Curva glicêmica (TOTG): como é feita e como ler o resultado
Curva glicêmica resultado: valores de referência, preparo e a medida de 1 hora
Resumo rápido
- A curva glicêmica, ou teste oral de tolerância à glicose (TOTG), mede a glicose em jejum e 1 e 2 horas após 75 g de glicose.
- Em 2 horas: normal abaixo de 140 mg/dL; pré-diabetes de 140 a 199; diabetes a partir de 200, a confirmar.
- Em 1 hora, pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD): pré-diabetes de 155 a 208 mg/dL; diabetes a partir de 209.
- Preparo: três dias com 150 g de carboidrato por dia ou mais, 8 horas de jejum e sem fumar; vômito invalida o teste.
- Curva de insulina e curva de 5 horas não entram na rotina.
Imagine uma mulher de 46 anos, com glicada de 5,8%, que abre o resultado da curva glicêmica: 98 mg/dL em jejum, 172 em 1 hora e 131 em 2 horas. O laudo marca "normal" no jejum e nas 2 horas. E o valor do meio?
Veja que é ele que mostra a alteração na curva: pela SBD, 172 mg/dL em 1 hora é pré-diabetes, o que confirma a glicada. A seguir, explico como ler cada ponto, sempre com sintomas e histórico.
O que Você Precisa Saber
A curva testa a reserva do pâncreas. Mostra como o corpo lida com uma carga de açúcar.
O preparo muda o resultado. Sobretudo o carboidrato dos dias anteriores.
Cada ponto tem a sua régua. E a gestação usa outra.
Um exame alterado não fecha diagnóstico. Sem sintomas, a faixa do diabetes pede confirmação.
Como é feita a curva glicêmica
a glicose é medida em jejum e depois de a pessoa beber o equivalente a 75 g de glicose, em 2 horas e, na versão da SBD, também em 1 hora.
Costumo explicar assim: a glicose de jejum é a pressão medida em repouso; a curva é o teste ergométrico. O pâncreas pode dar conta em repouso e falhar diante de 75 g de glicose de uma vez.
Subir depois do açúcar é normal; a curva mede quanto sobe e quanto resta depois, como em picos de glicose pós-refeição.
Preparo: o que pode falsear o resultado
Pela Associação Americana de Diabetes (ADA) e por laboratórios como os da Rede D'Or:
- Três dias de alimentação habitual, com pelo menos 150 g de carboidrato por dia: pela ADA, a restrição antes do teste pode elevar falsamente a glicose.
- Jejum de pelo menos 8 horas, só com água; muitos laboratórios pedem de 8 a 12 horas.
- Sem fumar desde o início do jejum.
- Em repouso e sem comer durante o teste; goles de água são permitidos.
- Remédios, febre, cirurgia ou trauma recente: avise o laboratório.
- Vômito: o exame é interrompido e remarcado.
Quem já segue low carb avisa o médico antes de marcar, sobretudo se usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2.
Valores de referência: como ler o resultado
| Momento da coleta | Normal | Pré-diabetes | Faixa do diabetes |
|---|---|---|---|
| Jejum | Abaixo de 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL (glicemia de jejum alterada) | 126 mg/dL ou mais |
| 1 hora (SBD) | Abaixo de 155 mg/dL | 155 a 208 mg/dL | 209 mg/dL ou mais |
| 2 horas | Abaixo de 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL (tolerância diminuída à glicose) | 200 mg/dL ou mais |
Jejum e 2 horas seguem a SBD e a ADA; detalho o jejum em glicose de jejum de 100 a 125. Um ponto fora do normal já classifica o resultado.
O valor de 1 hora. Os cortes de 155 e 209 mg/dL foram propostos em 2024 pela Federação Internacional de Diabetes (IDF), e a SBD os adotou. Nos critérios da ADA, a curva entra pelo valor de 2 horas.
Pela diretriz da SBD publicada em 2025, a glicose 1 hora após 75 g de glicose é superior e mais prática que a de 2 horas para diagnosticar pré-diabetes e diabetes. Sem sintomas, um único exame na faixa do diabetes precisa ser repetido.
Quando a curva faz sentido, e quando não
Pela SBD, o rastreio começa pela glicose de jejum com a glicada. A curva entra:
- Com jejum ou glicada na faixa do pré-diabetes.
- Com exames normais e três ou mais fatores de risco, como diabetes na família, pressão alta ou acantose nigricans, ou pontuação alta no questionário FINDRISC.
- Quando a glicada não é confiável ou não bate com a glicose. A frutosamina ajuda a acompanhar, mas não diagnostica.
- De 4 a 12 semanas após o parto, em quem teve diabetes na gestação (ADA).
Não ajuda:
- Com diabetes já confirmado.
- Em doença aguda, febre, cirurgia recente ou com corticoide: pela ADA, doença e estresse agudo alteram a glicose; prefiro esperar a recuperação.
- Depois de cirurgia bariátrica, sobretudo do bypass: parte das pessoas tem hipoglicemia de uma a três horas após comer; para rastrear diabetes, prefiro glicose de jejum e glicada.
Na gestação, a régua é outra
Na gravidez, a curva com 75 g é feita entre 24 e 28 semanas, com os cortes do grupo internacional IADPSG, adotados pela SBD e pela OMS: jejum de 92 mg/dL ou mais, 1 hora de 180 ou mais ou 2 horas de 153 ou mais. Um valor alterado basta para o diagnóstico de diabetes gestacional.
Curva de insulina e curva de 5 horas: por que não entram na rotina
Curva de insulina. A curva glico-insulínica dosa também a insulina, que não tem padronização nem valores de referência universais e não entra nos critérios de diagnóstico; pela ADA e pela associação americana de medicina laboratorial, não é exame de rotina. Veja insulina alta com glicose normal e HOMA-IR alto significa diabetes?.
Curva de 5 horas. Foi usada por décadas para procurar "hipoglicemia reativa".
sintomas de hipoglicemia, glicose abaixo de 55 mg/dL medida em laboratório durante os sintomas e melhora quando a glicose volta ao normal.
Pela Endocrine Society, desde 2009, a hipoglicemia só se investiga com a tríade documentada, e a curva nunca deve ser usada para documentar hipoglicemia depois de comer. Em estudos antigos, ela deu "positiva" em pelo menos 10% das pessoas saudáveis. Para sintomas após as refeições, existe o teste com refeição mista, que nem sempre reproduz a queda; veja hipoglicemia.
O que fazer com o resultado
Normal. Pela ADA, novos exames pelo menos a cada três anos, ou antes, conforme o risco.
Pré-diabetes. Não existe equilíbrio, existe prioridade: o carboidrato é o nutriente que mais eleva a glicose. Oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia (26% a 45% das calorias, referência da SBD), sem suco nem refrigerante, com metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico antes de reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Pela ADA, somam-se 150 minutos de aeróbico por semana, força duas a três vezes, perda de 5% a 7% do peso, se houver excesso, e exames anuais; veja pré-diabetes.
Faixa do diabetes. Confirmar sem demora, como explico em glicada de 6,5% é diabetes?; confirmado, rins, olhos e pés entram na avaliação desde o início (exames para diabéticos).
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Qual é o resultado normal da curva glicêmica?
Fora da gestação: jejum abaixo de 100 mg/dL, 1 hora abaixo de 155 e 2 horas abaixo de 140. De 155 a 208 em 1 hora, ou de 140 a 199 em 2 horas, é pré-diabetes; a partir de 209 ou de 200, respectivamente, faixa do diabetes, a confirmar com novo exame.
- Curva glicêmica: quantas horas de jejum? Pode beber água?
Pelo menos 8 horas sem comer, pela ADA; muitos laboratórios pedem de 8 a 12 horas. Água pode, em pequena quantidade, antes e durante o teste; cigarro, não. Nos três dias anteriores, coma normalmente, com pelo menos 150 g de carboidrato por dia: a restrição pode deixar o resultado falsamente alto.
- Para que serve a curva glicêmica e quando fazer?
Serve para ver como o corpo lida com uma carga de açúcar e encontrar pré-diabetes e diabetes que o jejum e a glicada não mostram. Pela SBD, entra com jejum ou glicada na faixa do pré-diabetes, com três ou mais fatores de risco e quando a glicada não é confiável.
- O que significa a glicose de 1 hora acima de 155?
Pela SBD e pela IDF, de 155 a 208 mg/dL em 1 hora é pré-diabetes, mesmo com jejum e 2 horas normais: o pâncreas já não dá conta da carga com folga. Não é diabetes, mas pede mudança de hábitos já. A partir de 209 mg/dL, faixa do diabetes, a confirmar.
- Qual a diferença entre a curva com 2 dosagens e a de 30, 60, 90 e 120 minutos?
A de 2 dosagens colhe em jejum e em 2 horas, os pontos que a ADA usa. A SBD acrescenta 1 hora (60 minutos), hoje o ponto preferido por ela. Coletas em 30 e 90 minutos aparecem em alguns pedidos, mas não têm corte de diagnóstico nas diretrizes de diabetes.
- Curva glicêmica na gravidez: com quantas semanas se faz?
Entre 24 e 28 semanas, com 75 g de glicose. É normal com jejum abaixo de 92 mg/dL, 1 hora abaixo de 180 e 2 horas abaixo de 153; um valor alterado define diabetes gestacional. Depois de diabetes gestacional, a curva se repete de 4 a 12 semanas após o parto.
- Se eu vomitar durante a curva glicêmica, o exame vale?
Não. Se a pessoa vomita depois de beber a glicose, a absorção fica incompleta, e o resultado deixa de refletir a resposta do corpo. O exame é interrompido e remarcado, com o mesmo preparo: alimentação habitual nos três dias anteriores, jejum de pelo menos 8 horas e repouso durante o teste.
- Curva glicêmica com insulina vale a pena?
Em geral, não. A insulina não tem padronização entre laboratórios nem valores de referência universais para a curva e não entra nos critérios de diagnóstico; pela ADA e pela associação americana de medicina laboratorial, não é exame de rotina. A resistência à insulina aparece melhor na cintura, nos triglicérides e no HDL.
Entenda o seu resultado com orientação individual
Na dúvida sobre quem acompanha o pré-diabetes, veja endocrinologista ou clínico geral.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S27-S49. doi:10.2337/dc26-S002. Ver também, no mesmo suplemento, a seção 3 (Prevention or Delay of Diabetes and Associated Comorbidities).
- Rodacki M, et al. Brazilian guideline for screening and diagnosis of type 2 diabetes: a position statement from the Brazilian Diabetes Society. Diabetol Metab Syndr. 2025;17(1):78. doi:10.1186/s13098-024-01572-w.
- Bergman M, Manco M, Satman I, et al. International Diabetes Federation Position Statement on the 1-hour post-load plasma glucose for the diagnosis of intermediate hyperglycaemia and type 2 diabetes. Diabetes Res Clin Pract. 2024;209:111589. doi:10.1016/j.diabres.2024.111589.
- International Association of Diabetes and Pregnancy Study Groups Consensus Panel; Metzger BE, Gabbe SG, Persson B, et al. International Association of Diabetes and Pregnancy Study Groups recommendations on the diagnosis and classification of hyperglycemia in pregnancy. Diabetes Care. 2010;33(3):676-682. doi:10.2337/dc09-1848.
- World Health Organization. Diagnostic criteria and classification of hyperglycaemia first detected in pregnancy. Geneva: WHO; 2013 (WHO/NMH/MND/13.2).
- Cryer PE, Axelrod L, Grossman AB, et al. Evaluation and management of adult hypoglycemic disorders: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2009;94(3):709-728. doi:10.1210/jc.2008-1410.
- Millstein R, Lawler HM. Hypoglycemia after gastric bypass: an emerging complication. Cleve Clin J Med. 2017;84(4):319-328.
- Sacks DB, Arnold M, Bakris GL, et al. Guidelines and Recommendations for Laboratory Analysis in the Diagnosis and Management of Diabetes Mellitus. Clin Chem. 2023;69(8):808-868. doi:10.1093/clinchem/hvad080.
- Rede D'Or São Luiz. Curva glico-insulínica: preparo e coleta. Análises clínicas. Consultado em novembro de 2026.
