Como calcular o risco cardiovascular: escore PREVENT, categorias e o que muda no tratamento
Risco cardiovascular: como a diretriz brasileira de 2025 faz a conta e define a sua meta
Resumo rápido
- Risco cardiovascular é a chance estimada de infarto ou AVC em 10 anos. É ele, e não o colesterol isolado, que define o tratamento.
- De 30 a 79 anos, em quem nunca teve doença cardiovascular, a diretriz brasileira de 2025 usa o escore PREVENT, da American Heart Association.
- São cinco categorias, de baixo a extremo, com metas de LDL que vão de abaixo de 115 a abaixo de 40 mg/dL.
- História familiar precoce, lipoproteína(a) alta e outros agravantes podem subir a categoria; o escore de cálcio ajuda na dúvida.
- Calculadoras online ajudam, mas o resultado precisa de interpretação médica.
"Doutor, meu LDL é 150. Isso é alto?" A resposta honesta é: depende de quem pergunta. Antes, preciso calcular o risco cardiovascular daquela pessoa, ou seja, a chance de ela ter infarto ou AVC nos próximos anos.
No consultório, uma mulher de 38 anos sem fatores de risco e um homem de 58 com diabetes e pai que infartou cedo podem trazer o mesmo LDL. Ela talvez precise só de ajustes de hábito; ele, de remédio e meta bem mais baixa.
Neste artigo, explico como o risco é calculado, as cinco categorias da diretriz de 2025, o que reclassifica o resultado e o que muda no tratamento.
O que Você Precisa Saber
O risco é uma probabilidade, não uma sentença. Um risco de 10% em 10 anos significa que, de cada 100 pessoas com o mesmo perfil, cerca de 10 terão um evento. Não diz quem, nem quando.
A calculadora é só o primeiro passo. Depois dela, entram os agravantes e, na dúvida, exames como o escore de cálcio.
Quem já teve infarto ou AVC não usa calculadora. Essas pessoas, e quem tem placas importantes nas artérias, já estão no mínimo em risco muito alto.
A categoria define a meta. Quanto maior o risco, mais baixo o LDL precisa ficar. É ela que diz se o seu colesterol "está alto", e não a referência do laboratório.
Como calcular o risco cardiovascular: o escore PREVENT
Costumo explicar com a previsão do tempo: 30% de chance de chuva não garante nada sobre amanhã, mas diz que, em dias parecidos, chove em 3 de cada 10. O risco cardiovascular faz essa conta com as condições do seu corpo. E, como o colesterol alto não tem sintomas, não dá para esperar o corpo avisar.
probabilidade estimada de ter um evento causado pela aterosclerose, como infarto, AVC ou doença das artérias das pernas, em geral em 10 anos.
Até 2025, a diretriz brasileira usava o Escore de Risco Global, derivado do estudo de Framingham. A de 2025 adotou o PREVENT, da American Heart Association, criado em 2023 com dados de mais de 6 milhões de adultos.
equações que estimam o risco cardiovascular em 10 anos, dos 30 aos 79 anos, e em 30 anos, até os 59, em quem não tem doença cardiovascular. Separam o risco de infarto e AVC do de insuficiência cardíaca.
A calculadora pede idade, sexo, colesterol total, HDL, pressão sistólica, uso de remédio para pressão e de estatina, diabetes, tabagismo, IMC e taxa de filtração glomerular (TFG), que mede a função dos rins e costuma vir no laudo da creatinina. Glicada e albumina na urina são opcionais; o código postal só vale nos EUA. Veja que o LDL não entra na conta. Para as categorias brasileiras, vale o risco de doença aterosclerótica em 10 anos.
O escore PREVENT, adotado pela Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025, estima o risco de infarto e AVC em 10 anos em adultos de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular. Abaixo de 5%, o risco calculado é baixo; de 5% a menos de 20%, intermediário; a partir de 20%, alto.
Calculadoras online. A PREVENT é gratuita no site da American Heart Association, em inglês. Use o resultado para conversar com o médico, e não para decidir sozinho: a calculadora não conhece a sua família nem as suas artérias, e a diretriz americana de 2026 lê o mesmo número com outros cortes (lá, 10% já é risco alto). No Brasil, valem 5% e 20%.
As cinco categorias de risco da diretriz brasileira de 2025
Risco baixo: PREVENT abaixo de 5% em 10 anos, sem agravantes e sem diabetes.
Risco intermediário:
- PREVENT de 5% a menos de 20% sem agravantes, ou abaixo de 5% com agravante;
- diabetes em homens com menos de 50 anos ou mulheres com menos de 56, sem estratificadores;
- LDL de 160 a 189 mg/dL.
Risco alto:
- PREVENT de 20% ou mais, ou risco intermediário com agravante;
- aterosclerose subclínica;
- LDL a partir de 190 mg/dL, que pede investigação de hipercolesterolemia familiar;
- diabetes em homens a partir de 50 anos ou mulheres a partir de 56, ou com 1 a 2 estratificadores de alto risco, como diabetes há mais de 10 anos, hipertensão ou tabagismo;
- lipoproteína(a) acima de 180 mg/dL.
placa vista em exame de imagem em quem nunca teve sintomas, como placa na carótida menor que 50%, escore de cálcio acima de 100 (ou do percentil 75 para idade e sexo) ou placa na angiotomografia de coronárias.
Risco muito alto:
- obstrução de 50% ou mais em alguma artéria, ou evento prévio, como infarto, AVC isquêmico ou angioplastia;
- escore de cálcio acima de 300;
- diabetes com estratificadores de muito alto risco, como retinopatia moderada a grave, ou com 3 ou mais de alto risco.
Risco extremo: mais de um evento aterosclerótico maior, ou um evento somado a 2 ou mais condições de alto risco, como idade a partir de 65 anos, diabetes, hipertensão, doença renal ou tabagismo.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 classifica o risco cardiovascular em baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo, combinando o escore PREVENT, os agravantes, o diabetes, o LDL e a presença de aterosclerose. As metas de LDL são, respectivamente, abaixo de 115, 100, 70, 50 e 40 mg/dL.
Fatores agravantes: o que a calculadora não enxerga
condição que aumenta o risco cardiovascular sem entrar na conta do escore e que pode subir a pessoa de categoria.
Os principais são:
- história familiar precoce: pai, mãe ou irmão com infarto ou AVC antes dos 55 anos (homens) ou dos 65 (mulheres);
- doença renal crônica e transplante de órgão;
- lipoproteína(a) a partir de 50 mg/dL (125 nmol/L);
- PCR ultrassensível (PCR-us) a partir de 2 mg/L, medida fora de infecção;
- doenças inflamatórias crônicas (artrite reumatoide, psoríase, lúpus) e infecção pelo HIV;
- obesidade, cintura aumentada, síndrome metabólica e gordura no fígado;
- nas mulheres: pré-eclâmpsia, hipertensão ou diabetes na gestação, parto prematuro e menopausa antes dos 40 anos.
Entre 30 e 50 mg/dL, a Lp(a) é uma zona de atenção. Basta medir uma vez na vida, como explico em lipoproteína(a) alta.
Dois sinais não entram na fórmula, mas eu valorizo. Um é a relação cintura/altura: a cintura deve ser menor que metade da altura. No estudo brasileiro ELSA-Brasil, de 2025, ela foi, entre as medidas testadas, a única que previu de forma independente o surgimento de cálcio nas coronárias; veja obesidade abdominal. O outro é a síndrome metabólica, quase sempre fruto da resistência à insulina, que acelera a placa mesmo com LDL "normal".
Escore de cálcio: quando ajuda a reclassificar
tomografia rápida, sem contraste, que mede o cálcio nas artérias do coração. Quanto mais cálcio, mais placa.
Ajuda sobretudo depois dos 40 anos, no risco intermediário com LDL entre 70 e 159 mg/dL e estatina em dúvida, ou no risco baixo com história familiar precoce.
- Zero: sem outros fatores fortes, muitas vezes permite adiar a estatina, com reavaliação.
- Acima de zero: a placa já começou, e a balança pende para o tratamento.
- Acima de 100, ou do percentil 75 para idade e sexo: risco alto. Acima de 300: risco muito alto.
O zero não é salvo-conduto: não anula LDL a partir de 190, diabetes, tabagismo nem história familiar forte, e em jovens a placa pode não ter calcificado. Detalho em escore de cálcio zero e colesterol.
O que muda no tratamento conforme a categoria
As metas da diretriz brasileira de 2025, em mg/dL, que detalho no guia sobre colesterol alto:
| Categoria | LDL abaixo de | Não-HDL abaixo de | ApoB abaixo de |
|---|---|---|---|
| Baixo | 115 | 145 | 100 |
| Intermediário | 100 | 130 | 90 |
| Alto | 70 | 100 | 70 |
| Muito alto | 50 | 80 | 55 |
| Extremo | 40 | 70 | 45 |
Além do valor, há uma queda mínima do LDL inicial: 30% no risco baixo e intermediário; 50% nos demais.
Baixo. Estilo de vida; remédio é exceção, se o LDL fica longe da meta.
Intermediário. Estilo de vida e, com LDL acima da meta, em geral estatina moderada.
Alto, muito alto e extremo. Estatina de alta intensidade e, se o LDL de partida está longe da meta, ezetimiba desde o início; veja o guia sobre estatina. Se não basta, entram as injeções de PCSK9 e inclisirana.
Para quem tem diabetes, pré-diabetes ou resistência à insulina, oriento alimentação low carb: menos de 130 g de carboidrato por dia, com prioridade de proteína, vegetais não amiláceos e gorduras naturais, acompanhando o LDL, que sobe em algumas pessoas. Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico ao reduzir carboidratos, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica; diabetes tipo 1, gestação, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Como costumo dizer, não existe equilíbrio, existe prioridade: no risco alto, o hábito soma com o remédio, não o substitui. Quem conduz pode ser o endocrinologista, o cardiologista ou ambos; veja colesterol: endocrinologista ou cardiologista.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Como calcular meu risco cardiovascular?
Entre 30 e 79 anos, sem infarto ou AVC prévio, use a calculadora PREVENT, gratuita no site da American Heart Association. Ela pede idade, sexo, colesterol total, HDL, pressão sistólica, IMC, TFG, diabetes, tabagismo e uso de remédio para pressão ou estatina. O resultado é um ponto de partida: agravantes e exames podem mudar a categoria.
- O que é o escore PREVENT e como interpretar o resultado?
É a calculadora adotada pela diretriz brasileira de 2025. O número mostra a chance de infarto ou AVC em 10 anos. Abaixo de 5% é risco baixo; de 5% a menos de 20%, intermediário; a partir de 20%, alto. Agravantes, diabetes, valor do LDL e placas nas artérias podem subir a categoria.
- Qual a diferença entre o PREVENT e o escore de Framingham?
Framingham foi a base do Escore de Risco Global, usado no Brasil até 2025. O PREVENT usa dados mais amplos, inclui função renal e IMC, estima também o risco em 30 anos e não usa raça. Como as fórmulas diferem, os números não são comparáveis: um valor menor no PREVENT não significa que o risco caiu.
- O que significa risco cardiovascular intermediário?
Significa PREVENT entre 5% e menos de 20% em 10 anos sem agravantes, ou situações como LDL de 160 a 189 mg/dL e diabetes em homens com menos de 50 anos ou mulheres com menos de 56, sem estratificadores. A meta de LDL é abaixo de 100 mg/dL, e o escore de cálcio ajuda a decidir sobre estatina.
- O que significa alto risco cardiovascular?
É a categoria de quem tem PREVENT de 20% ou mais, risco intermediário com agravante, placa em exame de imagem, LDL a partir de 190 mg/dL ou diabetes em homens a partir de 50 anos e mulheres a partir de 56. A meta é LDL abaixo de 70 mg/dL, com queda de pelo menos 50%.
- Qual é a meta de LDL para cada risco cardiovascular?
Pela diretriz brasileira de 2025: abaixo de 115 mg/dL no risco baixo, 100 no intermediário, 70 no alto, 50 no muito alto e 40 no extremo. As metas de não-HDL ficam cerca de 30 mg/dL acima. Também conta a queda do LDL inicial: pelo menos 50% nos três riscos mais altos e 30% nos demais.
- Quais exames de sangue entram no cálculo do risco cardiovascular?
Na calculadora entram colesterol total, HDL e creatinina, usada para estimar a TFG; glicada e albumina na urina são opcionais. Para reclassificar, ajudam a lipoproteína(a), medida uma vez na vida, e a PCR ultrassensível. O LDL não entra na conta, mas é o principal alvo do tratamento, e a ApoB ajuda quando os triglicerídeos estão altos.
- PCR alta aumenta o risco cardiovascular?
A PCR ultrassensível a partir de 2 mg/L é fator agravante, porque indica inflamação de baixo grau, que acelera a aterosclerose. Mas ela sobe com gripe, infecções e machucados, então só vale um resultado medido com você bem, de preferência confirmado. Sozinha, não define tratamento, mas pode subir a categoria.
Entenda o seu risco com orientação individual
Se você quer saber a sua categoria e a sua meta de LDL, vale uma avaliação completa.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
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