Estradiol em gel, adesivo ou comprimido: qual a diferença na reposição hormonal
Estradiol gel ou comprimido, adesivo ou spray: trombose, efeitos e como escolher a via
Resumo rápido
- O comprimido passa primeiro pelo fígado; gel, adesivo e spray entram direto no sangue.
- Em grandes estudos observacionais, o estrogênio oral aumentou a trombose venosa; o estradiol pela pele, não.
- A pele é a via preferida com obesidade, enxaqueca com aura, diabetes, pressão difícil de controlar ou trombose prévia.
- O comprimido ainda serve à mulher jovem, sem fatores de risco, que prefere tomar.
- Com útero, qualquer via pede progestagênio; o estrogênio vaginal em dose baixa é outra coisa.
Imagine uma mulher de 52 anos, com fogachos que a acordam à noite, índice de massa corporal de 31 e enxaqueca com aura desde jovem. A amiga toma um comprimido; a irmã passa um gel no braço. Estradiol gel ou comprimido: faz diferença?
Faz. O hormônio é o mesmo, o estradiol, idêntico ao do ovário; muda o caminho até o sangue, e com ele parte dos riscos. Para ela, a pele seria o caminho natural.
Quem tem indicação está em reposição hormonal na menopausa, e os primeiros passos, em como iniciar a reposição hormonal.
Sintomas, opções com e sem hormônio e acompanhamento estão reunidos na página sobre o tratamento da menopausa com endocrinologista em São Paulo.
O que Você Precisa Saber
A via muda o caminho, não o hormônio. Só o comprimido faz antes uma parada no fígado.
Trombose é a maior diferença. Nos grandes estudos, o comprimido aumentou o risco de coágulo nas veias; a pele, não.
A pele não dispensa a progesterona. Com útero, qualquer estrogênio que chegue ao sangue pede progestagênio.
Não existe troca automática. A quantidade impressa em cada apresentação não representa a mesma exposição ao hormônio.
Por que a via muda o efeito: o pedágio do fígado
Costumo explicar assim: tudo o que se engole passa pelo fígado antes de chegar ao resto do corpo, como num pedágio. O estradiol em comprimido chega ao fígado em concentração alta e o estimula a fabricar mais fatores de coagulação, triglicérides e SHBG, a proteína que prende os hormônios sexuais.
absorção do hormônio pela pele, por gel, adesivo ou spray. O estradiol entra direto na circulação, sem passar primeiro pelo fígado.
Trombose: o que mostram o ESTHER e o estudo do BMJ
Trombose venosa é o coágulo numa veia, em geral da perna, que pode ir ao pulmão.
No estudo francês ESTHER, de 2007, com 271 mulheres de 45 a 70 anos com trombose venosa e 610 sem, o estrogênio oral se associou a uma chance 4,2 vezes maior de trombose; o estrogênio pela pele, a 0,9, sem aumento. No estudo britânico de Vinogradova (BMJ, 2019), com 80.396 mulheres de 40 a 79 anos com trombose e 391.494 sem, a via oral aumentou a chance em 58%, e a transdérmica não.
São estudos observacionais, sem ensaio grande comparando as vias, mas as diretrizes seguem a mesma direção:
- The Menopause Society (2022): via transdérmica e doses mais baixas podem diminuir o risco de trombose e de AVC.
- Sociedade Europeia de Endocrinologia (ESE, 2025): após uma trombose, se houver indicação depois de avaliação individual, estrogênio transdérmico em dose baixa.
- Diretriz brasileira de saúde cardiovascular no climatério (2024): com sobrepeso ou obesidade, pelo risco de trombose, estradiol de preferência pela pele.
- Consenso brasileiro de 2024 (SOBRAC e FEBRASGO): preferência pela via não oral.
AVC, triglicérides, pressão, vesícula e SHBG
Num estudo britânico de 2010, com 15.710 mulheres de 50 a 79 anos com AVC e 59.958 sem, o adesivo de até 50 mcg por dia não aumentou o risco (razão de 0,81). Acima de 50 mcg, a razão foi de 1,89; com o comprimido, de 1,28.
- Triglicérides. O comprimido os sobe; a pele, não. Com triglicérides altos, costumo preferir a pele.
- Pressão. Com pressão controlada e risco baixo, a diretriz brasileira aceita as duas vias, e a ESE prefere a pele. A partir de 180/110 mmHg, a reposição não começa.
- Vesícula. No Million Women Study, com mais de 1 milhão de britânicas, a internação por doença da vesícula foi 74% mais frequente com o comprimido e 17% com a pele, em relação a quem nunca usou.
- SHBG e tireoide. O comprimido aumenta a SHBG, que prende a testosterona, e pode exigir mais levotiroxina; a pele não costuma fazer isso.
Quem se beneficia mais da via pela pele
O estradiol pela pele é a minha primeira escolha na maioria das mulheres. Em algumas situações, vira regra:
| Situação | O que se prefere | Base |
|---|---|---|
| Sobrepeso ou obesidade | Pela pele | Diretriz brasileira (2024) |
| Trombose prévia | Comprimido, não; pele em dose baixa, após avaliação individual | ESE (2025) |
| Enxaqueca com aura | Pela pele; comprimido, não | ESE (2025) |
| Diabetes tipo 2 | Pela pele; iniciar com glicada abaixo de 8% | Diretriz brasileira (2024); ESE (2025) |
| Pressão difícil de controlar | Pela pele | Diretriz brasileira (2024) |
| Colesterol alto ou síndrome metabólica | Pela pele | Diretriz brasileira (2024) |
| Triglicérides altos | Pela pele | Efeito do comprimido no fígado |
| Vesícula | Pela pele, com menos internações | Million Women Study (2008) |
| Doença do fígado ativa ou grave | Nenhuma reposição sistêmica, nem gel | Bula do gel |
Sobre a enxaqueca, veja menopausa, enxaqueca com aura e reposição.
Quando o comprimido ainda é opção
O comprimido é eficaz e prático. Faz sentido para a mulher jovem, sem fatores de risco, que prefere tomar, e para quem não se adapta ao gel ou ao adesivo. A ESE pede considerar preferência, disponibilidade e custo.
O tipo de estrogênio também pesa: no estudo do BMJ, o estradiol se associou a menos trombose do que o estrogênio conjugado equino.
Progesterona para quem tem útero
grupo que inclui a progesterona natural e substâncias sintéticas parecidas. Protege o endométrio, a camada interna do útero, do crescimento estimulado pelo estrogênio.
Com útero, estrogênio com progestagênio; sem útero, estrogênio isolado, pela ESE. A bula do estradiol gel (Oestrogel) pede progestagênio por pelo menos 12 dias por mês em quem tem útero.
- Progesterona micronizada: idêntica à natural, à noite, todo dia ou de 12 a 14 dias por mês. No ESTHER, não aumentou a trombose (0,7); os derivados norpregnanos, sim (3,9).
- Didrogesterona: no estudo do BMJ, com estradiol, sem aumento significativo (1,18); estrogênio conjugado com medroxiprogesterona, 2,10.
- DIU de levonorgestrel 52 mg (Mirena): a bula brasileira inclui a proteção do endométrio na reposição.
- Creme de progesterona manipulado: não protege o útero de forma confiável.
O progestagênio também mexe na mama; veja mamografia e reposição hormonal, e pode causar escapes; veja sangramento na reposição hormonal.
Gel, adesivo ou spray: praticidade, pele e transferência
Pelas bulas brasileiras:
| Estradiol gel (Oestrogel) | Estradiol adesivo (Estradot) | Estradiol spray (Lenzetto) | |
|---|---|---|---|
| Como usa | Uma vez ao dia, no mesmo horário | Troca duas vezes por semana | Uma vez ao dia, de 1 a 3 jatos, conforme a prescrição |
| Onde | Abdômen, coxas, braços, ombros ou lombar | Parte baixa do abdômen, mudando o local | Parte interna do antebraço ou da coxa |
| Cuidado | Não lavar o local por 1 hora | Pele seca, sem creme; longe do sol | Banho só 1 hora depois |
| Ponto fraco | Rotina diária | Coceira e vermelhidão são muito comuns | Contato com crianças e animais |
A medida de 2,5 g do gel tem 1,5 mg de estradiol; o adesivo libera 25, 50 ou 100 mcg por dia; cada jato do spray, 1,53 mg. Esses números não se convertem diretamente: troca de via e dose são decisões com o médico.
Gel. Pela bula, nunca nas mamas, em mucosas ou na pele irritada; secar cerca de 2 minutos antes de se vestir e lavar as mãos. Tem álcool: é inflamável até secar.
Transferência. A bula do spray pede que outras pessoas, sobretudo crianças, não toquem a pele tratada, e que animais não a lambam. Com criança pequena em casa, isso pesa.
Estrogênio vaginal e implante: não são a mesma coisa
Estrogênio vaginal em dose baixa. Creme, óvulo ou comprimido vaginal tratam secura e dor na relação, com absorção mínima, sem exigir progestagênio. A ação é local, não substitui a reposição; veja secura vaginal na menopausa.
Implante de estradiol. Embora ainda contraindicado pelas diretrizes médicas, em casos específicos e selecionados pode ser uma via possível de reposição hormonal, com dose controlada, acompanhamento dos níveis hormonais e progesterona em quem tem útero.
Outra coisa são os "chips" de gestrinona ou de testosterona em dose alta, as fórmulas sem padronização de dose e o uso estético; nas manipuladas, a The Menopause Society aponta risco de dose errada e impurezas. Outros tropeços estão em erros na reposição hormonal.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Estradiol em gel ou comprimido: qual é melhor?
Os dois aliviam os fogachos; a diferença está no risco. Em grandes estudos observacionais, o comprimido aumentou a trombose venosa, e o estradiol pela pele, não. Gel ou adesivo é a primeira escolha na maioria das mulheres, e a regra com obesidade, enxaqueca com aura, diabetes ou trombose prévia. O comprimido segue como opção para a mulher jovem, sem fatores de risco.
- Estradiol em gel ou adesivo: qual escolher?
Os dois são via transdérmica e, nos estudos, não tiveram o aumento de trombose do comprimido. A escolha é prática: o gel é diário e precisa secar; o adesivo de estradiol (Estradot) é trocado duas vezes por semana, mas coceira e vermelhidão no local são muito comuns. A rotina e a pele de cada mulher decidem.
- Reposição hormonal em gel dá trombose?
Nos grandes estudos observacionais, não aumentou o risco. No ESTHER, a chance com estrogênio pela pele foi de 0,9, contra 4,2 com o oral; no do BMJ, de 2019, a oral elevou a chance em 58%, e a transdérmica não. Quem já teve trombose precisa de avaliação individual antes de qualquer reposição.
- Como passar o gel de estradiol corretamente?
Na pele limpa e seca, no mesmo horário, de manhã ou à noite: abdômen, coxas, braços, ombros ou lombar, nunca mamas ou mucosas. Espere cerca de 2 minutos para se vestir, lave as mãos e não lave o local por 1 hora. Se esquecer, siga a bula do produto, sem dobrar a dose.
- Estradiol em gel engorda?
Não há estudos grandes mostrando diferença importante de peso entre as vias, e, nos ensaios, a reposição não mudou o peso. O ganho de peso da meia-idade tem outras causas, que explico em reposição hormonal engorda?
- Quem usa estradiol transdérmico precisa de progesterona?
Se tem útero, sim: o estrogênio que chega ao sangue estimula o endométrio, e o progestagênio o protege. As opções são progesterona micronizada à noite, didrogesterona ou DIU de levonorgestrel 52 mg (Mirena), cuja bula inclui essa indicação. Sem útero, o estradiol vai sozinho. Creme de progesterona manipulado não protege.
- Estradiol em gel e creme vaginal são a mesma coisa?
Não. O gel é passado na pele, chega ao sangue e trata fogachos, suor noturno e sono. O creme vaginal de estrogênio, em dose baixa, age no local, trata secura e dor na relação e tem absorção mínima, sem exigir progestagênio. Um não substitui o outro, e o gel não vai na vagina.
- Posso trocar o comprimido pelo gel sozinha?
Não. Comprimido, gel, adesivo e spray não são intercambiáveis por conta própria: a quantidade impressa em cada um não representa a mesma exposição ao hormônio. Feita com o médico, a troca costuma ser simples: ele define a nova dose, mantém o progestagênio de quem tem útero e reavalia os sintomas nas semanas seguintes.
Escolha a via da reposição com orientação individual
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- Canonico M, Oger E, Plu-Bureau G, et al. Hormone therapy and venous thromboembolism among postmenopausal women: impact of the route of estrogen administration and progestogens: the ESTHER study. Circulation. 2007;115(7):840-845. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.106.642280.
- Vinogradova Y, Coupland C, Hippisley-Cox J. Use of hormone replacement therapy and risk of venous thromboembolism: nested case-control studies using the QResearch and CPRD databases. BMJ. 2019;364:k4810. doi:10.1136/bmj.k4810.
- The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. doi:10.1097/GME.0000000000002028.
- Lumsden MA, Dekkers OM, Faubion SS, et al. European Society of Endocrinology Clinical Practice Guideline for evaluation and management of menopause and the perimenopause. Eur J Endocrinol. 2025;193(4):G49-G81. doi:10.1093/ejendo/lvaf206.
- Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. doi:10.36660/abc.20240478.
- Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC); Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024. São Paulo: SOBRAC; 2024.
- Renoux C, Dell'Aniello S, Garbe E, Suissa S. Transdermal and oral hormone replacement therapy and the risk of stroke: a nested case-control study. BMJ. 2010;340:c2519. doi:10.1136/bmj.c2519.
- Liu B, Beral V, Balkwill A, et al. Gallbladder disease and use of transdermal versus oral hormone replacement therapy in postmenopausal women: prospective cohort study. BMJ. 2008;337:a386. doi:10.1136/bmj.a386.
- Bulas brasileiras de estradiol gel 0,6 mg/g (Oestrogel; Besins Healthcare), estradiol adesivo transdérmico (Estradot; Novartis), estradiol spray transdérmico (Lenzetto; Gedeon Richter) e sistema intrauterino de levonorgestrel 52 mg (Mirena; Bayer). Consultadas em novembro de 2026.
