Ondas de calor na menopausa (fogachos): por que acontecem, quanto duram e o que realmente funciona
Fogachos da menopausa: entenda o calorão e conheça os tratamentos com evidência
Resumo rápido
- As ondas de calor da menopausa, os fogachos, nascem no cérebro: sem estrogênio, o "termostato" do hipotálamo fica sensível demais e dispara o calor sem motivo.
- Elas duram anos. No estudo americano SWAN, os fogachos frequentes duraram, em mediana, cerca de 7 anos.
- A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz e é segura para a maioria das mulheres saudáveis abaixo dos 60 anos ou nos primeiros 10 anos de menopausa.
- Sem hormônio, há opções com evidência: fezolinetante (aprovado pela Anvisa em 2026), antidepressivos em dose baixa, gabapentina, oxibutinina, terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica.
- Chás, fitoterápicos e fórmulas "bioidênticas" manipuladas não têm evidência suficiente; as isoflavonas têm efeito pequeno.
Ela chega ao consultório com um leque na bolsa. "Doutor, começa no peito, sobe pelo pescoço, o rosto pega fogo, eu fico encharcada e, dois minutos depois, sinto frio." Acorda várias vezes por noite e, no dia seguinte, não consegue se concentrar.
As ondas de calor na menopausa são o sintoma mais comum dessa fase e um dos mais subestimados. Muitas mulheres ouviram que "é assim mesmo, passa" e aguentam por anos sem necessidade.
No consultório, vejo duas situações que se repetem: a mulher que sofre calada por medo de hormônio e a que já gastou com chás e implantes sem melhora. Nas duas, começo explicando de onde vem o calor e o que realmente funciona.
O que Você Precisa Saber
O fogacho não é "coisa da cabeça", mas começa no cérebro. A queda do estrogênio altera um grupo de neurônios no hipotálamo, a região que controla a temperatura do corpo, e o alarme de calor passa a disparar com variações mínimas.
Dura anos, e não meses. No estudo SWAN, a mediana de duração dos fogachos frequentes foi de cerca de 7,4 anos, com persistência de aproximadamente 4,5 anos após a última menstruação.
Existe tratamento eficaz, e ele não precisa ser hormonal. A terapia hormonal é a mais potente, mas há boas opções sem hormônio.
Nem todo calorão é menopausa. Tireoide hiperativa, alguns medicamentos, infecções e, raramente, tumores produtores de hormônios podem causar calor e suor. Quando o quadro foge do padrão, vale investigar antes de tratar.
Por que as ondas de calor acontecem: o termostato desregulado
Costumo explicar assim: o corpo tem um termostato que mantém a temperatura dentro de uma faixa de conforto. Antes da menopausa, essa faixa é larga, e pequenas oscilações passam despercebidas. Com a queda do estrogênio, ela se estreita. Um aumento mínimo da temperatura interna passa a ser lido como superaquecimento, e o cérebro aciona de uma vez todos os mecanismos de resfriamento: dilata os vasos da pele (o rubor), libera suor e acelera o coração. Quando o corpo perde calor demais, vem o calafrio.
episódio súbito de calor intenso no peito, pescoço e rosto, que dura de um a cinco minutos, com vermelhidão, suor e, às vezes, palpitação e calafrio no final. Também chamado de onda de calor, calorão ou sintoma vasomotor.
O mecanismo foi esclarecido nos últimos anos. No hipotálamo existe um grupo de neurônios chamados KNDy, sigla das substâncias que produzem: kisspeptina, neurocinina B e dinorfina. O estrogênio funciona como um freio sobre eles. Quando ele cai, o freio afrouxa, e esses neurônios passam a enviar sinais excessivos, via neurocinina B, ao centro que regula a temperatura.
substância do hipotálamo que, na menopausa, fica em excesso e "liga" o centro da temperatura de forma inadequada. Os remédios não hormonais mais novos bloqueiam o receptor dela, como uma chave que impede a fechadura de girar.
Perceba que o fogacho não é fraqueza nem exagero. É um circuito cerebral que pode ser acalmado de duas formas: devolvendo o estrogênio que servia de freio, ou bloqueando o sinal da neurocinina B.
Sintomas associados, gatilhos e quando o calor não é da menopausa
Os fogachos raramente vêm sozinhos. Costumam acompanhar:
- suor noturno, que é o fogacho durante o sono;
- palpitação durante o episódio;
- ansiedade ou mal-estar logo antes do calor;
- insônia, cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração, muitas vezes consequência das noites interrompidas.
Muitas pacientes com "insônia da menopausa" são, na verdade, acordadas pelo suor noturno. Escrevi mais sobre isso em insônia na menopausa.
Calor, álcool, café, comida apimentada e estresse disparam episódios. Tabagismo e excesso de peso se associam a mais fogachos. Um diário de duas semanas ajuda a identificar os seus gatilhos.
Agora, quando desconfiar de outra causa:
Hipertireoidismo. Causa calor, suor, palpitação, tremor e perda de peso, e aparece na mesma faixa de idade. Um TSH resolve a dúvida. Detalhei o quadro em hipertireoidismo: sintomas, causas e tratamento.
Medicamentos. Tamoxifeno, inibidores de aromatase, análogos de GnRH, alguns antidepressivos e niacina provocam calorões.
Hipoglicemia. Em quem usa insulina ou sulfonilureia, suor frio com tremor pode ser glicose baixa.
Infecções e doenças sistêmicas. Suor noturno com febre, perda de peso ou gânglios aumentados precisa de investigação, pois pode indicar infecção, como tuberculose, ou linfoma.
Causas raras. O feocromocitoma, tumor da adrenal que produz adrenalina, causa crises de suor, palpitação, dor de cabeça e pressão muito alta.
Fogachos típicos da menopausa surgem na transição menopausal ou após a última menstruação, duram poucos minutos, começam no tronco e no rosto e não vêm acompanhados de febre, perda de peso ou pressão muito alta. Quando esses sinais estão presentes, ou quando o calor aparece fora dessa fase da vida, a investigação de outras causas, como hipertireoidismo, medicamentos e infecções, deve vir antes do tratamento.
O tratamento mais eficaz: terapia hormonal
Nenhum outro tratamento reduz tanto os fogachos quanto o estrogênio: em média, cerca de 75% de redução na frequência, e muitas mulheres deixam de tê-los. Também melhora o sono e protege o osso.
O receio vem da forma como o estudo WHI foi divulgado nos anos 2000. A The Menopause Society e a Associação Brasileira de Climatério concordam: para mulheres saudáveis com menos de 60 anos ou menos de 10 anos de menopausa, os benefícios para os sintomas superam os riscos. Alguns detalhes fazem diferença:
- quem tem útero precisa associar progestagênio, para proteger o endométrio;
- o estrogênio pela pele (gel ou adesivo) tem menor risco de trombose do que o comprimido;
- a dose e a duração são individualizadas e revistas ao longo do tempo.
A terapia hormonal não é indicada para quem teve câncer de mama, trombose, infarto ou AVC, doença grave do fígado ou sangramento vaginal sem diagnóstico. Explico os critérios em reposição hormonal na menopausa: quando indicar.
Tratamentos não hormonais que funcionam
Para quem tem contraindicação, já teve câncer de mama ou prefere não usar hormônio, a referência é a posição de 2023 da The Menopause Society sobre terapias não hormonais. Estas são as opções que uso:
Fezolinetante (Veoza). Primeiro remédio desenvolvido especificamente para os fogachos. Bloqueia o receptor da neurocinina B e age na origem do calor. Nos estudos, reduziu frequência e intensidade dos episódios já nas primeiras semanas. A Anvisa o aprovou em junho de 2026, e a previsão divulgada é de chegada às farmácias brasileiras em 2027. Exige exames do fígado antes de começar e nos primeiros meses, porque há relatos raros de lesão hepática.
Elinzanetante. Age de forma parecida, bloqueando os receptores de neurocinina 1 e 3, e nos estudos também melhorou o sono. Foi aprovado nos Estados Unidos no fim de 2025, mas ainda não está disponível no Brasil.
Antidepressivos em dose baixa. Paroxetina, escitalopram, venlafaxina e desvenlafaxina reduzem os fogachos em doses menores que as usadas para depressão; nos Estados Unidos, há uma paroxetina de 7,5 mg aprovada especificamente para isso. A paroxetina deve ser evitada por quem usa tamoxifeno, porque reduz o efeito do remédio; nesse caso, prefiro a venlafaxina.
Gabapentina. Muito útil quando o problema principal é o suor noturno, porque é tomada à noite e ajuda no sono.
Oxibutinina. Remédio para bexiga hiperativa que também reduz fogachos. Evito em mulheres mais velhas, pelo possível impacto na memória.
Terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica. Técnicas estruturadas, com estudos controlados, que reduzem o incômodo causado pelos fogachos e, no caso da hipnose, também a frequência deles.
tratamento dos sintomas da menopausa sem estrogênio ou progestagênio. Inclui remédios que agem no cérebro, como o fezolinetante e alguns antidepressivos, e técnicas comportamentais.
Veja que a escolha depende do perfil de cada mulher. Aprofundo essas alternativas em menopausa sem hormônios: como tratar os fogachos.
O que não tem evidência (e o que tem efeito pequeno)
Chás e fitoterápicos. Cimicifuga, trevo vermelho, óleo de prímula, amora e sálvia não mostraram benefício consistente em estudos bem feitos, e a cimicifuga tem relatos de lesão no fígado. A The Menopause Society não recomenda suplementos e fitoterápicos para fogachos.
Isoflavonas de soja. Alguns estudos mostram redução pequena, outros nenhuma. Quando há efeito, é bem menor que o das opções anteriores.
"Hormônios bioidênticos" manipulados e implantes. O estradiol e a progesterona micronizada que prescrevo são idênticos aos do corpo e são produtos registrados, com dose controlada. O problema está nas fórmulas manipuladas sem padronização e nos implantes de gestrinona ou de testosterona em dose alta. Eles não têm estudos de segurança, liberam doses imprevisíveis e são difíceis de retirar se algo der errado. O implante de estradiol é diferente: embora ainda seja contraindicado pelas diretrizes médicas, em casos específicos e selecionados pode ser uma via possível de reposição hormonal, com acompanhamento próximo.
As opções com melhor evidência para tratar os fogachos da menopausa são a terapia hormonal, que é a mais eficaz, e, entre as não hormonais, o fezolinetante, os antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e de serotonina-noradrenalina em dose baixa, a gabapentina, a oxibutinina, a terapia cognitivo-comportamental e a hipnose clínica. Suplementos, fitoterápicos e fórmulas hormonais manipuladas não têm evidência de eficácia e segurança.
Medidas práticas para o dia a dia
Não substituem o tratamento quando os fogachos são intensos, mas deixam o dia mais confortável: vista-se em camadas, mantenha o quarto fresco à noite, tenha água gelada por perto, reduza álcool e café no fim do dia e pare de fumar. Em quem tem excesso de peso, emagrecer pode reduzir os calorões; expliquei por que é mais difícil nessa fase em menopausa engorda?. Para a visão geral, veja o guia completo da menopausa.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Quanto tempo duram as ondas de calor da menopausa?
No estudo SWAN, que acompanhou milhares de mulheres, a mediana de duração dos fogachos frequentes foi de cerca de 7,4 anos, e eles persistiram por aproximadamente 4,5 anos após a última menstruação. Em algumas mulheres, passaram de 10 anos. Quem começa a ter calorões mais cedo, antes de a menstruação parar, tende a tê-los por mais tempo.
- O que fazer na hora da onda de calor?
No momento do episódio, tirar uma camada de roupa, procurar um ambiente fresco, usar ventilador e beber água gelada aliviam o episódio. Essas medidas aliviam o momento, mas não reduzem a frequência dos episódios: se os fogachos são frequentes ou atrapalham o sono e o trabalho, vale conversar com o médico sobre tratamento.
- Qual é o melhor remédio para os calores da menopausa?
O mais eficaz é a terapia hormonal com estrogênio, que reduz os fogachos em cerca de 75% em média. Para quem não pode ou não quer usar hormônio, há o fezolinetante, aprovado pela Anvisa em 2026, antidepressivos em dose baixa, como venlafaxina e escitalopram, a gabapentina e a oxibutinina. A escolha depende do seu histórico e dos remédios que você já usa.
- Chá ou tratamento natural resolve o fogacho?
Não há evidência consistente. Cimicifuga, trevo vermelho, óleo de prímula, amora e sálvia não mostraram benefício claro em estudos bem conduzidos, e a cimicifuga tem relatos de lesão no fígado. As isoflavonas de soja têm efeito pequeno e incerto. Terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica, por outro lado, são tratamentos sem remédio que funcionam.
- Fogacho noturno: o que fazer?
O suor noturno é o fogacho durante o sono. Quarto fresco, ventilador, roupa de cama leve e evitar álcool à noite ajudam. Se ele acorda você várias vezes, o tratamento costuma melhorar muito o sono: a terapia hormonal é a mais eficaz, e, entre as opções sem hormônio, a gabapentina tomada à noite é uma boa alternativa.
- As ondas de calor da menopausa podem ser perigosas?
O fogacho em si não é perigoso. Mas fogachos intensos atrapalham sono, humor e trabalho, e algumas pesquisas associam fogachos frequentes a marcadores de maior risco cardiovascular. Vale revisar pressão, colesterol e glicose nessa fase. Calor com dor no peito, falta de ar, pressão muito alta ou desmaio precisa de avaliação imediata.
- Fogacho pode ser outra coisa que não menopausa?
Pode. Hipertireoidismo, alguns medicamentos, como tamoxifeno e certos antidepressivos, hipoglicemia em quem trata diabetes, infecções e, raramente, tumores que produzem hormônios causam calor e suor. Quando o calorão vem com perda de peso, febre, tremor ou pressão muito alta, ou aparece fora da faixa de idade da menopausa, é preciso investigar.
- Homem pode ter fogacho?
Pode, embora seja menos comum. O caso mais frequente é o do homem em tratamento de câncer de próstata com bloqueio hormonal, que derruba a testosterona. Quedas importantes da testosterona por outras causas também podem provocar calorões. O mecanismo é parecido: a falta do hormônio desregula o centro de temperatura.
Cuide dos seus sintomas da menopausa com orientação individual
Referências
- The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2023;30(6):573-590. doi:10.1097/GME.0000000000002200.
- The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. doi:10.1097/GME.0000000000002028.
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- U.S. Food and Drug Administration. FDA adds warning about rare occurrence of serious liver injury with use of Veozah (fezolinetant) for hot flashes due to menopause. Drug Safety Communication. 2024.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Aprovação do fezolinetante (Veoza) para o tratamento dos sintomas vasomotores associados à menopausa. Junho de 2026.
- Pompei LM, Machado RB, Wender MCO, Fernandes CE. Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal da Menopausa. Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC). São Paulo: Leitura Médica; 2018.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Climatério: manual de orientação e posicionamentos sobre terapia hormonal. Edição atual.
