Efeitos colaterais da reposição de testosterona: acne, retenção, apneia e o que monitorar
Reposição de testosterona: efeitos comuns, raros e sinais de alerta
Resumo rápido
- O efeito mais frequente é o hematócrito alto, maior com injeção; acima de 54%, a dose é ajustada ou pausada.
- Acne, pele oleosa, inchaço leve e mamas sensíveis costumam responder ao ajuste.
- Toda testosterona de fora diminui os espermatozoides: quem quer filhos em breve não deve usar.
- No TRAVERSE, sem mais infarto ou AVC; um pouco mais de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal.
- Exames aos 3, 6 e 12 meses e, depois, todo ano.
Imagine um homem de 52 anos com hipogonadismo confirmado, três meses depois de começar o cipionato de testosterona (Deposteron): a libido voltou, mas o rosto ficou oleoso, a aliança apertou e o hematócrito está em 53%. Agora imagine outro, de 38, que usa gel e quer ter o segundo filho. Os dois querem saber quais são os efeitos colaterais da testosterona e o que fazer.
Indicação e formas estão no guia de reposição de testosterona; aqui, o foco é o que monitorar.
O que Você Precisa Saber
Efeito colateral não é sinônimo de perigo. A maioria se resolve com ajuste; poucos pedem pausa.
Dose e forma mudam o risco. Nível acima da faixa e picos de injeção aumentam hematócrito e acne.
A fertilidade vem antes da primeira dose. A testosterona de fora diminui os espermatozoides, às vezes até zero.
Os exames são a proteção. Hematócrito, PSA e pressão mostram o problema antes do sintoma.
Por que a testosterona tem efeitos colaterais
Pense assim: a testosterona é uma chave, e as fechaduras ficam na medula óssea, na pele, no cabelo, na mama, na próstata, no testículo e no cérebro. Na dose certa, abre o que estava fechado; acima dela, abre portas demais. Parte dela vira estradiol, e daí vêm as mamas sensíveis.
porcentagem do sangue ocupada pelos glóbulos vermelhos. Quando sobe demais, o sangue fica mais espesso.
Pela Endocrine Society (2018), têm associação clara: hematócrito alto, acne e pele oleosa, menos espermatozoides e a descoberta de um câncer de próstata que já existia. Ginecomastia, calvície em quem tem na família e piora da apneia são incomuns, com associação fraca. No gel, somam-se irritação e transferência; nas injeções, dor no local e oscilação de humor.
Os efeitos mais comuns: sangue, pele, inchaço e mamas
Hematócrito alto. É o efeito mais frequente; pela Endocrine Society, o gel causa menos que a injeção. Antes de começar, a diretriz americana de urologia (AUA) pede investigar hematócrito acima de 50%; durante o tratamento, acima de 54%, a dose é ajustada ou pausada. Cigarro e apneia somam risco; veja testosterona e hematócrito alto.
Num estudo americano de 2015, o hematócrito passou de 50% em 66,7% dos homens em injeção e em 12,8% dos em gel. No ensaio T4DM, de 2021, com undecilato de testosterona a cada três meses, 22% passaram de 54%, contra 1% com placebo.
Acne e calvície. Nas bulas da testosterona em gel (Androgel) e do undecilato de testosterona (Nebido, Hormus, Atesto), a acne é comum, de 1 a 10 em cada 100 usuários, mais nos picos da injeção. A calvície pode acelerar em quem tem predisposição. Quem usa finasterida deve avisar o médico: ela diminui o PSA para cerca de metade.
Inchaço e pressão. A retenção de líquido dá um inchaço leve nas primeiras semanas, que costuma passar; pela Endocrine Society, a testosterona pode piorar o inchaço de quem tem insuficiência cardíaca. Pressão que sobe e não cede pede revisão da dose.
Mamas. Nas bulas, o aumento da mama, a ginecomastia, é incomum; dose alta e obesidade aumentam o risco. O caminho é ajustar a dose, não usar anastrozol (Arimidex) de rotina.
Gel na pele. Coceira e irritação no local são comuns. O hormônio pode passar pelo contato: crianças podem ter aumento do pênis ou do clitóris e pelos pubianos; mulheres, acne e pelos. Mãos lavadas e área coberta evitam a maior parte; veja gel de testosterona e transferência.
Sono, humor e fertilidade
Apneia. Pela Endocrine Society, a piora foi muito rara nos ensaios, mas apneia grave sem tratamento impede o início. Ronco novo ou sonolência de dia pedem avaliação do sono; veja apneia do sono e testosterona baixa.
Humor. Nas injeções de curta duração, humor e desejo podem oscilar com picos e vales; insônia, irritabilidade e agressividade são incomuns na bula do undecilato e mais prováveis com dose alta.
Fertilidade. É como um termostato: a hipófise percebe a testosterona de fora, entende que a casa já está quente e desliga o LH e o FSH, que comandam os testículos. Eles diminuem, e os espermatozoides podem chegar a zero, com gel ou injeção. Por isso, a Endocrine Society e a AUA orientam não usar em quem quer filhos em breve.
Em estudos de anticoncepção masculina reunidos em 2006 na Lancet, a contagem voltou a 20 milhões por mililitro em uma mediana de 3,4 meses depois de parar; após anos de uso, pode demorar mais. Veja testosterona e fertilidade masculina.
Próstata e coração: o que o TRAVERSE mostrou
PSA. Costuma subir um pouco: nos T Trials, cerca de 0,5 ng/mL no primeiro ano. Pela Endocrine Society, o urologista entra com alta confirmada de mais de 1,4 ng/mL no primeiro ano, PSA acima de 4,0 ng/mL confirmado ou toque retal alterado; veja PSA na reposição de testosterona.
Câncer de próstata. No TRAVERSE, o de alto grau apareceu em 0,19% com gel e em 0,12% com placebo, sem diferença significativa. Pela Endocrine Society, quem tem câncer de próstata ou de mama não deve começar; em junho de 2026, a FDA, agência americana, propôs que, nas bulas de lá, essa contraindicação valha só para o câncer de próstata metastático.
Coração. Na minha visão, bem indicada e acompanhada, a reposição é segura para o coração, mas não serve como prevenção.
No estudo TRAVERSE, de 2023, com 5.246 homens de 45 a 80 anos com testosterona baixa e doença cardiovascular ou risco alto, o gel não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular (7,0% contra 7,3% com placebo). Fibrilação atrial (3,5% contra 2,4%), embolia pulmonar (0,9% contra 0,5%) e lesão renal aguda (2,3% contra 1,5%) foram mais frequentes.
Com base nele, em fevereiro de 2025, a FDA tirou do alerta em destaque das bulas americanas o trecho sobre risco cardiovascular e incluiu um alerta sobre pressão arterial.
O que fazer com cada efeito e quando é urgente
| Efeito | Frequência | O que fazer, com o médico | Quando é urgente |
|---|---|---|---|
| Hematócrito alto | O mais frequente; mais com injeção | Acima de 54%, ajustar ou pausar | Dor no peito, fraqueza de um lado do corpo |
| Acne e pele oleosa | Comum | Dermatologista; rever a dose | Raramente |
| Inchaço e pressão | Inchaço leve no início | Medir a pressão; rever a dose | Perna inchada e dolorida de um lado só |
| Mamas sensíveis | Incomum | Ajustar a dose | Nódulo endurecido: avaliar logo |
| Apneia nova ou pior | Incomum | Avaliar o sono | Sonolência ao dirigir |
| Gel: irritação e transferência | Irritação comum | Trocar o local; mãos lavadas | Puberdade precoce em criança: pediatra |
| Menos espermatozoides | Esperado | Não usar se quer filhos; espermograma | Não é |
| PSA subindo | Alta pequena é esperada | Urologista acima de 1,4 ng/mL no 1º ano ou de 4,0 | Não conseguir urinar |
| Arritmia, embolia, lesão renal | Pouco mais que com placebo | Contar palpitação e falta de ar | Palpitação irregular, falta de ar súbita |
Como diminuir o risco
- Indicação certa: testosterona baixa em duas manhãs, entre 7h e 10h e em jejum, com sintomas.
- Forma pelo risco: com apneia, cigarro ou hematócrito no limite, o gel costuma fazer mais sentido; veja gel ou injeção de testosterona.
- Nível no meio da faixa: em geral, de 450 a 700 ng/dL.
- Exames no calendário: testosterona, hematócrito, PSA e pressão aos 3, 6 e 12 meses e, depois, todo ano; veja exames na reposição de testosterona.
- Tempo para julgar: seis meses na faixa sem melhora pedem rever a causa; veja quanto tempo a testosterona demora para fazer efeito.
Doses acima do necessário aumentam o risco de hematócrito alto, mamas aumentadas, acne, irritabilidade, inchaço e espermatozoides a zero. É o terreno dos chips de testosterona em dose alta, das fórmulas manipuladas sem padronização de dose e do uso estético ou de desempenho, vetado pelo Conselho Federal de Medicina desde 2023; veja os riscos da testosterona manipulada e dos anabolizantes.
Não existe equilíbrio, existe prioridade: indicação, dose certa e exames. Dose, troca e suspensão se decidem com o médico; veja o tratamento do hipogonadismo com endocrinologista em São Paulo.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Quais são os efeitos colaterais da reposição de testosterona?
Os mais frequentes são o hematócrito alto, maior com injeção, e a acne com pele oleosa. Pela Endocrine Society, também se ligam à testosterona a diminuição dos espermatozoides e a descoberta de um câncer de próstata que já existia. Ginecomastia, calvície em quem tem predisposição e piora da apneia são incomuns.
- Testosterona causa espinhas e queda de cabelo?
Pode. Nas bulas da testosterona em gel (Androgel) e do undecilato de testosterona (Nebido), a acne é comum, de 1 a 10 em cada 100 usuários. A calvície tem associação fraca, pela Endocrine Society, e acelera em quem tem predisposição na família. Quem usa finasterida deve avisar o médico: ela diminui o PSA.
- Testosterona causa inchaço nas pernas ou no rosto?
Pode, porque retém líquido. Um inchaço leve nas primeiras semanas é esperado e costuma passar. Pela Endocrine Society, ela pode piorar o inchaço de quem tem insuficiência cardíaca ou outras doenças que já incham. Inchaço que piora, falta de ar ou perna inchada e dolorida de um lado só pedem avaliação no mesmo dia.
- Testosterona pode causar infarto, arritmia ou trombose?
No TRAVERSE, em homens de risco cardiovascular alto, o gel não aumentou infarto, AVC ou morte cardiovascular (7,0% contra 7,3% com placebo), mas fibrilação atrial (3,5% contra 2,4%) e embolia pulmonar (0,9% contra 0,5%) foram um pouco mais frequentes. Pela Endocrine Society, trombofilia e infarto ou AVC nos últimos 6 meses são motivos para não começar.
- Testosterona causa câncer de próstata ou de mama?
Não há aumento claro: no TRAVERSE, o câncer de próstata de alto grau apareceu em 0,19% com gel e em 0,12% com placebo, sem diferença significativa. Mas a testosterona pode revelar um câncer que já existia; por isso, PSA e toque retal entram no acompanhamento. Quem tem câncer de próstata ou de mama não deve começar.
- A reposição de testosterona causa infertilidade?
Pode. A testosterona de fora, em gel ou injeção, desliga o LH e o FSH; os espermatozoides diminuem, às vezes até zero, e os testículos ficam menores. Não serve para quem quer filhos em breve. Em estudos de anticoncepção masculina, a produção voltou em uma mediana de 3,4 meses depois de parar; após anos de uso, pode demorar mais.
- Testosterona faz mal para o fígado ou para os rins?
Em gel ou injeção, na dose de reposição, problemas no fígado são raros; pela Endocrine Society, a toxicidade aparece sobretudo com comprimidos do tipo 17-alfa-alquilado, comuns entre os anabolizantes. Nos rins, o TRAVERSE viu um pouco mais de lesão renal aguda com gel: 2,3% contra 1,5% com placebo. Quem tem doença no fígado ou no rim deve avisar o médico.
- Quais são os efeitos colaterais da testosterona na mulher?
Na única indicação com evidência, o desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, o consenso internacional de 2019 viu, com dose da faixa feminina, só leve aumento de acne e pelos. Acima dela vem a virilização, com aumento do clitóris e voz mais grave, que pode ficar para sempre. No Brasil, não há testosterona com dose feminina registrada.
Acompanhe a sua reposição com orientação individual
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
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Referências
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- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115. Validade confirmada pela AUA em 2024.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Hypogonadism. Arnhem: EAU Guidelines Office; edição atual, consultada em novembro de 2026.
- Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med. 2023;389(2):107-117. doi:10.1056/NEJMoa2215025. Análise de próstata do mesmo estudo: Bhasin S, Travison TG, Pencina KM, et al. Prostate Safety Events During Testosterone Replacement Therapy in Men With Hypogonadism: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2023;6(12):e2348692.
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