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Obesidade:

Muito Além da Força de Vontade


Acreditar que emagrecer depende apenas de disciplina e determinação é um grande equívoco. Sem dúvida, ter força de vontade ajuda, mas a obesidade é uma condição muito mais complexa, influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais.

Muitas vezes, comportamentos como comer além do necessário ou sentir fome excessiva são sintomas da própria doença. A seguir, vamos entender melhor esses mecanismos e por que a obesidade exige uma abordagem ampla e individualizada.

O que é Obesidade?

A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, a ponto de prejudicar a saúde. Não se trata apenas de uma questão estética, mas de um problema de saúde pública que aumenta o risco de diversas doenças — de cardiovasculares a metabólicas.

Fatores que contribuem para o ganho de peso

  • Alterações no centro da fome (hipotálamo)
  • Busca por alimentos hipercalóricos (alta densidade energética)
  • Desregulação hormonal
  • Questões emocionais e comportamentais

O Papel da Genética

A genética influencia como o corpo armazena gordura e como o cérebro, em especial o hipotálamo, controla o equilíbrio entre a ingestão e o gasto de energia (semelhante à forma como o corpo regula a temperatura). Alguns pontos importantes:

Predisposição genética

Estudos indicam que até 70% do peso corporal pode estar ligado a fatores genéticos.

Set point do peso

Quando há desregulação nesse “ponto de ajuste”, ocorre desequilíbrio entre ingestão e gasto energético, favorecendo o ganho de peso.

Sistema de recompensa

A genética também pode afetar o prazer ao comer certos alimentos, influenciando a quantidade que ingerimos.

Influência familiar

É comum a obesidade aparecer em várias gerações da mesma família, mas isso não significa um destino inevitável.

Interação gene-ambiente (epigenética)

Mesmo com predisposição genética, fatores ambientais e estilo de vida são fundamentais para a manifestação ou não dessas características.

Quanto Podemos Engordar sem Ficarmos Doentes?

Cada pessoa tem um limite genético diferente para armazenar gordura antes de apresentar alterações metabólicas, como resistência à insulina. Chamamos isso de limiar pessoal de gordura corporal.

  • Capacidade de armazenamento “no lugar certo”: Alguns indivíduos conseguem acumular grandes quantidades de gordura subcutânea sem ter prejuízos metabólicos significativos.
  • Baixo limiar de gordura corporal: Outros desenvolvem resistência à insulina com poucos quilos acima do peso.

Quem tem um limiar alto armazena mais gordura antes de sofrer alterações metabólicas; quem tem um limiar baixo pode ter complicações mesmo com menor ganho de peso.

Resistência à Insulina e Hiperinsulinemia

Ao ultrapassar o limiar pessoal de gordura, as células de gordura (adipócitos) ficam “saturadas”, dificultando o armazenamento de glicose e triglicerídeos. O corpo, então, produz mais insulina para compensar, levando à hiperinsulinemia.

Esse quadro é determinante para a Síndrome Metabólica e aumenta o risco de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e até mesmo alguns tipos de câncer.

O que é a Síndrome Metabólica?

É um conjunto de condições que, juntas, elevam significativamente o risco de doenças cardiovasculares (infarto, derrame) e diabetes tipo 2. São avaliados cinco fatores principais:
  • Obesidade abdominal (medida pela circunferência da cintura)
  • Hipertensão arterial (pressão alta ou uso de remédios para controle)
  • Altos níveis de triglicerídeos
  • Baixos níveis de HDL (colesterol “bom”)
  • Glicemia de jejum elevada (indicando resistência à insulina ou pré-diabetes)

Para o diagnóstico, basta que três ou mais desses fatores estejam presentes.

Impactos na Saúde

Diabetes Tipo 2

A obesidade, especialmente a localizada na região abdominal, é um dos principais fatores de risco para diabetes tipo 2, pois promove resistência à insulina.

Doenças Cardiovasculares

O excesso de peso aumenta a pressão arterial, eleva o LDL (colesterol “ruim”) e os triglicerídeos, favorecendo infartos e AVC.

Problemas Osteoarticulares

O peso extra sobrecarrega articulações (joelhos, quadris e coluna), levando a dores e inflamações, que podem evoluir para osteoartrite.

Outras Complicações

  • Apneia do sono: Interrupções na respiração durante o sono.
  • Esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado): Pode evoluir para cirrose.
  • Câncer: O excesso de gordura está ligado ao aumento de risco para diversos tipos de câncer (mama, cólon, endométrio e rim).

Diagnóstico

Cálculo do IMC (Índice de Massa Corporal)

O IMC relaciona peso e altura e, apesar de ser muito usado, nem sempre reflete a composição corporal. Ele é calculado dividindo o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros).
  • Sobrepeso: 25 – 29,9
  • Obesidade grau I: 30 – 34,9
  • Obesidade grau II: 35 – 39,9
  • Obesidade grau III (mórbida): ≥ 40

Outros Parâmetros

  • Circunferência abdominal: Importante para estimar o risco cardiovascular.
  • Composição corporal: Métodos como bioimpedância e DEXA avaliam massa magra e gorda.
  • Exames de sangue: Investigam aspectos metabólicos, hormonais e nutricionais.

Fases do Tratamento

Fase de Emagrecimento

Envolve estratégia alimentar, prática de exercícios, medicamentos (quando indicados) e, em alguns casos, cirurgia bariátrica.

Mais que reduzir calorias: Priorizar proteínas, vitaminas e minerais para evitar perda de massa muscular e deficiências nutricionais. Comer menos em algumas situações passa a ser uma consequência natural.

Fase de Manutenção

Tão importante quanto emagrecer é manter o resultado.

  • Após a perda de peso, o organismo ativa mecanismos para tentar voltar ao “peso máximo” já atingido.
  • Se o plano alimentar e as medicações não forem ajustados, assim como as mudanças comportamentais concretizadas, as chances de recuperar o peso perdido aumentam.

Efeito Sanfona: por que o corpo “defende” o peso máximo?

O hipotálamo tende a manter o maior peso que o corpo já teve. Quando emagrecemos, o organismo interpreta isso como “ameaça” às reservas de energia, aumentando a fome e reduzindo o gasto energético. Não é falta de disciplina, mas um mecanismo biológico de proteção.
  • Aumento da fome: em torno de 100 calorias/dia para cada quilo perdido.
  • Redução do metabolismo basal: cerca de 30 calorias/dia a menos por quilo perdido.

Intervenções nutricionais, medicamentosas e/ou hormonais ajudam a amenizar essa resposta adaptativa e a manter o peso alcançado.

Identificando Transtornos Alimentares

Reconhecer transtornos alimentares precocemente permite um tratamento multidisciplinar que melhora a qualidade de vida. Alguns exemplos:
  • Transtorno de Compulsão Alimentar: Episódios recorrentes de comer grandes quantidades de alimento, com sensação de perda de controle.
  • Síndrome do Comedor Noturno: Ingestão excessiva de calorias à noite, prejudicando o sono e o apetite matinal.
  • Comer Transtornado: Padrão alimentar desordenado que não preenche todos os critérios de um transtorno específico, mas ainda traz riscos.

Entendendo os 3 Tipos de Fome

A regulação de fome e saciedade é complexa e envolve hormônios como grelina, leptina e insulina. Para simplificar, podemos pensar em três tipos de fome:

Fome de Nutrientes

  • Sinaliza carência de vitaminas, minerais e proteínas.
  • Em ambientes repletos de ultraprocessados, podemos comer em excesso e ainda não suprir essas deficiências.

Fome de Energia

  • Busca por carboidratos e gorduras para garantir sobrevivência.
  • O sedentarismo e a abundância de alimentos calóricos agravam o acúmulo de gordura.

Fome Hedônica

  • Comer pelo prazer que alimentos hiperpalatáveis fornecem (ex.: pizza, sorvete).
  • Esses alimentos ativam fortemente o sistema de recompensa, dificultando o controle voluntário.

Estratégias Alimentares: a Importância da Proteína

Ecologia Nutricional

O conceito de ecologia nutricional analisa como cada alimento interage com nosso organismo, afetando o metabolismo, a fome e a saciedade. Não se trata apenas de contar calorias, mas de considerar a qualidade do que se come. Em um ambiente cheio de produtos ultraprocessados (ricos em calorias, pobres em nutrientes), fica mais difícil emagrecer apenas “comendo menos”.

A Proteína como Aliada

A proteína aumenta a saciedade, preserva a massa muscular e tem alto efeito térmico (o corpo gasta mais energia para digeri-la). Dietas ricas em proteína ajudam a manter o metabolismo em bom ritmo e evitam a fome excessiva que leva ao comer exagerado.

Estratégia Proteína | Energia

Focar em aumentar a proporção de proteínas, reduzindo calorias vazias de carboidratos refinados e gorduras ultraprocessadas. Essa abordagem minimiza a sensação de fome e aumenta a saciedade e capacidade de controle, resultando em uma perda de peso mais sustentável.

A Importância de Preservar Massa Muscular

Quando o foco é apenas reduzir calorias, sem atenção à ingestão adequada de proteínas e à prática de exercícios de força, há perda de massa muscular. Isso diminui o metabolismo basal, prejudicando a capacidade de manter o peso no longo prazo. O ideal é:
  • Aumentar a proporção de proteínas na alimentação.
  • Priorizar treinamento de força (musculação, exercícios com peso corporal).
  • Alinhar possíveis deficiências nutricionais (vitaminas e minerais).
  • Considerar suporte medicamentoso de forma contínua ou intermitente, conforme orientação médica.

Emagrecer com Ansiedade e Depressão: é Possível?

A obesidade frequentemente se associa a transtornos como ansiedade e depressão. Esses quadros podem intensificar a ingestão alimentar por compulsão ou comer emocional.
  • Apoio psicológico: Tratar sintomas e questões comportamentais é fundamental para o sucesso do emagrecimento.
  • Ajuste medicamentoso: Preferir fármacos que não estimulem o ganho de peso e, se possível, ajudem no processo de emagrecimento.

Vale lembrar também que resistência à insulina, inflamação crônica e questões estéticas (afetandoautoestima) podem piorar determinados transtornos psiquiátricos. Nesse sentido, tratar a obesidade melhora não apenas a saúde física, mas também a emocional e mental.

O Papel dos Medicamentos no Tratamento da Obesidade

O uso de medicamentos pode ser fundamental para algumas pessoas, pois ajuda a reduzir a fome exagerada, a falta de saciedade e o prazer excessivo de comer. Contudo, eles não substituem mudanças alimentares e de estilo de vida. Pelo contrário: ao amenizar sintomas, favorecem a adesão a hábitos mais saudáveis.

Análogos do GLP-1

Fármacos como Victoza, Saxenda, Ozempic / Wegovy (semaglutida) e Mounjaro imitam hormônios intestinais que controlam a saciedade. Eles ajudam a reduzir a fome e a melhorar o metabolismo, com efeitos positivos na prevenção de doenças cardiovasculares.

  • O uso pode ser temporário ou contínuo, a depender do caso.
  • Interromper o tratamento sem plano de manutenção aumenta a probabilidade de reganho de peso.
  • Focar apenas em “redução calórica” sem priorizar proteínas e micronutrientes pode causar perda de massa muscular, diminuir o metabolismo e favorecer o retorno do peso.

Contrave

Combina naltrexona e bupropiona, agindo no sistema de recompensa para diminuir o prazer ao comer e reduzir a impulsividade alimentar. Pode ser uma opção muito interessante para quem tem um padrão alimentar muito ligado a gatilhos emocionais.

Cirugia Bariátrica

A cirurgia bariátrica é um dos tratamentos mais eficazes para a obesidade grave e suas comorbidades, promovendo perda de peso significativa e melhora de condições associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono. 

Ela é indicada para pacientes com IMC acima de 40 kg/m² ou IMC acima de 35 kg/m² com doenças associadas, especialmente quando outras abordagens, como mudanças no estilo de vida e uso de medicamentos, não foram suficientes. 

Entre os principais tipos, destacam-se o Bypass Gástrico e a Gastrectomia Vertical (Sleeve). O Bypass Gástrico reduz o tamanho do estômago e desvia parte do intestino delgado, diminuindo a absorção de calorias e promovendo uma maior alteração hormonal, o que auxilia no controle da fome e melhora o metabolismo da glicose. 

Já a Gastrectomia Vertical (Sleeve) remove cerca de 80% do estômago, reduzindo sua capacidade e diminuindo a produção de grelina, o hormônio da fome, o que leva à saciedade precoce. Ambas as técnicas exigem acompanhamento médico, nutricional e psicológico para garantir a adaptação do paciente e a manutenção dos resultados a longo prazo.

Terapia de Reposição Hormonal

Perimenopausa e Estrogênio

Na perimenopausa, a queda de estrogênio pode favorecer o acúmulo de gordura abdominal. Ajustar a reposição hormonal ajuda não só com sintomas típicos (ondas de calor, alterações de humor), mas também a manter um metabolismo mais equilibrado.

Hipotireoidismo

Baixos níveis de hormônios tireoidianos reduzem a taxa metabólica basal, facilitando o ganho de peso. A reposição adequada, aliada a uma alimentação adequada e exercícios, normaliza o metabolismo e melhora os resultados no tratamento da obesidade.

Hipogonadismo em Homens

Níveis insuficientes de testosterona prejudicam a manutenção de massa muscular e a queima de calorias. A correção desse desequilíbrio é essencial para melhorar a composição corporal e otimizar o tratamento da obesidade.

O Consultório Não É um Tribunal

A obesidade não é sinônimo de falta de força de vontade. Não se resume a “comer menos e se exercitar mais”. É uma doença complexa e multifatorial, que envolve genética, hormônios, metabolismo, ambiente e aspectos emocionais.

Mas há caminhos.

Com acompanhamento adequado, um plano de tratamento individualizado e suporte multiprofissional, é possível emagrecer de forma menos sofrida e mais eficiente. Medicamentos, ajustes hormonais e estratégias comportamentais podem ajudar a superar barreiras biológicas e psicológicas que dificultam a perda de peso.

Ninguém deve sentir vergonha de buscar ajuda. No consultório, não há espaço para julgamentos. O papel do profissional de saúde é oferecer suporte, ciência e estratégias que realmente funcionem.

Se você já tentou emagrecer sozinho e não conseguiu, não significa que você falhou — mas sim que o tratamento adotado não era o ideal para o seu caso. É possível encontrar uma abordagem que se ajuste às suas necessidades. A mudança pode ser difícil, mas não precisa ser solitária. Você não está sozinho.

Agende sua consulta com endocrinologista especialista em diabete e obesidade e recupere sua saúde hormonal.