Mamografia e reposição hormonal: o que muda no acompanhamento
Reposição hormonal e câncer de mama: densidade, mama densa e a mamografia em dia
Resumo rápido
- A reposição não muda o calendário: a FEBRASGO pede mamografia feita há até um ano antes de começar e anual durante o uso.
- Estrogênio com progestagênio deixa a mama mais densa em parte das mulheres e aumenta as reconvocações; o estrogênio isolado mexe menos.
- O risco de câncer de mama é pequeno em números absolutos e depende do esquema e do tempo de uso.
- Mama densa, sozinha, não está entre as contraindicações da reposição; pode pedir ultrassom complementar.
- Câncer de mama atual ou prévio contraindica a reposição sistêmica, e há alternativas sem hormônio.
Imagine uma mulher de 52 anos que dorme mal por causa dos fogachos e pensa em reposição hormonal. Duas linhas do laudo da mamografia a assustam: "mamas heterogeneamente densas" e "BI-RADS 2". "Com mama densa, eu posso fazer reposição?"
É das dúvidas mais comuns sobre mamografia e reposição hormonal, e no Outubro Rosa aparece ainda mais. A resposta curta: na maioria das vezes, sim, com o rastreamento em dia.
O rastreamento da mama é conduzido pelo ginecologista ou pelo mastologista, como explico em menopausa: endocrinologista ou ginecologista?. A reposição é avaliada junto com o rastreio em dia.
O que Você Precisa Saber
A reposição não cria um exame novo. Ela exige que a mamografia de rotina esteja em dia.
O hormônio pode mudar a imagem. Com estrogênio e progestagênio, a mama fica mais densa em parte das mulheres.
O risco é real e pequeno. Depende do esquema, do tempo de uso e do histórico.
Laudo não é diagnóstico. BI-RADS e densidade orientam o próximo passo, lidos com o exame físico, o histórico e os exames anteriores.
Rastreamento do câncer de mama no Brasil hoje: duas recomendações
Ministério da Saúde (nota técnica de setembro de 2025). Mamografia a cada dois anos dos 50 aos 74 anos; antes, a faixa ia até os 69. Dos 40 aos 49 anos, e depois dos 74, o SUS faz o exame por demanda, após orientar a mulher sobre riscos e benefícios.
CBR, SBM e FEBRASGO (recomendação de 2023, reafirmada em janeiro de 2025). O Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Mastologia e a FEBRASGO recomendam mamografia anual dos 40 aos 74 anos; depois dos 75, decisão individual.
As duas concordam no essencial: mamografia regular na fase da reposição. Os outros exames dessa fase estão em exames na menopausa, e o do osso, em densitometria óssea.
Antes de começar a reposição: a mamografia em dia
A FEBRASGO orienta que quem vai iniciar a reposição tenha mamografia feita há no máximo um ano. Isso é avaliado com o resto da história, como detalho em como iniciar a reposição hormonal.
padrão do Colégio Americano de Radiologia para o laudo de mama. Traz uma letra, de A a D, para a densidade, e um número, de 0 a 6, para o achado.
Pelas recomendações brasileiras de 2023, quem acompanha a mama pode complementar a mamografia:
- Mama densa: ultrassom anual pode ser considerado.
- Mama extremamente densa: ressonância a cada dois anos pode ser considerada.
- Alto risco (mutação genética, risco de 20% ou mais ao longo da vida pela história familiar, radioterapia no tórax antes dos 30 anos): ressonância anual.
Nódulo ou secreção já não é rastreamento: é investigação.
O que a reposição faz na mama: densidade e reconvocações
O estrogênio estimula a glândula da mama, e o progestagênio soma estímulo. Na mamografia, a glândula aparece branca, como um nódulo. Pense assim: procurar um nódulo numa mama densa é procurar uma bola de neve numa nevasca.
quando a clínica chama a mulher de volta para imagens extras ou ultrassom porque algo não ficou claro. Na maioria das vezes, o achado é benigno.
Os estudos mostram o padrão:
No estudo americano PEPI, a densidade da mama aumentou, em 12 meses, em 16% a 24% das mulheres que usaram estrogênio com progestagênio, em 3,5% das que usaram estrogênio isolado e em nenhuma do grupo placebo. No Women's Health Initiative, em cerca de cinco anos e meio, 35% das usuárias do esquema combinado tiveram ao menos uma mamografia alterada, contra 23% no placebo, e 10% fizeram biópsia, contra 6,1%.
Cada esquema age de um jeito:
| Esquema | Densidade da mama | Risco de câncer de mama |
|---|---|---|
| Estrogênio com progestagênio sintético | Aumenta em parte das mulheres | Pequeno aumento, que cresce com o tempo de uso |
| Estrogênio com progesterona micronizada ou didrogesterona | Pode aumentar (16% com progesterona micronizada no PEPI) | Possivelmente menor, em dados observacionais |
| Estrogênio isolado, em mulher sem útero | Aumenta raramente | Sem aumento no WHI |
| Tibolona | Pouco efeito | Não é opção depois de câncer de mama |
| Estrogênio vaginal em dose baixa | Absorção mínima | Pouco ou nenhum aumento |
Reposição hormonal e câncer de mama: o risco em números
O Women's Health Initiative testou estrogênio conjugado oral com medroxiprogesterona, um progestagênio sintético. Em mais de 20 anos de seguimento, o câncer de mama apareceu, por ano, em 4,5 de cada 1.000 mulheres do grupo do hormônio, contra 3,6 no placebo: menos de um caso a mais por 1.000 mulheres por ano. Com estrogênio isolado, em mulheres sem útero, foi o contrário: 3,0 contra 3,7, e menos mortes por câncer de mama.
A análise do Lancet de 2019, com estudos observacionais do mundo todo, fez a conta em 20 anos:
Entre 1.000 mulheres de peso médio, em países de alta renda, que nunca usaram hormônio, cerca de 63 têm câncer de mama dos 50 aos 69 anos. Com cinco anos de estrogênio e progestagênio diário a partir dos 50, são cerca de 83; com progestagênio em parte do mês, 77; com estrogênio isolado, 68. Com dez anos de uso, o excesso fica em torno do dobro, e parte dele persiste por mais de dez anos depois de parar.
As duas contas medem coisas diferentes: uma é a taxa média por ano de acompanhamento; a outra, o total acumulado em 20 anos.
O tipo de progestagênio pesa. Na coorte francesa E3N, com mais de 80 mil mulheres, a progesterona micronizada não aumentou o risco de forma clara, e com didrogesterona o aumento foi pequeno e incerto, ao contrário dos outros progestagênios. São dados observacionais: possível menor risco, não risco zero. Quem tem indicação está em reposição hormonal na menopausa, e o contexto, no guia completo da menopausa.
Quando a reposição não é opção. Câncer de mama atual ou prévio contraindica a reposição sistêmica, inclusive a tibolona. Para os fogachos, há venlafaxina, gabapentina e terapia cognitivo-comportamental, escolhidas com o oncologista; com tamoxifeno, evitam-se paroxetina e fluoxetina, como detalho em menopausa sem hormônios.
Mama densa: o que é e se impede a reposição
Mama densa tem muito tecido glandular e fibroso e pouca gordura. Não é doença; a mamografia a classifica em quatro letras:
- A: quase toda gordura.
- B: áreas esparsas de tecido denso.
- C: heterogeneamente densa; pode esconder nódulos pequenos.
- D: extremamente densa; reduz a sensibilidade da mamografia.
C e D são a mama densa, e ela é comum: em dados americanos, quase metade das mulheres de 40 anos ou mais que fazem mamografia. Nela, o exame enxerga menos, e o risco de câncer é um pouco maior.
Mama densa, sozinha, não aparece entre as contraindicações da reposição; as recomendações brasileiras sugerem considerar exames complementares. Com estrogênio e progestagênio, a imagem pode ficar ainda mais densa, e reconvocação não é câncer.
O laudo durante a reposição: frequência, BI-RADS e sinais de alerta
Durante a reposição, a FEBRASGO recomenda mamografia anual, e nenhuma recomendação brasileira pede intervalo menor só por causa do hormônio. O intervalo é combinado com o ginecologista ou o mastologista; vale conferir se está em dia a cada consulta.
| BI-RADS | O que significa | O que costuma acontecer |
|---|---|---|
| 0 | Exame inconclusivo | Imagens extras, ultrassom ou comparação com exames antigos |
| 1 | Negativo | Rastreamento de rotina |
| 2 | Achado benigno, como cisto simples | Rastreamento de rotina |
| 3 | Provavelmente benigno; risco de câncer de até 2% | Controle em seis meses, até cerca de dois anos de estabilidade |
| 4 | Suspeito; risco acima de 2% e abaixo de 95% (4A, 4B e 4C) | Biópsia |
| 5 | Altamente suspeito; risco de 95% ou mais | Biópsia |
| 6 | Câncer confirmado por biópsia | Tratamento; a reposição sistêmica é suspensa |
O próximo passo é definido por quem acompanha a mama. Alguns sinais não esperam a data da mamografia:
- nódulo novo, sobretudo depois dos 50 anos, ou endurecido, fixo ou que cresce;
- saída espontânea de líquido por um só mamilo, principalmente com sangue;
- retração da pele ou do mamilo, ou mamilo que muda de formato;
- pele vermelha, inchada ou em casca de laranja;
- ferida no mamilo que não melhora;
- caroço na axila.
Sangramento vaginal inesperado também não espera; veja sangramento na reposição hormonal.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Reposição hormonal causa câncer de mama?
Com estrogênio e progestagênio, o risco aumenta um pouco e cresce com o tempo de uso: no WHI, menos de um caso a mais por 1.000 mulheres por ano. Com estrogênio isolado, em mulheres sem útero, o WHI não mostrou aumento. O risco também depende do progestagênio e da história familiar, e a decisão é individual.
- Reposição hormonal aumenta a densidade da mama?
Em parte das mulheres, sim, sobretudo com estrogênio e progestagênio. No estudo PEPI, a densidade aumentou em 16% a 24% das usuárias do esquema combinado e em 3,5% das que usaram estrogênio isolado, quase sempre no primeiro ano. Isso pode levar a mais reconvocações e biópsias, o que não significa câncer.
- Posso fazer reposição hormonal com mama densa?
Em geral, sim. Mama densa, sozinha, não está entre as contraindicações da reposição. Ela pede atenção ao rastreamento: ultrassom complementar pode ser considerado e, na mama extremamente densa, ressonância. A decisão leva em conta os sintomas, a história familiar e o esquema escolhido, em conversa com quem acompanha a mama.
- Mama densa é perigoso? O que significa no laudo?
Significa muito tecido glandular e fibroso, nas letras C ou D do BI-RADS. Não é doença e é comum: quase metade das mulheres de 40 anos ou mais que fazem mamografia, em dados americanos. O risco de câncer é um pouco maior e a mamografia enxerga menos, por isso o ultrassom complementar pode ser indicado.
- Quem faz reposição hormonal precisa de mamografia todo ano?
A FEBRASGO recomenda mamografia anual durante a reposição, a mesma frequência que defende, com o CBR e a SBM, para todas as mulheres dos 40 aos 74 anos. Nenhuma recomendação brasileira pede exame mais frequente só por causa do hormônio. O intervalo é combinado com o ginecologista ou o mastologista.
- Reposição hormonal faz as mamas doerem ou aumentarem?
Sensibilidade e inchaço nas duas mamas são efeitos conhecidos da reposição; quando incomodam, a dose ou o esquema são revistos. Já nódulo novo, saída espontânea de líquido por um mamilo, retração da pele ou do mamilo e pele em casca de laranja não são efeito esperado do hormônio e pedem avaliação.
- O que significa BI-RADS 3 ou BI-RADS 0 na mamografia?
BI-RADS 0 é exame inconclusivo: faltam imagens extras, ultrassom ou comparação com exames anteriores. BI-RADS 3 é achado provavelmente benigno, com risco de câncer de até 2%, e o caminho costuma ser controle em seis meses. Nenhum dos dois é diagnóstico de câncer; a conduta sobre a reposição é combinada com o mastologista.
- Quem teve câncer de mama pode fazer reposição hormonal?
A reposição sistêmica é contraindicada depois de câncer de mama, e a tibolona também não é opção. Para os fogachos, há alternativas sem hormônio, como venlafaxina, gabapentina e terapia cognitivo-comportamental, escolhidas com o oncologista. Para a secura vaginal, o estrogênio vaginal em dose baixa pode ser discutido com o oncologista.
Avalie a reposição com o rastreamento em dia
Se você pensa em começar a reposição ou ficou com dúvida no laudo, vale uma avaliação com a mamografia em mãos. Na consulta a distância, veja como se preparar para a teleconsulta.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS: rastreamento do câncer de mama. Brasília: Ministério da Saúde; setembro de 2025.
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- Baccaro LF, Paiva LHSC, Nasser EJ, et al. Propedêutica mínima no climatério. Febrasgo Position Statement nº 5. Femina. 2022;50(5):263-271.
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