Gel ou injeção de testosterona: como escolher a forma da reposição
Testosterona em gel, cipionato ou undecilato: diferenças no sangue, no hematócrito e na rotina
Resumo rápido
- No Brasil, há gel diário, injeções de curta duração a cada 2 a 4 semanas e undecilato a cada 10 a 14 semanas.
- O gel e o undecilato dão nível estável; as injeções de curta duração, picos e vales.
- O hematócrito sobe mais com as injeções do que com o gel.
- A hora do exame muda com a forma, e nenhuma preserva a fertilidade.
- Chips de testosterona em dose alta e fórmulas sem padronização ficam fora da escolha.
Imagine um homem de 61 anos com hipogonadismo confirmado, que ronca, fuma, tem hematócrito de 49% e quer a injeção "que dura três meses". Agora imagine outro, de 38 anos, com pavor de agulha e dois filhos pequenos. A pergunta é a mesma: gel ou injeção de testosterona?
Veja que a molécula é a mesma; muda o caminho até o sangue e, com ele, o nível, o hematócrito e a rotina. Indicação e exames de antes estão no guia de reposição de testosterona; aqui, o foco é a forma.
O que Você Precisa Saber
A forma não muda o hormônio, muda a curva. Difere o sobe e desce no sangue.
O hematócrito é o grande divisor. As injeções o elevam mais; quem já tem risco costuma começar pelo gel.
A rotina pesa tanto quanto a farmacologia. A melhor forma é a que a pessoa usa direito.
Diagnóstico vem antes da forma. Sem testosterona baixa em duas coletas pela manhã e sintomas, nenhuma serve; veja o exame de testosterona.
As formas de testosterona com registro no Brasil
testosterona ligada a um ácido graxo, solúvel em óleo, que o músculo libera aos poucos; no cipionato, a meia-vida é de cerca de 8 dias, pela diretriz europeia de urologia (EAU).
Pelas bulas:
- Testosterona em gel (Androgel): 16,2 mg/g, uma vez ao dia, de manhã, em ombros e braços.
- Cipionato de testosterona (Deposteron): 200 mg no músculo, em geral a cada 2 a 4 semanas, como no guia.
- Ésteres de testosterona combinados (Durateston): quatro ésteres, 250 mg por ampola, a cada três semanas.
- Undecilato (ou undecanoato) de testosterona (Nebido, Hormus, Atesto): 1.000 mg no músculo a cada 10 a 14 semanas; o primeiro intervalo pode ser de 6 semanas.
Todas exigem receita retida; dose e intervalo são decisões do médico.
Picos e vales: o que acontece no sangue com cada forma
Costumo explicar com uma caixa d'água. O gel é uma torneira aberta um pouco todo dia: o nível fica quase constante. A injeção de curta duração enche a caixa acima da borda e a deixa quase secar antes da próxima. O undecilato é uma caixa grande, que esvazia devagar.
Pela Endocrine Society (2018), com cipionato ou enantato a testosterona passa do normal após a injeção e cai à faixa do hipogonadismo no fim do intervalo, e os sintomas podem oscilar junto. O gel flutua menos.
| Forma | Como usa | Nível no sangue | Hematócrito | Prós | Contras |
|---|---|---|---|---|---|
| Testosterona em gel (Androgel) | Todo dia, de manhã | Estável, com variação entre aplicações | Sobe menos | Sem agulha; fácil de suspender | Rotina diária; passa para outras pessoas; irritação |
| Cipionato (Deposteron) e ésteres combinados (Durateston) | Injeção a cada 2 a 4 semanas | Picos e vales | Sobe mais | Ação curta: dá para suspender | Altos e baixos de sintomas |
| Undecilato de testosterona (Nebido, Hormus, Atesto) | Injeção lenta a cada 10 a 14 semanas | Estável por meses | Sobe mais do que com gel | Poucas aplicações | Leva meses para sair do corpo; dor no local; microembolia oleosa rara |
Hematócrito: por que as injeções pedem mais atenção
excesso de glóbulos vermelhos, medido pelo hematócrito; na revisão da diretriz da Endocrine Society, acima de 54%.
O hematócrito sobe com qualquer forma, mas não igual: pela Endocrine Society, o gel causa menos eritrocitose que a injeção.
Num estudo americano de 2015 com homens em uma única forma de reposição, o hematócrito passou de 50% em 66,7% dos que usavam injeções e em 12,8% dos que usavam gel. No ensaio T4DM, de 2021, com 1.000 mg de undecilato de testosterona a cada três meses, 22% dos homens tiveram hematócrito acima de 54%, contra 1% no grupo placebo.
Pela EAU, um registro mostrou mais hematócrito acima de 50% com undecilato do que com gel, e a diretriz recomenda começar pelo gel, não pelo depósito de longa ação, em homens de alto risco, como os com apneia, obesidade grave, cigarro pesado ou doença pulmonar crônica. Acima de 54%, a dose é ajustada ou pausada e, na volta, a EAU sugere considerar o gel; veja testosterona e hematócrito alto.
O TRAVERSE, de 2023, que não mostrou aumento de infarto ou AVC, usou gel. Em registros americanos e britânicos com 544.115 homens, começar por injeção se associou a risco 26% maior de eventos cardiovasculares que começar por gel, sem provar causa; veja reposição de testosterona e coração.
Gel na prática: pele, transferência e rotina
A absorção do gel varia de pessoa para pessoa. Pela bula:
- aplicar em pele limpa e seca de ombros e braços, nunca nos genitais;
- esperar secar de 3 a 5 minutos e cobrir a área com a roupa;
- lavar as mãos com água e sabão;
- esperar pelo menos 2 horas para o banho;
- lavar o local antes de contato de pele com outra pessoa.
Acne, coceira e dermatite no local estão entre os efeitos comuns.
Mulheres expostas podem ter mais pelos, voz grossa e alteração da menstruação; crianças, puberdade precoce; a gestante deve evitar contato com a pele tratada. Veja gel de testosterona e transferência.
O exame se colhe de 2 a 8 horas após a aplicação (a EAU prefere de 2 a 4), longe da pele tratada, que pode dar resultado falsamente alto.
Injeção na prática: aplicação, coleta e cuidados
- Cipionato e ésteres combinados: pelas bulas, aplicados por profissional de saúde; a coleta vai no meio do intervalo, pois o pico engana.
- Alergia: a bula dos ésteres combinados (Durateston) traz óleo de amendoim; alergia a amendoim ou soja contraindica.
- Undecilato: aplicado muito lentamente; a coleta vai logo antes da próxima dose, e esse nível orienta o intervalo, pela EAU. A bula alerta para microembolia oleosa no pulmão e, raramente, reação alérgica grave.
O calendário completo está em exames na reposição de testosterona.
Gel ou injeção: quem tende a ir para cada forma
Pela Endocrine Society, pesam preferência, comportamento no sangue, trabalho do tratamento e custo. Como no guia, o gel é a forma que prefiro para começar, sobretudo em homens mais velhos: nível estável e fácil de interromper. Não existe equilíbrio, existe prioridade:
| Situação | Forma que costuma fazer mais sentido | Por quê |
|---|---|---|
| Início do tratamento, em homem mais velho | Gel | Nível estável e fácil de suspender |
| Apneia, obesidade grave, cigarro pesado ou doença pulmonar | Gel | Menos hematócrito; preferência da EAU no início |
| Crianças pequenas ou gestante em casa | Injeção | Sem transferência pela pele |
| Medo de agulha | Gel | Sem injeção |
| Quer estabilidade sem rotina diária | Undecilato | Poucas aplicações, nível estável |
Trocar de forma: o que muda e o que não muda
Trocar é possível, com o médico, que define quando começar e com que dose. Mudam a hora da coleta e o tempo até o nível se estabilizar: cerca de dois dias no gel e algumas aplicações no undecilato, pelas bulas. A meta segue no meio da faixa normal, em geral de 450 a 700 ng/dL.
A fertilidade não muda: toda testosterona de fora, em gel ou injeção, diminui LH, FSH e espermatozoides, e a EAU contraindica a reposição em quem deseja ter filhos. Quem pensa neles começa pelo espermograma antes da reposição.
Chips, fórmulas manipuladas e anabolizantes
Fora dessa escolha ficam os chips de testosterona em dose alta, as fórmulas manipuladas sem padronização de dose e o uso estético ou de desempenho: sem dose previsível, não há hora certa de coleta nem controle do hematócrito.
Pela Resolução-RE nº 4.353, de novembro de 2024, a Anvisa proíbe manipular, vender e usar implantes hormonais com anabolizantes ou androgênios para estética, ganho de músculo ou desempenho; o Conselho Federal de Medicina veda prescrever hormônios com esses fins desde 2023.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Testosterona em gel ou injetável: qual é melhor?
Não há forma melhor para todos. O gel dá nível estável e eleva menos o hematócrito, mas exige aplicação diária e cuidado com quem mora junto. As injeções de curta duração têm picos e vales; o undecilato é estável, mas demora a sair do corpo. Para começar, sobretudo em homens mais velhos, prefiro o gel.
- Testosterona em gel funciona mesmo?
Funciona. Pela Endocrine Society, o gel leva testosterona e estradiol à faixa masculina normal, com menos oscilação que a injeção; foi a forma do estudo TRAVERSE. A absorção varia, por isso a dose se confere no exame, colhido de 2 a 8 horas após a aplicação, longe da pele tratada.
- Testosterona injetável: de quanto em quanto tempo aplicar?
Depende do éster. O cipionato de testosterona (Deposteron), em geral a cada 2 a 4 semanas; a combinação de ésteres de testosterona (Durateston), a cada três semanas, pela bula; o undecilato de testosterona (Nebido), a cada 10 a 14 semanas, com primeiro intervalo que pode ser de 6 semanas. O ajuste é do médico.
- Undecilato de testosterona (Nebido) ou ésteres de testosterona (Durateston): qual o melhor?
Servem a perfis diferentes. O undecilato mantém nível estável por 10 a 14 semanas, mas, se surgir efeito adverso, leva meses para sair do corpo. A combinação de ésteres é aplicada a cada três semanas, tem picos e vales e sai mais cedo ao parar. Há outras marcas de undecilato de testosterona (Hormus, Atesto).
- Qual forma de testosterona aumenta menos o hematócrito?
O gel. Pela Endocrine Society e pela diretriz europeia de urologia, as injeções elevam mais o hematócrito. Num estudo de 2015, ele passou de 50% em 66,7% dos homens em injeção e em 12,8% dos em gel. O undecilato não está livre: no ensaio T4DM, 22% passaram de 54%. Apneia e cigarro somam risco.
- Testosterona em gel precisa de receita?
Sim. A testosterona com registro no Brasil, em gel ou injeção, é vendida com receita retida na farmácia; pela bula, a testosterona em gel (Androgel) é medicamento controlado. Com qualquer forma, a reposição exige diagnóstico em duas coletas pela manhã, exames antes de começar e acompanhamento do hematócrito e da próstata.
- Testosterona em gel ou implante: qual escolher?
Para reposição, gel ou injeção com registro, em dose padronizada. A crítica vale para os chips de testosterona em dose alta e as fórmulas manipuladas sem padronização: sem dose previsível, não há hora certa de exame. Desde novembro de 2024, a Anvisa proíbe implantes hormonais com androgênios para estética, ganho de músculo ou desempenho.
- Posso trocar a injeção pelo gel, ou o gel pela injeção?
Pode, com o médico, que define quando começar e com que dose. A troca muda a hora da coleta: com gel, de 2 a 8 horas após a aplicação; com cipionato, no meio do intervalo; com undecilato, logo antes da próxima dose. Não some as duas formas, e lembre que nenhuma protege a fertilidade.
Escolha a forma da reposição com orientação individual
Vale decidir com quem acompanha o seu tratamento do hipogonadismo.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism. Arnhem: EAU Guidelines Office; edição atual, consultada em novembro de 2026.
- Pastuszak AW, Gomez LP, Scovell JM, Khera M, Lamb DJ, Lipshultz LI. Comparison of the Effects of Testosterone Gels, Injections, and Pellets on Serum Hormones, Erythrocytosis, Lipids, and Prostate-Specific Antigen. Sex Med. 2015;3(3):165-173. doi:10.1002/sm2.76.
- Wittert G, Bracken K, Robledo KP, et al. Testosterone treatment to prevent or revert type 2 diabetes in men enrolled in a lifestyle programme (T4DM): a randomised, double-blind, placebo-controlled, 2-year, phase 3b trial. Lancet Diabetes Endocrinol. 2021;9(1):32-45. doi:10.1016/S2213-8587(20)30367-3.
- Layton JB, Meier CR, Sharpless JL, Stürmer T, Jick SS, Brookhart MA. Comparative Safety of Testosterone Dosage Forms. JAMA Intern Med. 2015;175(7):1187-1196. doi:10.1001/jamainternmed.2015.1573.
- Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med. 2023;389(2):107-117. doi:10.1056/NEJMoa2215025.
- Bulas para o paciente: testosterona gel 16,2 mg/g (Androgel), Besins Healthcare Brasil; cipionato de testosterona (Deposteron), EMS Sigma Pharma; propionato, fempropionato, isocaproato e decanoato de testosterona (Durateston), Aspen Pharma; undecilato de testosterona (Nebido), Bayer S.A. Consultadas em novembro de 2026.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução-RE nº 4.353, de 21 de novembro de 2024. Diário Oficial da União, 22 nov 2024.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023, que veda a prescrição de hormônios com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora de desempenho.
