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Tireoidite Subaguda de Quervain: Causas, Sintomas, Diagnóstico e Tratamento Completo

Tireoidite Subaguda de Quervain: Causas, Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

TL;DR — Resumo Rápido

  • A tireoidite subaguda é uma inflamação temporária da tireoide, geralmente após uma infecção viral.
  • O sintoma mais marcante é dor no pescoço, que pode irradiar para mandíbula e ouvidos.
  • A doença costuma passar por três fases: hipertireoidismo → hipotireoidismo → normalização.
  • O tratamento alivia a dor e os sintomas; na maioria dos casos a tireoide se recupera totalmente.
  • Procure um endocrinologista se tiver dor cervical persistente associada a palpitações, cansaço ou perda de peso.

A tireoidite subaguda, também conhecida como tireoidite granulomatosa ou de Quervain, é uma condição inflamatória temporária da tireoide que, apesar de ser rara, causa bastante desconforto. Ela geralmente afeta mulheres entre 30 e 50 anos, apresentando sintomas como dor no pescoço e alterações temporárias na função da tireoide.

Na prática do consultório, ela costuma assustar mais do que deveria: a dor pode ser intensa e o paciente, muitas vezes, recebe diagnósticos errados — de "infecção de garganta" a "problema na coluna" — antes de chegar à causa real. A boa notícia é que, na grande maioria dos casos, trata-se de uma doença autolimitada, ou seja, que tende a se resolver sozinha com o tempo e o tratamento adequado.

Neste artigo, vou explicar as principais causas, sintomas, métodos de diagnóstico e as opções de tratamento para a tireoidite subaguda, ajudando você a entender melhor essa condição e como lidar com ela.

A tireoidite subaguda (ou de Quervain) é uma inflamação temporária e dolorosa da glândula tireoide, geralmente desencadeada por uma infecção viral. É autolimitada: na maioria dos casos, a função da tireoide volta ao normal em alguns meses.

O que Você Precisa Saber

A tireoidite subaguda é uma inflamação da tireoide, normalmente disparada por uma infecção viral recente. Ela não é uma doença autoimune nem uma infecção da própria glândula — é uma reação inflamatória que destrói temporariamente parte do tecido tireoidiano.

O sintoma central é a dor no pescoço, sobre a região da tireoide, frequentemente irradiando para mandíbula e ouvidos. Essa dor distingue a tireoidite subaguda de quase todas as outras doenças da tireoide, que costumam ser indolores.

A função da glândula muda ao longo do tempo. Primeiro há excesso de hormônio (hipertireoidismo), depois falta de hormônio (hipotireoidismo) e, por fim, a normalização. Cada fase tem sintomas diferentes e o tratamento acompanha esse movimento.

O diagnóstico combina exame físico, exames de sangue (TSH, T4 livre, marcadores inflamatórios) e, quando necessário, imagem. Um achado característico é a captação de iodo muito baixa pela tireoide, o que ajuda a diferenciá-la da doença de Graves.

Principais Causas da Tireoidite Subaguda de Quervain

A causa mais provável da tireoidite subaguda é uma infecção viral. Ela costuma aparecer semanas após um quadro respiratório, como uma gripe ou resfriado. Entre os vírus relacionados à condição, podemos citar:

  • Coxsackievirus
  • Vírus da caxumba
  • Vírus do sarampo
  • Adenovírus

Além disso, há uma ligação com o antígeno HLA-B35, um marcador genético que pode predispor algumas pessoas a desenvolver a condição após uma infecção viral.

Definição rápida — HLA-B35: é uma variação genética do sistema de defesa do corpo que aumenta a chance de algumas pessoas desenvolverem tireoidite subaguda depois de uma virose.

Embora ainda não se saiba ao certo qual vírus é o principal responsável, acredita-se que o sistema imunológico possa reagir contra a tireoide após uma infecção viral, gerando a inflamação.

Vale destacar uma atualização importante: nos últimos anos, a literatura médica passou a descrever casos de tireoidite subaguda surgindo após infecção por SARS-CoV-2, o vírus da COVID-19, reforçando o papel de infecções virais respiratórias como gatilho. 

Sintomas da Tireoidite Subaguda

Os sintomas da tireoidite subaguda são bastante característicos e variam de acordo com a fase da doença. A condição pode evoluir em várias etapas, começando com hipertireoidismo, seguido de uma fase de hipotireoidismo transitório e, por fim, o retorno à função tireoidiana normal.

Definição rápida — tireotoxicose: é o conjunto de sintomas causados pelo excesso de hormônio da tireoide no corpo, como palpitação, tremor e perda de peso.

A linha do tempo da doença (curso trifásico)

Entender essa sequência ajuda a não se assustar quando os sintomas "mudam de lado":

  1. Fase 1 – Hipertireoidismo (semanas iniciais): a inflamação rompe as células da tireoide e libera de uma vez o hormônio que estava armazenado.
  2. Fase 2 – Hipotireoidismo transitório (semanas a poucos meses): com o "estoque" esvaziado e a glândula inflamada, falta hormônio temporariamente.
  3. Fase 3 – Recuperação (eutireoidismo): a glândula se regenera e a função volta ao normal.

Definição rápida — eutireoidismo: é o estado em que a tireoide funciona normalmente, sem excesso nem falta de hormônio.

Fase Inicial: Hipertireoidismo

Na fase inicial, a inflamação da tireoide provoca a liberação de hormônios tireoidianos pré-formados, resultando em sintomas de hipertireoidismo, como:

  • Dor intensa no pescoço: esse é um dos sintomas mais comuns e pode irradiar para a mandíbula, ouvidos, peito e até para o braço. A dor é geralmente intensa e pode aumentar com movimentos ou ao engolir.
  • Sensibilidade aumentada na região da tireoide: o toque na região pode ser muito desconfortável.
  • Palpitações: batimentos cardíacos acelerados ou irregulares são comuns devido ao aumento dos hormônios tireoidianos no sangue.
  • Tremores e ansiedade: a sobrecarga hormonal pode causar sintomas típicos de ansiedade, tremores nas mãos e nervosismo.
  • Perda de peso: devido ao aumento do metabolismo.
  • Intolerância ao calor: a pessoa pode sentir calor em excesso, mesmo em ambientes mais frios.

Muitos pacientes também relatam febre baixa, mal-estar geral e cansaço — sinais de que o corpo está combatendo um processo inflamatório.

Fase de Eutireoidismo e Hipotireoidismo Transitório

Após a fase inicial, o paciente pode entrar em um estado de função normal da tireoide (eutireoidismo), seguido de hipotireoidismo transitório, onde os sintomas são opostos aos do hipertireoidismo:

  • Fadiga intensa: a falta de hormônios tireoidianos leva a uma sensação de cansaço extremo.
  • Ganho de peso: a desaceleração do metabolismo pode resultar em ganho de peso, apesar de a dieta não ter mudado.
  • Intolerância ao frio: diferente da fase inicial, o paciente agora pode sentir frio excessivo.
  • Depressão e lentidão mental: a redução dos hormônios tireoidianos pode causar sintomas de desânimo, dificuldade de concentração e letargia.

Se você quiser entender melhor essa fase, escrevi um conteúdo dedicado aos sintomas do hipotireoidismo e à fisiologia e diagnóstico do hipotireoidismo.

Achados Laboratoriais e de Imagem

O diagnóstico da tireoidite subaguda depende de uma combinação de achados clínicos e exames laboratoriais e de imagem.

Exames Laboratoriais

Testes de função tireoidiana:

  • TSH suprimido: na fase inicial de hipertireoidismo, os níveis de TSH estão tipicamente muito baixos, abaixo de 0,1 mU/L.
  • T4 livre e T3 total elevados: durante o estágio de hipertireoidismo, o T4 livre e o T3 total estão elevados. No entanto, ao contrário da doença de Graves, o aumento de T3 não é desproporcional ao de T4.
  • TSH elevado na fase de hipotireoidismo: na fase de hipotireoidismo, o TSH pode estar elevado, indicando que a tireoide não está mais produzindo hormônios suficientes.

Marcadores inflamatórios:

  • A velocidade de hemossedimentação (VHS) e a proteína C reativa (PCR) são geralmente elevadas, refletindo o processo inflamatório ativo.

Definição rápida — VHS: é um exame de sangue simples que indica a presença de inflamação no corpo; costuma estar bem aumentado na tireoidite subaguda.

  • Tireoglobulina sérica: comumente elevada devido à inflamação e à destruição do tecido tireoidiano.

Em geral, os anticorpos antitireoidianos (como anti-TPO e TRAb) estão ausentes ou apenas discretamente elevados — o que reforça que a tireoidite subaguda não é uma doença autoimune.

Exames de Imagem

Cintilografia da tireoide:

Na fase de hipertireoidismo da tireoidite subaguda, a captação de iodo radioativo é muito baixa (geralmente < 5%). Isso é um achado importante que diferencia a tireoidite subaguda da doença de Graves, onde a captação de iodo é alta.

Definição rápida — captação de iodo: é um exame que mede quanto iodo a tireoide "puxa" do sangue; na tireoidite subaguda esse valor fica muito baixo porque a glândula está inflamada, não hiperativa.

Ultrassonografia da tireoide:

A ultrassonografia pode revelar uma tireoide aumentada e hipoecogênica (áreas escuras no exame de imagem), o que sugere inflamação. Além disso, a ultrassonografia com Doppler pode mostrar redução do fluxo sanguíneo na glândula, diferentemente da doença de Graves, em que o fluxo é aumentado.

Cintilografia com iodo radioativo ou tecnécio:

Esse exame confirma a baixa captação de iodo pela tireoide, especialmente durante a fase de hipertireoidismo. É um dos métodos mais confiáveis para diferenciar a tireoidite subaguda de outras condições da tireoide.

Diagnóstico diferencial: com o que pode ser confundida?

CondiçãoDor no pescoço?Captação de iodoÉ autoimune?
Tireoidite subaguda (de Quervain) Sim, intensa Muito baixa Não
Doença de Graves Não Alta Sim
Tireoidite de Hashimoto Não Normal/baixa Sim
Tireoidite aguda (bacteriana) Sim, com febre alta e pus Variável Não

Conhecer esse mapa explica por que a avaliação de um endocrinologista é tão importante: tratar uma tireoidite subaguda como se fosse doença de Graves, por exemplo, levaria a uma conduta completamente equivocada.

Tratamento da Tireoidite Subaguda

O tratamento da tireoidite subaguda foca no alívio da dor e no controle dos sintomas — não em "frear" a tireoide, já que o excesso de hormônio é passageiro. As diretrizes da American Thyroid Association (ATA) orientam iniciar, nos casos sintomáticos leves, com betabloqueadores e anti-inflamatórios. As opções incluem:

  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): ibuprofeno, aspirina ou naproxeno podem ser utilizados para controle da dor e da inflamação leve a moderada.
  • Corticosteroides: nos casos em que a dor é intensa ou os AINEs não oferecem alívio suficiente, a prednisona pode ser prescrita. A prednisona alivia rapidamente a dor, mas deve ser reduzida gradualmente, sob orientação médica, para evitar efeitos colaterais e o retorno dos sintomas.
  • Betabloqueadores: usados para controlar sintomas de hipertireoidismo, como palpitações e tremores. Eles não tratam a tireoide em si, apenas aliviam os sintomas.
  • Reposição hormonal com levotiroxina: se o paciente desenvolver hipotireoidismo sintomático, a reposição de hormônios tireoidianos pode ser necessária temporariamente. Você pode entender melhor essa abordagem no conteúdo sobre tratamento do hipotireoidismo.

Segundo a diretriz da American Thyroid Association (2016), o tratamento da tireoidite subaguda sintomática leve deve começar com anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e betabloqueadores. Quando a dor é intensa ou não cede, indica-se corticosteroide (prednisona), com redução gradual da dose.

É importante destacar: como o hipertireoidismo da tireoidite subaguda decorre da liberação de hormônio já pronto, medicamentos antitireoidianos clássicos (como o metimazol) não funcionam — eles agem bloqueando a produção de hormônio, que não está aumentada aqui.

Curso, Prognóstico e Recorrência

Na maioria dos casos, a tireoidite subaguda se resolve em alguns meses, com recuperação completa da função da tireoide. A dor costuma melhorar em poucos dias após o início do tratamento.

Uma minoria dos pacientes pode desenvolver hipotireoidismo permanente, exigindo reposição hormonal a longo prazo.

A recorrência da tireoidite subaguda é incomum, mas pode acontecer. 

A tireoidite subaguda é considerada uma das principais causas de dor na tireoide. Apesar do desconforto significativo, é autolimitada: a maioria dos pacientes recupera totalmente a função tireoidiana em alguns meses.

Principais Pontos

  • A tireoidite subaguda é uma inflamação temporária e dolorosa da tireoide, geralmente após uma infecção viral.
  • Diferente da maioria das doenças da tireoide, ela causa dor no pescoço, que pode irradiar para mandíbula e ouvidos.
  • Não é uma doença autoimune nem uma infecção da glândula.
  • Evolui em três fases: hipertireoidismo → hipotireoidismo transitório → normalização.
  • A captação de iodo muito baixa é o achado-chave que a diferencia da doença de Graves.
  • O tratamento controla dor e sintomas; medicamentos antitireoidianos clássicos não são indicados.
  • A maioria dos pacientes se recupera totalmente; só uma minoria fica com hipotireoidismo permanente.
  • Dor cervical persistente com palpitações, tremor ou cansaço merece avaliação de um endocrinologista.

Erros Comuns

Erro: confundir a dor da tireoidite subaguda com "infecção de garganta" ou problema na coluna. Por ser uma dor cervical que irradia, muitos pacientes (e até profissionais) atribuem o quadro a faringite ou tensão muscular. A evidência mostra que a dor na região da tireoide, especialmente após uma virose, deve levantar a suspeita de tireoidite subaguda e motivar exames de função tireoidiana.

Erro: achar que tireoidite subaguda é a mesma coisa que doença de Graves. Ambas cursam com hipertireoidismo, mas têm causas e tratamentos opostos. Na tireoidite subaguda a captação de iodo é baixa e o quadro é passageiro; na doença de Graves a captação é alta e a doença é autoimune e crônica.

Erro: tomar remédio antitireoidiano (metimazol) por conta própria. Como o excesso de hormônio vem da liberação do que já estava armazenado, esses remédios não funcionam na tireoidite subaguda e podem causar efeitos colaterais desnecessários. O tratamento correto é anti-inflamatório e controle de sintomas.

Erro: parar o corticoide de repente quando a dor melhora. A prednisona alivia rápido, mas a interrupção abrupta pode trazer a dor de volta. A retirada deve ser gradual e orientada pelo médico.

Erro: interpretar o ganho de peso e o cansaço da fase de hipotireoidismo como "fracasso do tratamento". Essa fase é esperada e geralmente temporária. Em vez de abandonar o acompanhamento, é o momento de reavaliar a função da tireoide e, se necessário, repor hormônio por um período.

Quando Procurar um Especialista

Procure um endocrinologista se você apresentar dor persistente na região do pescoço, especialmente acompanhada de palpitações, tremores, perda de peso, cansaço extremo ou alterações de humor — sobretudo se teve uma virose recente. O diagnóstico correto evita tratamentos desnecessários e acelera a recuperação.

Atendo casos de tireoide e doenças metabólicas tanto presencialmente, em São Paulo, quanto por telemedicina. Se você se identificou com os sintomas, o caminho mais seguro é uma avaliação individualizada.

Perguntas Frequentes sobre a Tireoidite Subaguda

A tireoidite subaguda é uma doença autoimune? Não. Ao contrário da doença de Graves ou da tireoidite de Hashimoto, a tireoidite subaguda não é uma condição autoimune. Ela é causada por um processo inflamatório, geralmente desencadeado por uma infecção viral recente.

A tireoidite subaguda pode causar hipotireoidismo permanente? Na maioria dos casos, o hipotireoidismo é temporário. No entanto, uma pequena parcela dos pacientes pode desenvolver hipotireoidismo crônico, exigindo reposição hormonal a longo prazo. 

Tireoidite subaguda tem cura? Sim. É uma doença autolimitada: na grande maioria dos casos, a tireoide se recupera totalmente em alguns meses, principalmente com o tratamento adequado para aliviar a dor e os sintomas.

Qual a diferença entre tireoidite subaguda e doença de Graves? Ambas causam hipertireoidismo, mas a tireoidite subaguda dói, é passageira e tem captação de iodo baixa. A doença de Graves é indolor, autoimune, crônica e tem captação de iodo alta. Por isso o exame de captação ajuda a diferenciá-las.

Quanto tempo dura a tireoidite subaguda? A dor costuma melhorar em poucos dias com tratamento, mas o ciclo completo da doença, passando pelas fases de hiper e hipotireoidismo até a normalização, geralmente leva alguns meses.

Posso tomar remédio para tireoide por conta própria se estiver com hipertireoidismo? Não. Na tireoidite subaguda, os antitireoidianos clássicos não funcionam, porque o excesso de hormônio vem da glândula inflamada, e não de produção aumentada. O tratamento correto envolve anti-inflamatórios e, às vezes, corticoide.

A tireoidite subaguda pode voltar? A recorrência é incomum, mas possível. Por isso o acompanhamento periódico da função da tireoide é recomendado após a recuperação. 

Quando devo procurar um endocrinologista? Procure um endocrinologista se tiver dor no pescoço persistente associada a palpitações, tremores, perda de peso ou cansaço intenso, sobretudo após uma virose. A avaliação especializada confirma o diagnóstico e define o tratamento adequado.

Conclusão

A tireoidite subaguda é uma condição temporária, mas pode causar desconforto significativo. A boa notícia é que, com o tratamento adequado, a maioria dos pacientes se recupera totalmente. Caso você apresente algum dos sintomas descritos, é importante procurar um médico para realizar o diagnóstico correto e iniciar o tratamento o quanto antes.

Se quiser uma avaliação cuidadosa da sua tireoide, agende sua consulta — presencial, em São Paulo, ou por telemedicina.

Este artigo foi escrito pelo Dr. Rodrigo Bomeny, endocrinologista e metabologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, com residência no Hospital das Clínicas da USP e aproximadamente 20 anos de experiência clínica em diabetes, obesidade e doenças metabólicas.

Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica nem o diagnóstico individualizado.

Agende sua consulta com endocrinologista especialista em diabete e obesidade e recupere sua saúde hormonal.