera o progestagênio dentro do útero e diminui os sangramentos fora de hora.
Creme ou gel na pele. A revisão de 2016 concluiu que a progesterona pela pele não protege o endométrio, e a ESE lembra que o creme é mal absorvido. A crítica não é ao manipulado em si: é à via e à falta de padronização de dose, que, pela The Menopause Society (2022), traz risco de dose a mais ou a menos e de impurezas.
Também não são progesterona os chips de gestrinona em dose alta, que entregam doses imprevisíveis e podem masculinizar de forma irreversível; veja os riscos dos chips e da testosterona manipulada. Outros tropeços estão em erros na reposição hormonal.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Para que serve a progesterona na reposição hormonal?
Para proteger o endométrio, a camada interna do útero, que cresce com o estrogênio que chega ao sangue; sem progestagênio, aumenta o risco de hiperplasia e de câncer de endométrio. A progesterona micronizada (Utrogestan) também dá sono, mas não trata o fogacho: quem alivia os fogachos e o suor noturno é o estrogênio.
- Quem tirou o útero precisa tomar progesterona?
Em geral, não: sem útero, a reposição costuma ser só com estrogênio, que, no WHI, não aumentou o câncer de mama. A exceção mais discutida é a endometriose: a EMAS (2025) prefere esquema combinado contínuo mesmo sem útero, para diminuir a chance de reativar a doença, com evidência limitada. Conte esse histórico ao médico.
- Progesterona micronizada dá sono?
Pode dar. A bula da progesterona micronizada (Utrogestan) traz sonolência e tontura de 1 a 3 horas após a dose e desaconselha dirigir depois. Por isso ela é tomada à noite, antes de dormir e longe das refeições. Quem acorda sonolenta no dia seguinte conversa com o médico sobre horário ou via.
- Progesterona em gel ou creme funciona na menopausa?
Para proteger o útero, não de forma comprovada. Uma revisão sistemática de 2016 concluiu que a progesterona pela pele não protege o endométrio, e a diretriz europeia de endocrinologia (ESE, 2025) lembra que o creme é mal absorvido. O problema é a via e a falta de padronização da dose, não o fato de ser manipulado.
- Progesterona engorda na menopausa?
A bula traz inchaço e alteração de peso e de apetite entre os efeitos muito comuns. Numa revisão Cochrane de 28 ensaios, porém, o peso de quem usou estrogênio, isolado ou com progestagênio, não diferiu do de quem não usou. Se o inchaço incomodar, tipo, dose ou via são trocados com o médico.
- Progesterona pode causar câncer de mama?
Estrogênio com progestagênio aumenta um pouco o risco, que cresce com o tempo de uso. O tipo pesa: no estudo francês E3N, a progesterona micronizada não aumentou o risco, e outros progestagênios sintéticos o elevaram em 69%. Uma revisão de 2018 não viu aumento em até cinco anos. São dados observacionais: risco possivelmente menor, não zero.
- Progesterona pode causar trombose?
Nos dados disponíveis, a micronizada não: no estudo francês ESTHER, a chance foi de 0,7 com ela e de 3,9 com derivados norpregnanos, um grupo de sintéticos. No mesmo estudo, o aumento veio do estrogênio em comprimido, e não do aplicado na pele. Quem já teve trombose precisa de avaliação individual.
- A progesterona na menopausa faz menstruar?
Depende do esquema. No cíclico, cerca de 90% das mulheres têm um sangramento previsto, em geral de 3 a 7 dias. No contínuo, espera-se que ele pare por volta do sexto mês. Sangramento de mais de 7 dias, com coágulos ou que volta depois de meses sem sangrar precisa de avaliação.
Reposição hormonal com orientação individual
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
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Referências
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- Stute P, Neulen J, Wildt L. The impact of micronized progesterone on the endometrium: a systematic review. Climacteric. 2016;19(4):316-328. doi:10.1080/13697137.2016.1187123.
- Stute P, Wildt L, Neulen J. The impact of micronized progesterone on breast cancer risk: a systematic review. Climacteric. 2018;21(2):111-122. doi:10.1080/13697137.2017.1421925.
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- Chlebowski RT, Anderson GL, Aragaki AK, et al. Association of menopausal hormone therapy with breast cancer incidence and mortality during long-term follow-up of the Women's Health Initiative randomized clinical trials. JAMA. 2020;324(4):369-380. doi:10.1001/jama.2020.9482.
- Canonico M, Oger E, Plu-Bureau G, et al. Hormone therapy and venous thromboembolism among postmenopausal women: impact of the route of estrogen administration and progestogens: the ESTHER study. Circulation. 2007;115(7):840-845. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.106.642280.
- The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. doi:10.1097/GME.0000000000002028.
- Lumsden MA, Dekkers OM, Faubion SS, et al. European Society of Endocrinology Clinical Practice Guideline for evaluation and management of menopause and the perimenopause. Eur J Endocrinol. 2025;193(4):G49-G81. doi:10.1093/ejendo/lvaf206.
- Bulas brasileiras de progesterona micronizada (Utrogestan; Besins Healthcare), didrogesterona (Duphaston; Abbott), sistema intrauterino de levonorgestrel 52 mg (Mirena; Bayer), estradiol com drospirenona (Angeliq; Bayer) e estradiol com acetato de noretisterona (Cliane; Bayer). Consultadas em novembro de 2026.
