Espermograma antes da reposição de testosterona: por que faz diferença
Reposição de testosterona causa infertilidade? O papel do espermograma
Resumo rápido
- A testosterona de fora diminui o LH e o FSH, e os espermatozoides podem chegar a zero, mesmo com o exame de sangue normal.
- O espermograma vale para quem quer ter filhos, agora ou no futuro, e para quem ainda não decidiu. Não é exame para todos.
- Em estudos de contracepção masculina, 90% recuperaram a contagem em um ano depois de parar; uso longo e anabolizantes atrasam a volta.
- Pela OMS (2021), os limites inferiores incluem 16 milhões por mL, 30% de motilidade progressiva e 4% de formas normais. Ficar abaixo não é sentença.
- Para preservar a fertilidade, há alternativas, como hCG, FSH e clomifeno.
Imagine um homem de 35 anos com testosterona baixa confirmada em duas coletas, cansado e sem libido, que pensa no segundo filho "daqui a uns dois anos". Um gel de testosterona melhoraria os sintomas e, sem que ninguém avisasse, poderia zerar os espermatozoides. É aí que o espermograma antes da reposição de testosterona faz diferença.
Feito antes da receita, o exame muda a conversa. Alterado, pede investigação e talvez outro caminho. Normal, vira ponto de partida.
A seguir, explico quem deve fazer o exame, como ler o laudo e as alternativas, sempre com sintomas, exame físico e histórico.
O que Você Precisa Saber
Testosterona no sangue não é fertilidade. A reposição pode normalizar o exame e a libido enquanto o testículo deixa de fabricar espermatozoides.
A volta não é garantida. Na maioria, a produção se recupera em meses depois de parar; em alguns, demora mais ou fica incompleta.
O espermograma não é para todos. Para quem não quer mais filhos, não muda a decisão.
Um laudo abaixo da referência não é sentença. Os limites da OMS não separam férteis de inférteis.
Por que a testosterona de fora diminui a produção de espermatozoides
Costumo explicar com uma fábrica. A hipófise, na base do cérebro, é o gerente que dá duas ordens ao testículo: o LH pede testosterona; o FSH, espermatozoides. Como um termostato, quando a testosterona sobe, as ordens diminuem.
a fabricação dos espermatozoides no testículo. Depende do FSH e de testosterona muito concentrada no próprio testículo, produzida lá por ordem do LH.
Com testosterona de fora, em gel ou injeção, LH e FSH caem, a testosterona do testículo cai junto, e a produção desacelera ou para. Perceba o paradoxo: o exame de sangue fica normal, e o testículo, sem estímulo. Trocar o gel pela injeção não protege a fertilidade. Detalho essa leitura em LH e FSH no homem.
Quanto e quão rápido: o que os estudos de contracepção mostram
Boa parte do que se sabe vem de pesquisas de anticoncepcional masculino.
Num estudo da Organização Mundial da Saúde publicado em 1990, 271 homens saudáveis receberam 200 mg de enantato de testosterona por semana. Cerca de 65% chegaram a zero espermatozoides no sêmen em seis meses, num tempo médio de 120 dias.
Veja o outro lado: cerca de um terço não chegou a zero, por isso a testosterona não é anticoncepcional confiável.
Uma análise de 2006, na revista Lancet, reuniu 30 estudos e 1.549 homens saudáveis: a contagem voltou a 20 milhões por mL, em média, em 3,4 meses; 90% se recuperaram em um ano e todos em dois, mais rápido com uso curto e contagem inicial alta. Quem usou por anos ou como anabolizante pode demorar mais, como mostro em testosterona e fertilidade masculina.
O que dizem as diretrizes
As principais diretrizes concordam no essencial:
- Endocrine Society (2018): não iniciar testosterona em quem planeja ter filhos em breve.
- Associação Americana de Urologia (AUA, 2018, validade confirmada em 2024): avaliação reprodutiva antes do tratamento em quem se interessa por fertilidade; não prescrever a quem tenta engravidar a parceira.
- AUA e Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (infertilidade masculina, emendada em 2024): não prescrever a quem tem interesse em fertilidade atual ou futura.
- Associação Europeia de Urologia (EAU): o desejo ativo de ter filhos é contraindicação absoluta.
As diretrizes da Endocrine Society e das associações americana e europeia de urologia desaconselham iniciar a reposição de testosterona em homens que planejam ter filhos. A diretriz americana de infertilidade masculina, emendada em 2024, inclui quem pensa em filhos no futuro.
Quem deve fazer espermograma antes da reposição
Nenhuma diretriz manda pedir espermograma para todo homem que vai repor. Pergunto sobre filhos antes de qualquer receita, e o exame entra quando o homem:
- quer filhos agora ou nos próximos anos;
- quer filhos algum dia, mesmo sem prazo;
- ainda não decidiu: costumo tratar o "não sei" como "talvez sim";
- já usou testosterona ou anabolizantes e pensa em filhos.
Com história de criptorquidia (testículo fora da bolsa), varicocele ou quimioterapia, o exame de base pesa ainda mais. Para quem completou a família ou fez vasectomia, o exame não muda a decisão; os que valem para todos estão no exame de testosterona e no guia de reposição de testosterona.
Como colher o espermograma
exame do sêmen que mede volume, número, movimento, forma e vitalidade dos espermatozoides. Não mede hormônios: testosterona é exame de sangue.
Pelo manual da OMS de 2021, a coleta é feita por masturbação, em frasco estéril, depois de 2 a 7 dias sem ejacular, e a análise começa em até 1 hora; por isso muitos laboratórios preferem a coleta no local. Informe remédios e qualquer uso de hormônios.
Um resultado normal basta. Alterado, a diretriz europeia pede pelo menos mais uma análise antes de investigar a fundo.
Valores de referência do espermograma pela OMS (2021)
A OMS calculou os limites com homens cujas parceiras engravidaram em até um ano: o limite inferior é o valor que 95% deles superaram.
| Parâmetro | Limite inferior (OMS 2021) | O que mede |
|---|---|---|
| Volume | 1,4 mL | Quantidade de sêmen |
| Concentração | 16 milhões por mL | Espermatozoides em cada mililitro |
| Número total | 39 milhões por ejaculado | Concentração vezes volume |
| Motilidade progressiva | 30% | Os que nadam para a frente |
| Motilidade total | 42% | Todos os que se movem |
| Vitalidade | 54% | Espermatozoides vivos |
| Formas normais | 4% | Forma correta pelo critério estrito, o "Kruger" dos laudos |
azoospermia é a ausência de espermatozoides no sêmen; oligozoospermia, a contagem abaixo do limite de referência.
A diretriz europeia lembra que o quinto percentil não é fronteira entre férteis e inférteis: por definição, parte dos homens férteis fica abaixo. O laudo se lê com o exame físico, o tempo de tentativa e a idade da parceira.
Congelar sêmen antes da reposição
As diretrizes americana e europeia recomendam guardar sêmen antes de tratamentos que lesam o testículo, como quimioterapia; antes da testosterona, não há recomendação formal. É uma opção a discutir quando a reposição é necessária e os filhos ficam para depois, ou quando o espermograma está no limite.
Alternativas para quem precisa tratar e quer preservar a fertilidade
Não existe equilíbrio, existe prioridade: para quem quer filhos, estimular o próprio testículo vem antes de substituí-lo.
Tratar a causa. Excesso de peso, diabetes, apneia, opioides e corticoides freiam o comando do testículo; veja causas de testosterona baixa.
hCG, com ou sem FSH. A gonadotrofina coriônica humana (hCG) é uma injeção que imita o LH; o FSH recombinante reforça o estímulo. Pela EAU, são o padrão no hipogonadismo secundário de quem deseja ser pai, e juntos funcionam melhor.
Clomifeno. Comprimido que aumenta LH e FSH. No homem, é uso fora da bula, que no Brasil prevê só a infertilidade feminina; pela Endocrine Society, eficácia e segurança não foram demonstradas em ensaios randomizados.
Anastrozol, em casos específicos. Inibidor de aromatase, diminui a conversão de testosterona em estradiol. A AUA o admite, como hCG e clomifeno, em quem quer preservar a fertilidade; a EAU chama a evidência de pobre e alerta para perda óssea, como mostro em estradiol no homem.
Pela EAU, clomifeno e anastrozol não servem quando o problema está no testículo. Nenhum se usa por conta própria; veja hipogonadismo.
Anabolizantes e síndrome de Klinefelter
Anabolizantes. Em doses acima das de reposição, suprimem mais. Num estudo australiano com ex-usuários, o LH voltou em média em 11 meses, e os espermatozoides, em 14. O Conselho Federal de Medicina proíbe prescrevê-los para estética ou desempenho (Resolução 2.333/2023).
Síndrome de Klinefelter. O espermograma costuma não mostrar espermatozoides, mas parte dos homens ainda os tem no testículo, e eles podem ser buscados por cirurgia, tema a discutir antes da reposição; veja Klinefelter no adulto.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Reposição de testosterona causa infertilidade?
Pode causar, enquanto durar o uso. A testosterona de fora diminui o LH e o FSH, e a produção de espermatozoides cai, às vezes a zero, mesmo com o exame de sangue normal. Não há como prever quem fica infértil. Na maioria, a produção volta em meses depois de parar; após uso longo, pode demorar mais.
- Preciso fazer espermograma antes de começar a reposição de testosterona?
Depende dos seus planos. Se você quer filhos agora, no futuro ou ainda não decidiu, sim: as diretrizes pedem avaliação da fertilidade antes do tratamento, e o exame mostra o ponto de partida. Se a família está completa ou você fez vasectomia, ele não muda a decisão. A conversa sobre filhos vem antes da receita.
- Quanto tempo a fertilidade demora para voltar depois de parar a testosterona?
Na análise de 2006, com 1.549 homens saudáveis, a contagem voltou a 20 milhões por mL em 3,4 meses, em média; 90% se recuperaram em um ano e todos em dois. Eram jovens, com uso por tempo definido. Após anos de uso ou anabolizantes, pode levar mais, e a recuperação não é garantida.
- Quem usa testosterona pode engravidar a parceira?
Pode. A testosterona diminui os espermatozoides, mas nem sempre a zero: no estudo da OMS com injeções semanais, cerca de um terço dos homens não chegou à ausência de espermatozoides em seis meses. Por isso não serve como anticoncepcional. E quem quer ter filhos não deve contar com a sorte: o espermograma mostra a produção.
- Quais são os valores de referência do espermograma?
Pelo manual da OMS de 2021, os limites inferiores são: volume de 1,4 mL, 16 milhões por mL, 39 milhões por ejaculado, 30% de motilidade progressiva, 42% de motilidade total, 54% de vitalidade e 4% de formas normais. São o valor que 95% dos homens férteis superaram, não uma fronteira entre fértil e infértil.
- Como é feita a coleta do espermograma?
Por masturbação, em frasco estéril fornecido pelo laboratório, depois de 2 a 7 dias sem ejacular, como orienta o manual da OMS. A amostra precisa ser analisada em até 1 hora, por isso muitos laboratórios preferem a coleta no local. Informe remédios e hormônios. Resultado alterado pede pelo menos mais uma análise.
- Vale a pena congelar sêmen antes da reposição de testosterona?
Em situações específicas. As diretrizes recomendam o congelamento antes de tratamentos que lesam o testículo, como quimioterapia; antes da testosterona, não há recomendação formal. Pode fazer sentido para quem precisa repor e deixa os filhos para depois, ou tem espermograma no limite. Depende da qualidade da amostra e pode exigir reprodução assistida.
- Espermograma zerado por uso de testosterona tem volta?
Na maioria das vezes, sim, mas leva meses e nem sempre é completa. Não pare a testosterona por conta própria: o médico confirma o quadro com LH, FSH e exame dos testículos e monta um plano, às vezes com hCG, FSH ou clomifeno. Em ex-usuários de anabolizantes, a produção levou em média 14 meses para voltar.
Planeje a reposição com orientação individual
Vai começar testosterona e pensa em filhos? A conversa vem antes da receita; leve as perguntas para fazer ao endocrinologista.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
- World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen. 6th ed. Geneva: World Health Organization; 2021.
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229.
- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115. Validade confirmada pela AUA em 2024.
- American Urological Association; American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline. Publicada em 2020, emendada em 2024.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism; Male Infertility. Arnhem: EAU Guidelines Office; edição atual, consultada em outubro de 2026.
- Liu PY, Swerdloff RS, Christenson PD, Handelsman DJ, Wang C; Hormonal Male Contraception Summit Group. Rate, extent, and modifiers of spermatogenic recovery after hormonal male contraception: an integrated analysis. Lancet. 2006;367(9520):1412-1420.
- World Health Organization Task Force on Methods for the Regulation of Male Fertility. Contraceptive efficacy of testosterone-induced azoospermia in normal men. Lancet. 1990;336(8721):955-959.
- Shankara-Narayana N, Yu C, Savkovic S, et al. Rate and Extent of Recovery from Reproductive and Cardiac Dysfunction Due to Androgen Abuse in Men. J Clin Endocrinol Metab. 2020;105(6):1827-1839. doi:10.1210/clinem/dgz324.
- Zitzmann M, Aksglaede L, Corona G, et al. European Academy of Andrology guidelines on Klinefelter Syndrome. Endorsing Organization: European Society of Endocrinology. Andrology. 2021;9(1):145-167. doi:10.1111/andr.12909.
