Tempo no alvo (TIR) no sensor de glicose: como interpretar
Tempo no alvo da glicose: metas, relatório AGP, GMI e o que fazer com cada padrão
Resumo rápido
- Tempo no alvo é a porcentagem do dia com a glicose do sensor entre 70 e 180 mg/dL; na maioria dos adultos com diabetes, a meta é mais de 70%.
- A segurança vem antes: menos de 4% do tempo abaixo de 70 mg/dL e menos de 1% abaixo de 54.
- Em idosos ou com alto risco de hipoglicemia, a meta é mais de 50%.
- O relatório vale com 14 dias e 70% das leituras; o GMI estima a glicada, sem igualá-la.
- Sem diabetes, essas metas não valem.
Imagine duas pessoas que abrem o relatório do sensor de glicose na mesma semana. A primeira tem diabetes tipo 2, usa insulina e comemora o tempo no alvo de 74%, mas passou 6% do tempo abaixo de 70 mg/dL, quase sempre de madrugada.
A segunda se assusta com 58% no alvo, mas o resto fica acima de 180 mg/dL depois das refeições, sem hipoglicemia.
Perceba que o número "bom" pede o ajuste mais urgente. A seguir, explico cada linha do relatório, sempre com sintomas, exames e histórico.
O que Você Precisa Saber
O sensor mostra o que a glicada esconde. A glicada é uma média de cerca de três meses; o sensor mostra a que horas a glicose sobe ou cai.
Abaixo da faixa pesa mais. Hipoglicemia frequente se resolve primeiro, mesmo com tempo no alvo alto.
A meta depende de quem usa. Idosos frágeis, pessoas com alto risco de hipoglicemia e gestantes têm metas próprias.
Cada 5% conta. Pelo Consenso Internacional de 2019, cada 5% a mais no alvo se associa a benefício clínico.
O que é o tempo no alvo: a glicose dentro da pista
Costumo explicar com uma estrada: a glicose é o carro, e a faixa de 70 a 180 mg/dL é a pista. Sair por cima é ir para o acostamento, que desgasta; sair por baixo é cair no barranco, de risco imediato.
porcentagem das leituras do sensor de glicose contínuo entre 70 e 180 mg/dL em pelo menos 14 dias. Cada 1% equivale a cerca de 15 minutos do dia.
Antes de tudo, confira os dias de uso e o tempo com o sensor ativo: o consenso e a Associação Americana de Diabetes (ADA) pedem 14 dias com pelo menos 70% das leituras. Para decidir se vale ter um aparelho, veja sensor de glicose contínuo vale a pena?.
relatório padronizado, de uma página, com as métricas do sensor e uma curva que sobrepõe os 14 dias.
As metas: consenso de 2019 e ADA 2026
O Consenso Internacional sobre Tempo no Alvo, de 2019, fixou as metas que a ADA manteve em 2026; fora da gestação, valem para tipo 1 e tipo 2.
| Métrica (glicose em mg/dL) | Maioria dos adultos com diabetes | Idosos ou alto risco de hipoglicemia | Gestação no tipo 1 |
|---|---|---|---|
| Tempo no alvo | Mais de 70% entre 70 e 180 (quase 17 h) | Mais de 50% entre 70 e 180 (12 h) | Mais de 70% entre 63 e 140 |
| Abaixo do alvo | Menos de 4% abaixo de 70 (cerca de 1 h) | Menos de 1% abaixo de 70 (15 min) | Menos de 4% abaixo de 63 |
| Muito abaixo | Menos de 1% abaixo de 54 (15 min) | Dentro do limite acima | Menos de 1% abaixo de 54 |
| Acima do alvo | Menos de 25% acima de 180 (6 h) | Menos de 50%, pela ADA 2026 | Menos de 25% acima de 140 |
| Muito acima | Menos de 5% acima de 250 | Menos de 10% acima de 250 | Sem meta própria |
O tempo abaixo de 70 inclui o abaixo de 54, e o acima de 180, o acima de 250. Na gestação com tipo 2 ou diabetes gestacional, o consenso não fixou metas, por falta de dados.
As outras linhas do relatório AGP
| Linha do relatório | O que mostra | Meta ou leitura |
|---|---|---|
| Dias de uso e tempo ativo | Se o relatório representa a rotina | 14 dias, com 70% ou mais das leituras |
| GMI | Estimativa da glicada a partir da glicose média | Aproxima, mas nem sempre iguala a glicada |
| Coeficiente de variação (CV) | Quanto a glicose oscila | 36% ou menos |
| Curva do AGP | Os 14 dias sobrepostos, hora a hora | Estreita e dentro da faixa |
número calculado a partir da glicose média do sensor, na escala da hemoglobina glicada. Média de 100 mg/dL dá cerca de 5,7%; de 150, 6,9%; de 200, 8,1%.
O GMI não é a glicada do laboratório: num estudo de 2018, os dois diferiram em meio ponto ou mais em 28% das pessoas. Ele reage mais rápido: dias de doença ou corticoide o deixam acima da glicada; começar low carb ou um remédio novo, abaixo. Se não batem, veja sensor bom e glicada alta e o que é a hemoglobina glicada.
Pela ADA, CV acima de 36% se associa a hipoglicemia. Na curva, a linha do meio é a mediana de cada horário; a faixa escura mostra a metade central dos dias, e a clara, quase todos.
Tempo no alvo e glicada: a conta aproximada
Pelo Consenso Internacional de 2019, tempo no alvo de 70% corresponde a uma glicada de cerca de 7%, e de 50%, a cerca de 8%. Cada 10% a mais no alvo, cerca de 2,4 horas por dia, corresponde a uma glicada de 0,5 a 0,8 ponto menor.
O 0,5 vem de dados do tipo 1; o 0,8, de tipo 1 e tipo 2. Para os cortes do diagnóstico, veja glicada de 6,5% é diabetes?.
porcentagem do dia com a glicose entre 70 e 140 mg/dL.
É uma métrica nova, sem meta oficial: a ADA 2026 não a inclui. Pessoas sem diabetes passam cerca de 96% do dia nessa faixa.
O que fazer com cada padrão do relatório
Leio nesta ordem: dados, hipoglicemia, tempo acima e variação.
Poucos dados. Menos de 14 dias ou de 70% das leituras: colete de novo antes de mudar qualquer coisa.
Hipoglicemia, sobretudo de madrugada. Se o tempo abaixo de 70 ou de 54 passa da meta, é a primeira conversa com o médico: insulina e sulfonilureia são os remédios que mais causam, e a ADA orienta diminuir ou modificar o tratamento. Não mexa na dose sozinho; veja hipoglicemia.
Acima de 180 depois das refeições. Costuma apontar para o carboidrato do prato. Oriento alimentação low carb, com menos de 130 g de carboidrato por dia (26% a 45% das calorias, referência da SBD): metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade; veja low carb no diabetes.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico antes de reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo; no tipo 1, veja diabetes tipo 1 no adulto.
Variação alta. CV acima de 36% pede rever horários, carboidrato, álcool, exercício e doses.
Sensor em quem não tem diabetes
Num estudo americano de 2019 com 153 pessoas saudáveis de 7 a 80 anos, a glicose média do sensor foi de 98 a 104 mg/dL, conforme a idade, e ficou 96% do tempo entre 70 e 140 mg/dL, com cerca de 30 minutos por dia acima de 140 e 15 minutos abaixo de 70.
Passar de 140 depois de uma refeição grande, ou cair abaixo de 70 de madrugada, acontece em gente saudável. O sensor não diagnostica diabetes: valem glicose de jejum, glicada e curva glicêmica; veja picos de glicose pós-refeição.
Quando o sensor engana
O sensor mede a glicose no líquido entre as células e fica alguns minutos atrás do sangue quando ela muda rápido. Outras armadilhas:
- Compressão. Dormir sobre o sensor gera uma queda brusca e falsa, com a glicose antes estável, sem insulina rápida nem exercício.
- Remédios e suplementos. Em alguns modelos (FreeStyle Libre 2 e 3), vitamina C em dose alta pode elevar falsamente a leitura; em outros (Dexcom G6 e G7), paracetamol em dose alta e hidroxiureia.
- Sintoma que não combina. Confirme no glicosímetro; veja monitoramento da glicemia.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- O que é tempo no alvo no diabetes?
É a porcentagem do dia em que a glicose do sensor contínuo fica entre 70 e 180 mg/dL, calculada em pelo menos 14 dias. Mostra o que a hemoglobina glicada esconde: em que horários a glicose sobe ou cai e quanto tempo passa acima de 180 ou abaixo de 70 mg/dL.
- Qual é o tempo no alvo ideal?
Para a maioria dos adultos com diabetes, mais de 70% do dia entre 70 e 180 mg/dL, com menos de 4% abaixo de 70 e menos de 1% abaixo de 54, pelo Consenso Internacional de 2019 e pela ADA. Em idosos ou com alto risco de hipoglicemia, mais de 50%.
- O tempo no alvo no diabetes tipo 1 é diferente?
Fora da gestação, não: tipo 1 e tipo 2 têm as mesmas metas, com mais de 70% entre 70 e 180 mg/dL, menos de 4% abaixo de 70 e menos de 1% abaixo de 54. Na gestação com tipo 1, a faixa passa a 63 a 140 mg/dL, com mais de 70% dentro dela.
- Tempo no alvo de 70% equivale a qual glicada?
A cerca de 7%, e 50% a cerca de 8%, pelo Consenso Internacional de 2019. Cada 10% a mais de tempo no alvo corresponde a uma glicada de 0,5 a 0,8 ponto menor. A relação é aproximada: anemia, doença renal e a vida das hemácias mudam a glicada, mas não o sensor.
- Qual a diferença entre GMI e hemoglobina glicada?
A glicada é medida no sangue e reflete cerca de três meses. O GMI é calculado a partir da glicose média do sensor, em geral de 14 dias. Num estudo de 2018, os dois diferiram em meio ponto ou mais em 28% das pessoas. Diferença grande pede investigação antes de mudar remédio.
- Como ler o relatório AGP do sensor?
Comece pelos dias de uso e pelas leituras: 14 dias e pelo menos 70%. Depois, o tempo abaixo de 70 e de 54 mg/dL, o tempo no alvo, o tempo acima de 180 e de 250 e o coeficiente de variação, ideal até 36%. Na curva, veja a que horas a glicose sai da pista.
- Quem não tem diabetes pode usar as metas de tempo no alvo?
Não. Elas foram feitas para quem tem diabetes. Num estudo com 153 pessoas saudáveis, a glicose ficou 96% do tempo entre 70 e 140 mg/dL, com cerca de 30 minutos por dia acima de 140. Picos isolados depois de refeições grandes são esperados e não fazem, sozinhos, diagnóstico de diabetes.
- O sensor de glicose pode dar leitura errada?
Pode. Dormir sobre o sensor dá leituras falsamente baixas; em alguns modelos, vitamina C ou paracetamol em dose alta podem elevar a leitura; e o sensor fica alguns minutos atrás do sangue quando a glicose muda rápido. Se o número não combina com o que você sente, confirme no glicosímetro antes de agir.
Entenda o seu relatório com orientação individual
Se o seu tempo no alvo não está na meta, leve à consulta o relatório AGP e veja as perguntas para fazer ao endocrinologista.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.

Referências
- Battelino T, Danne T, Bergenstal RM, et al. Clinical Targets for Continuous Glucose Monitoring Data Interpretation: Recommendations From the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care. 2019;42(8):1593-1603. doi:10.2337/dci19-0028.
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S132-S149. doi:10.2337/dc26-S006.
- Bergenstal RM, Beck RW, Close KL, et al. Glucose Management Indicator (GMI): A New Term for Estimating A1C From Continuous Glucose Monitoring. Diabetes Care. 2018;41(11):2275-2280. doi:10.2337/dc18-1581.
- Beck RW, Bergenstal RM, Cheng P, et al. The Relationships Between Time in Range, Hyperglycemia Metrics, and HbA1c. J Diabetes Sci Technol. 2019;13(4):614-626.
- Vigersky RA, McMahon C. The Relationship of Hemoglobin A1C to Time-in-Range in Patients with Diabetes. Diabetes Technol Ther. 2019;21(2):81-85.
- Shah VN, DuBose SN, Li Z, et al. Continuous Glucose Monitoring Profiles in Healthy Nondiabetic Participants: A Multicenter Prospective Study. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4356-4364. PMID: 31127824.
- Association of Diabetes Care & Education Specialists (ADCES), danatech. CGM Interfering Substances & Procedures. Atualizado em 5 de maio de 2026.
