Cirurgia bariátrica: indicação hoje e quem ainda se beneficia com os novos remédios para obesidade
Bariátrica ou tirzepatida (Mounjaro)? IMC para bariátrica em 2026, critérios do CFM e decisão compartilhada
Resumo rápido
- Os novos remédios não aposentaram a cirurgia bariátrica: ela segue como o tratamento que mais emagrece.
- Pelo CFM: IMC de 40 ou mais; de 35 a 39,9 com doença agravada pela obesidade; de 30 a 34,9 com diabetes tipo 2 ou outras condições definidas, após falha do tratamento clínico.
- No estudo sueco SOS, o bypass mantinha 25% de perda aos 10 anos, e a mortalidade foi 29% menor.
- A tirzepatida (Mounjaro) leva a até 20,9% de perda, mas o peso volta ao parar.
- A escolha é compartilhada: doenças, tolerância, acesso e preferência pesam.
Imagine uma mulher de 44 anos, com IMC de 43, diabetes tipo 2 e apneia. Uma amiga diz que, com as canetas, ninguém mais opera; outra, que a cirurgia é a única saída. Ela quer saber se a indicação da cirurgia bariátrica ainda vale para ela.
Veja que as duas frases simplificam: remédio e cirurgia muitas vezes se somam. O panorama geral está em tratamento para obesidade.
O que Você Precisa Saber
A cirurgia segue como o tratamento mais potente. A perda se mantém em grande parte por pelo menos 10 anos.
Os critérios do CFM mudaram em 2025. A faixa de IMC 30 a 34,9 com diabetes tipo 2 perdeu os antigos limites de idade e de tempo de diagnóstico.
Remédio e cirurgia não são rivais. O remédio pode vir no lugar, antes ou depois da operação.
A decisão é compartilhada. Não existe equilíbrio, existe prioridade: pesa o que importa mais para cada pessoa.
Quem tem indicação hoje: os critérios do CFM
peso em quilos dividido pela altura em metros ao quadrado. A obesidade começa em 30; o grau 3, em 40.
Pela Resolução CFM nº 2.429/2025, a cirurgia pode ser indicada com:
- IMC de 40 ou mais, com ou sem doença associada;
- IMC de 35 a 39,9, com doença agravada pela obesidade;
- IMC de 30 a 34,9, com diabetes tipo 2 ou outras condições definidas, como apneia grave, gordura no fígado com fibrose, doença renal inicial no diabetes tipo 2 ou osteoartrose grave.
A partir dos 16 anos, valem os critérios de adulto; de 14 a 16, só em exceção, com IMC acima de 40 e complicação com risco de vida. Em qualquer faixa, é preciso falha do tratamento clínico. Desde agosto de 2026 (Resolução CFM nº 2.470/2026), o endocrinologista integra a equipe mínima.
O que a cirurgia entrega a longo prazo
o bypass gástrico liga um estômago pequeno direto ao intestino; o sleeve, ou gastrectomia vertical, transforma o estômago num tubo.
Pense assim: o remédio é um ar-condicionado que só funciona ligado; a cirurgia é uma reforma que muda de vez os sinais de fome, mas pede manutenção para sempre.
No estudo sueco SOS, publicado em 2007, 2.010 pessoas operadas foram comparadas a 2.037 em tratamento convencional por cerca de 11 anos. Com o bypass, a perda foi de 32% do peso em 1 a 2 anos e de 25% aos 10 anos; no grupo controle, o peso variou menos de 2%. A mortalidade foi 29% menor entre os operados.
No diabetes tipo 2, o STAMPEDE sorteou 150 pessoas com IMC de 27 a 43: em 5 anos, a glicada chegou a 6% ou menos em 29% com bypass, 23% com sleeve e 5% com remédios.
glicada abaixo de 6,5% por ao menos três meses sem remédios para a glicose. Não é cura.
Numa análise de quatro ensaios americanos (JAMA, 2024), a remissão foi de 18,2% com cirurgia e 6,2% com tratamento clínico em 7 anos, e de 12,7% e 0% em 12 anos. O diabetes pode voltar, como explico em cirurgia bariátrica e diabetes.
O que os remédios entregam e o que acontece ao parar
No SURMOUNT-1, a tirzepatida (Mounjaro) levou a 15% a 20,9% de perda em 72 semanas; no STEP 1, a semaglutida (Wegovy), a 14,9% em 68 semanas; no SURMOUNT-5, comparação direta, a 20,2% contra 13,7%. Veja as opções em remédio para emagrecer.
O limite é a continuidade: no SURMOUNT-4, quem trocou a tirzepatida por placebo recuperou 14,0% do peso em um ano; veja reganho de peso após parar a tirzepatida (Mounjaro).
A semaglutida oral (Wegovy em comprimido) foi aprovada pela Anvisa em 4 de novembro de 2026, com vendas previstas para 2027, e o orforglipron (Foundayo) está em análise; veja retatrutida e orforglipron.
Remédio ou cirurgia: o que os estudos que compararam mostram
Até novembro de 2026, não há, até onde se sabe, grande ensaio randomizado entre a cirurgia e a tirzepatida ou a semaglutida; os dados são observacionais.
Num estudo da Universidade de Nova York apresentado em 2025 no congresso da ASMBS, a sociedade americana de cirurgia bariátrica, com 51.085 pessoas com IMC de 35 ou mais (dado de congresso, sem publicação em revista até onde se sabe), quem operou perdeu 24% do peso em dois anos; quem recebeu semaglutida ou tirzepatida por ao menos seis meses, 4,7%, e quem usou o remédio sem parar por um ano, 7%.
Perceba: na vida real, muita gente para o remédio.
Num estudo de Israel (JAMA Network Open, 2024), com 3.035 operados com obesidade e diabetes pareados a 3.035 usuários de agonista de GLP-1, a mortalidade em cerca de 7 anos foi 62% menor com a cirurgia em quem tinha até 10 anos de diabetes; com mais tempo de doença, não houve vantagem.
Na minha leitura, quem opera e quem usa remédio são pessoas diferentes, e a estatística não corrige tudo.
Quem ainda se beneficia mais da cirurgia
A cirurgia pesa mais com IMC muito alto, doença grave ligada ao peso, intolerância ao remédio, falta de acesso contínuo a ele ou preferência informada. A ASMBS e a federação internacional IFSO (2022) recomendam operar a partir de IMC 35, mesmo sem doença associada.
escolha feita junto pelo médico e pela pessoa, comparando benefícios, riscos e preferências.
| Situação | Caminho a considerar | Por quê |
|---|---|---|
| IMC 30 a 34,9, sem diabetes nem condição do CFM | Base e remédio | Fora dos critérios do CFM |
| IMC 30 a 34,9 com diabetes tipo 2 | Remédio ou cirurgia metabólica | Mais remissão com cirurgia nos ensaios |
| IMC 35 a 39,9 com doença ligada ao peso | Os dois caminhos | Remédio contínuo x perda mais durável |
| IMC 40 ou mais | Cirurgia em primeiro plano | Com IMC 45, perder 20% deixa IMC 36 |
| Não tolera o remédio ou não tem acesso contínuo | Cirurgia, se houver critério | Ao parar o remédio, o peso volta |
| Não quer operar ou tem risco cirúrgico alto | Remédio de longo prazo | 15% a 20% de perda nos ensaios |
| Reganho depois da bariátrica | Base e remédio | 11% a 13,6% de perda nos estudos |
| Adolescente de 14 a 16 anos | Só em exceção | IMC acima de 40 com risco de vida |
Remédio antes ou depois da cirurgia
Antes, perder peso pode ser meta da equipe, e manter ou pausar a caneta antes da anestesia se decide com ela. Depois, o reganho é comum e tratável: semaglutida e tirzepatida ajudam, com subida de dose mais calma.
Riscos e cuidados da cirurgia
Pela ASMBS e pela IFSO, a cirurgia por vídeo é tão segura quanto retirar a vesícula ou colocar prótese de joelho. Os cuidados de longo prazo pesam mais:
- Deficiências: ferro, vitamina B12, vitamina D e cálcio; na análise de 2024, anemia e fraturas foram mais frequentes com a cirurgia.
- Pedra nos rins: o intestino absorve mais oxalato; veja pedras nos rins após bariátrica.
- Vesícula: a perda rápida de peso favorece cálculos.
- Dumping: sobretudo no bypass, doces chegam rápido ao intestino, com mal-estar, suor e diarreia; pode haver hipoglicemia de uma a três horas após comer.
- Álcool: num estudo americano com 2.003 operados, em sete anos, 20,8% de quem fez bypass desenvolveram transtorno por uso de álcool, contra 11,3% com banda gástrica.
Acompanhamento para sempre
A operação muda a absorção para sempre: vitaminas e minerais todos os dias e exames periódicos, como hemograma, ferro, vitamina B12, vitamina D e cálcio. No tratamento, sempre priorizo trabalhar em conjunto com nutricionista, psicólogo e educador físico.
Depois da cirurgia, a alimentação segue as fases da equipe, com proteína primeiro. Com resistência à insulina, pré-diabetes ou diabetes, oriento low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia (26% a 45% das calorias, referência da Sociedade Brasileira de Diabetes), com metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico ao reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo. Veja o tratamento da obesidade com endocrinologista em São Paulo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Quem pode fazer cirurgia bariátrica?
Pela Resolução CFM nº 2.429/2025: IMC de 40 ou mais; de 35 a 39,9 com doença agravada pela obesidade; de 30 a 34,9 com diabetes tipo 2 ou outras condições definidas, como apneia grave. A partir dos 16 anos, valem os critérios de adulto. É preciso falha do tratamento clínico.
- Qual o IMC mínimo para fazer bariátrica em 2026?
É 30, mas só com diabetes tipo 2 ou outra condição definida pelo CFM, como apneia grave ou gordura no fígado com fibrose. Sem elas, o mínimo é 35 com doença agravada pela obesidade, ou 40 com ou sem doença. Em qualquer faixa, o tratamento clínico precisa ter falhado antes.
- Bariátrica ou tirzepatida (Mounjaro): qual é melhor?
Depende da pessoa. A cirurgia emagrece mais e por mais tempo: no estudo SOS, o bypass mantinha 25% de perda aos 10 anos. A tirzepatida (Mounjaro) levou a até 20,9% de perda em 72 semanas, sem operação, mas o peso volta ao parar. Doenças, tolerância, acesso e preferência decidem, com o médico.
- A tirzepatida (Mounjaro) substitui a bariátrica?
Para muita gente, pode adiar ou evitar a cirurgia. Mas não há grande ensaio entre as duas, e, num estudo da vida real apresentado em congresso, quem operou perdeu 24% do peso em dois anos, contra 4,7% com as canetas, em parte porque muitos param o remédio. Com IMC muito alto, a cirurgia segue relevante.
- Quem fez bariátrica pode tomar tirzepatida (Mounjaro)?
Pode, com indicação médica, sobretudo no reganho. Numa meta-análise de 2025, com 964 pessoas com reganho após a bariátrica, a perda foi de cerca de 11% do peso com semaglutida e de 13,6% com tirzepatida. A dose sobe com mais calma, porque absorção e tolerância mudam, e a equipe cirúrgica participa.
- Quando vale a pena fazer bariátrica?
Quando há critério do CFM e o tratamento clínico não trouxe resultado suficiente ou não é viável. Pesa mais com IMC muito alto, doença grave ligada ao peso, intolerância ao remédio ou falta de acesso contínuo a ele. Conta também a preferência informada, conhecendo riscos, ganhos e o acompanhamento para sempre.
- A bariátrica cura o diabetes tipo 2?
Pode levar à remissão, que não é cura. Numa análise de quatro ensaios americanos, a remissão foi de 18,2% com cirurgia contra 6,2% com tratamento clínico em 7 anos, e de 12,7% contra 0% em 12 anos. Mesmo sem remissão, a glicada diminuiu mais com a cirurgia, e os exames seguem para sempre.
- Pode fazer bariátrica pelo SUS?
Sim. O SUS oferece a cirurgia bariátrica para quem preenche os critérios, com encaminhamento pela rede pública. Já os remédios para obesidade, até outubro de 2026, não eram oferecidos pelo SUS, o que pesa para quem não tem acesso contínuo a eles. No plano de saúde e no particular, valem os mesmos critérios do CFM.
Decida com orientação individual
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025. Normatiza as cirurgias reconhecidas pelo CFM para o tratamento da obesidade e das doenças associadas. Diário Oficial da União. 20 maio 2025;Seção 1:170. Alterada pela Resolução CFM nº 2.470, de 18 de agosto de 2026. Diário Oficial da União. 24 ago 2026;Seção 1:122.
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