Obesidade:
Muito Além da Força de Vontade
Acreditar que emagrecer depende apenas de disciplina e determinação é um grande equívoco. Sem dúvida, ter força de vontade ajuda, mas a obesidade é uma condição muito mais complexa, influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais.
Muitas vezes, comportamentos como comer além do necessário ou sentir fome excessiva são sintomas da própria doença. A seguir, vamos entender melhor esses mecanismos e por que a obesidade exige uma abordagem ampla e individualizada.
O que é Obesidade?
Fatores que contribuem para o ganho de peso
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Alterações no centro da fome (hipotálamo)
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Busca por alimentos hipercalóricos (alta densidade energética)
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Desregulação hormonal
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Questões emocionais e comportamentais
O Papel da Genética
Predisposição genética
Set point do peso
Sistema de recompensa
Influência familiar
Interação gene-ambiente (epigenética)
Quanto Podemos Engordar sem Ficarmos Doentes?
Cada pessoa tem um limite genético diferente para armazenar gordura antes de apresentar alterações metabólicas, como resistência à insulina. Chamamos isso de limiar pessoal de gordura corporal.
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Capacidade de armazenamento “no lugar certo”: Alguns indivíduos conseguem acumular grandes quantidades de gordura subcutânea sem ter prejuízos metabólicos significativos.
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Baixo limiar de gordura corporal: Outros desenvolvem resistência à insulina com poucos quilos acima do peso.
Quem tem um limiar alto armazena mais gordura antes de sofrer alterações metabólicas; quem tem um limiar baixo pode ter complicações mesmo com menor ganho de peso.
Resistência à Insulina e Hiperinsulinemia
Ao ultrapassar o limiar pessoal de gordura, as células de gordura (adipócitos) ficam “saturadas”, dificultando o armazenamento de glicose e triglicerídeos. O corpo, então, produz mais insulina para compensar, levando à hiperinsulinemia.
Esse quadro é determinante para a Síndrome Metabólica e aumenta o risco de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e até mesmo alguns tipos de câncer.
O que é a Síndrome Metabólica?
- Obesidade abdominal (medida pela circunferência da cintura)
- Hipertensão arterial (pressão alta ou uso de remédios para controle)
- Altos níveis de triglicerídeos
- Baixos níveis de HDL (colesterol “bom”)
- Glicemia de jejum elevada (indicando resistência à insulina ou pré-diabetes)
Para o diagnóstico, basta que três ou mais desses fatores estejam presentes.
Impactos na Saúde
Diabetes Tipo 2
Doenças Cardiovasculares
Problemas Osteoarticulares
Outras Complicações
- Apneia do sono: Interrupções na respiração durante o sono.
- Esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado): Pode evoluir para cirrose.
- Câncer: O excesso de gordura está ligado ao aumento de risco para diversos tipos de câncer (mama, cólon, endométrio e rim).
Diagnóstico
Cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal)
- Sobrepeso: 25 – 29,9
- Obesidade grau I: 30 – 34,9
- Obesidade grau II: 35 – 39,9
- Obesidade grau III (mórbida): ≥ 40
Outros Parâmetros
- Circunferência abdominal: Importante para estimar o risco cardiovascular.
- Composição corporal: Métodos como bioimpedância e DEXA avaliam massa magra e gorda.
- Exames de sangue: Investigam aspectos metabólicos, hormonais e nutricionais.
Fases do Tratamento
Fase de Emagrecimento
Envolve estratégia alimentar, prática de exercícios, medicamentos (quando indicados) e, em alguns casos, cirurgia bariátrica.
Mais que reduzir calorias: Priorizar proteínas, vitaminas e minerais para evitar perda de massa muscular e deficiências nutricionais. Comer menos em algumas situações passa a ser uma consequência natural.
Fase de Manutenção
Tão importante quanto emagrecer é manter o resultado.
- Após a perda de peso, o organismo ativa mecanismos para tentar voltar ao “peso máximo” já atingido.
- Se o plano alimentar e as medicações não forem ajustados, assim como as mudanças comportamentais concretizadas, as chances de recuperar o peso perdido aumentam.
Efeito Sanfona: por que o corpo “defende” o peso máximo?
- Aumento da fome: em torno de 100 calorias/dia para cada quilo perdido.
- Redução do metabolismo basal: cerca de 30 calorias/dia a menos por quilo perdido.
Intervenções nutricionais, medicamentosas e/ou hormonais ajudam a amenizar essa resposta adaptativa e a manter o peso alcançado.
Identificando Transtornos Alimentares
- Transtorno de Compulsão Alimentar: Episódios recorrentes de comer grandes quantidades de alimento, com sensação de perda de controle.
- Síndrome do Comedor Noturno: Ingestão excessiva de calorias à noite, prejudicando o sono e o apetite matinal.
- Comer Transtornado: Padrão alimentar desordenado que não preenche todos os critérios de um transtorno específico, mas ainda traz riscos.
Entendendo os 3 Tipos de Fome
Fome de Nutrientes
- Sinaliza carência de vitaminas, minerais e proteínas.
- Em ambientes repletos de ultraprocessados, podemos comer em excesso e ainda não suprir essas deficiências.
Fome de Energia
- Busca por carboidratos e gorduras para garantir sobrevivência.
- O sedentarismo e a abundância de alimentos calóricos agravam o acúmulo de gordura.
Fome Hedônica
- Comer pelo prazer que alimentos hiperpalatáveis fornecem (ex.: pizza, sorvete).
- Esses alimentos ativam fortemente o sistema de recompensa, dificultando o controle voluntário.
Estratégias Alimentares: a Importância da Proteína
Ecologia Nutricional
O conceito de ecologia nutricional analisa como cada alimento interage com nosso organismo, afetando o metabolismo, a fome e a saciedade. Não se trata apenas de contar calorias, mas de considerar a qualidade do que se come. Em um ambiente cheio de produtos ultraprocessados (ricos em calorias, pobres em nutrientes), fica mais difícil emagrecer apenas “comendo menos”.
A Proteína como Aliada
Estratégia Proteína | Energia
A Importância de Preservar Massa Muscular
- Aumentar a proporção de proteínas na alimentação.
- Priorizar treinamento de força (musculação, exercícios com peso corporal).
- Alinhar possíveis deficiências nutricionais (vitaminas e minerais).
- Considerar suporte medicamentoso de forma contínua ou intermitente, conforme orientação médica.
Emagrecer com Ansiedade e Depressão: é Possível?
- Apoio psicológico: Tratar sintomas e questões comportamentais é fundamental para o sucesso do emagrecimento.
- Ajuste medicamentoso: Preferir fármacos que não estimulem o ganho de peso e, se possível, ajudem no processo de emagrecimento.
Vale lembrar também que resistência à insulina, inflamação crônica e questões estéticas (afetandoautoestima) podem piorar determinados transtornos psiquiátricos. Nesse sentido, tratar a obesidade melhora não apenas a saúde física, mas também a emocional e mental.
O Papel dos Medicamentos no Tratamento da Obesidade
Análogos do GLP-1
Fármacos como Victoza, Saxenda, Ozempic / Wegovy (semaglutida) e Mounjaro imitam hormônios intestinais que controlam a saciedade. Eles ajudam a reduzir a fome e a melhorar o metabolismo, com efeitos positivos na prevenção de doenças cardiovasculares.
- O uso pode ser temporário ou contínuo, a depender do caso.
- Interromper o tratamento sem plano de manutenção aumenta a probabilidade de reganho de peso.
- Focar apenas em “redução calórica” sem priorizar proteínas e micronutrientes pode causar perda de massa muscular, diminuir o metabolismo e favorecer o retorno do peso.
Contrave
Combina naltrexona e bupropiona, agindo no sistema de recompensa para diminuir o prazer ao comer e reduzir a impulsividade alimentar. Pode ser uma opção muito interessante para quem tem um padrão alimentar muito ligado a gatilhos emocionais.
Cirugia Bariátrica
A cirurgia bariátrica é um dos tratamentos mais eficazes para a obesidade grave e suas comorbidades, promovendo perda de peso significativa e melhora de condições associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono.
Ela é indicada para pacientes com IMC acima de 40 kg/m² ou IMC acima de 35 kg/m² com doenças associadas, especialmente quando outras abordagens, como mudanças no estilo de vida e uso de medicamentos, não foram suficientes.
Entre os principais tipos, destacam-se o Bypass Gástrico e a Gastrectomia Vertical (Sleeve). O Bypass Gástrico reduz o tamanho do estômago e desvia parte do intestino delgado, diminuindo a absorção de calorias e promovendo uma maior alteração hormonal, o que auxilia no controle da fome e melhora o metabolismo da glicose.
Já a Gastrectomia Vertical (Sleeve) remove cerca de 80% do estômago, reduzindo sua capacidade e diminuindo a produção de grelina, o hormônio da fome, o que leva à saciedade precoce. Ambas as técnicas exigem acompanhamento médico, nutricional e psicológico para garantir a adaptação do paciente e a manutenção dos resultados a longo prazo.
Terapia de Reposição Hormonal
Perimenopausa e Estrogênio
Hipotireoidismo
Hipogonadismo em Homens
O Consultório Não É um Tribunal
A obesidade não é sinônimo de falta de força de vontade. Não se resume a “comer menos e se exercitar mais”. É uma doença complexa e multifatorial, que envolve genética, hormônios, metabolismo, ambiente e aspectos emocionais.
Mas há caminhos.
Com acompanhamento adequado, um plano de tratamento individualizado e suporte multiprofissional, é possível emagrecer de forma menos sofrida e mais eficiente. Medicamentos, ajustes hormonais e estratégias comportamentais podem ajudar a superar barreiras biológicas e psicológicas que dificultam a perda de peso.
Ninguém deve sentir vergonha de buscar ajuda. No consultório, não há espaço para julgamentos. O papel do profissional de saúde é oferecer suporte, ciência e estratégias que realmente funcionem.
Se você já tentou emagrecer sozinho e não conseguiu, não significa que você falhou — mas sim que o tratamento adotado não era o ideal para o seu caso. É possível encontrar uma abordagem que se ajuste às suas necessidades. A mudança pode ser difícil, mas não precisa ser solitária. Você não está sozinho.
