Escore de cálcio zero: posso deixar de tratar o colesterol?
Resumo Rápido
- Escore de cálcio zero significa que não há cálcio detectável nas coronárias naquele exame.
- O resultado não exclui placas sem cálcio nem zera o risco cardiovascular futuro.
- Diabetes, LDL acima de 190 mg/dL e tabagismo podem manter a indicação de estatina.
- O "zero" tem prazo de validade: costuma valer de 3 a 7 anos, menos em quem tem diabetes.
- Não suspenda a estatina por conta própria ao receber um resultado zero.
O laudo chegou: escore de cálcio zero. Primeiro vem o alívio. Depois, a pergunta que escuto com frequência no consultório: se não tenho cálcio nas coronárias, posso parar — ou nem começar — o remédio do colesterol?
Em algumas situações, esse resultado realmente ajuda a adiar uma estatina. Em outras, não muda em nada uma indicação já bem estabelecida. Neste texto, explico o que o exame mede, o que ele não mede e como uso essa informação na prática.
O Que Você Precisa Saber
O escore de cálcio coronariano é um exame de tomografia, sem contraste e com dose baixa de radiação, que mede a quantidade de cálcio nas artérias do coração. O resultado é dado em unidades Agatston. Zero significa que nenhuma calcificação foi detectada naquele momento.
O cálcio é uma marca de placa de gordura mais antiga. Gosto de comparar o exame a uma fotografia aérea de um telhado: ela mostra as telhas que já endureceram e mudaram de cor, mas não mostra uma infiltração que começou há pouco tempo por baixo. Placas jovens, ainda sem cálcio, não aparecem no escore.
Por isso, o escore zero é um ótimo sinal em pessoas de risco intermediário, mas não é um certificado vitalício. Ele precisa ser lido junto com LDL, diabetes, tabagismo, pressão, histórico familiar e idade.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em 2025, passou a usar o escore PREVENT para estimar o risco cardiovascular e incorporou o escore de cálcio como modificador desse risco — sobretudo quando ele vem alto.
Escore de cálcio zero é a ausência de calcificação nas artérias coronárias detectável na tomografia. Indica menor risco de infarto em pessoas selecionadas, mas não exclui placas sem cálcio nem substitui a avaliação dos outros fatores de risco.
O que significam os outros resultados
O número do escore ajuda a reclassificar o risco. Em linhas gerais:
| Escore de cálcio (Agatston) | Interpretação habitual |
|---|---|
| 0 | Sem cálcio detectável; risco menor em quem não tem outros agravantes |
| 1 a 99 | Aterosclerose presente, em pequena quantidade |
| 100 a 299 | Aterosclerose subclínica relevante; costuma reforçar a indicação de estatina |
| 300 ou mais | Carga alta de placa; na diretriz brasileira de 2025, indica muito alto risco |
O laudo costuma trazer também o percentil, que compara seu resultado com o de pessoas da mesma idade e sexo. Pela diretriz brasileira, escore acima de 100 ou acima do percentil 75 já caracteriza aterosclerose subclínica. No diabetes, valores entre 10 e 300 entram como agravante de risco.
Quando o resultado zero pode mudar a conversa
Na minha prática, o escore de cálcio é mais útil quando existe dúvida real. Pense em alguém de 50 anos, sem diabetes, que não fuma, com LDL um pouco elevado e risco calculado intermediário. Nesse caso, um zero pode permitir adiar a estatina com segurança, mantendo as mudanças de estilo de vida e reavaliando com o tempo.
Antes de pedir o exame, faço uma pergunta simples ao paciente: o que faremos se der zero? E se vier alto? Se nenhuma das respostas muda a conduta, o exame provavelmente não vai ajudar.
O escore também não serve para acompanhar se a estatina está funcionando. Curiosamente, as estatinas estabilizam as placas e podem até aumentar um pouco o cálcio delas, sem que isso signifique piora. O seguimento do tratamento é feito com o LDL e outros marcadores.
Quando o zero não retira a indicação de tratar
Há situações em que o risco continua importante mesmo com o escore zerado:
- LDL a partir de 190 mg/dL: sugere hipercolesterolemia grave, muitas vezes familiar, com exposição ao colesterol desde a infância.
- Diabetes: o risco cardiovascular já é maior, e o zero dura menos tempo.
- Tabagismo atual: o cigarro favorece placas instáveis, que podem não ter cálcio.
- Histórico familiar forte de infarto ou AVC em idade jovem.
- Lipoproteína(a) elevada, um fator genético que aumenta o risco independentemente do LDL.
- Doença cardiovascular já estabelecida: quem já teve infarto ou AVC está em outra lógica de prevenção, e o escore não muda a indicação.
Outros exames ajudam a montar o quadro. O texto sobre ApoB alta com LDL normal mostra por que o número de partículas de gordura também importa.
Leve o escore de cálcio à consulta junto com seus exames de colesterol, histórico familiar e tratamentos atuais. Não suspenda a estatina por conta própria diante de um resultado zero. Pergunte se o exame realmente muda seu risco e quais fatores mantêm a indicação de prevenção no seu caso.
O que o estudo com LDL muito alto mostrou
Uma análise do estudo MESA, publicada em 2020, acompanhou 246 pessoas com LDL de pelo menos 190 mg/dL. Cerca de um terço tinha escore zero e apresentou menos eventos cardiovasculares do que quem tinha cálcio detectável.
O dado é interessante, mas o estudo foi observacional: ninguém foi sorteado para parar ou manter a estatina. Ele mostra diferenças de risco em um período, não que deixar o LDL muito alto sem tratamento seja seguro por toda a vida.
Na análise do estudo MESA publicada em 2020, 37% de 246 participantes com LDL de pelo menos 190 mg/dL tinham escore de cálcio zero. O estudo identificou menor risco nesse grupo, mas não testou a segurança de suspender medicamentos para o colesterol.
Quanto tempo vale um escore zero?
O zero tem "prazo de validade". Uma análise do MESA publicada em 2021 estimou que o período em que o escore costuma continuar zero — o chamado período de garantia — varia de 3 a 7 anos, conforme sexo, etnia e risco. Em quem tem diabetes, esse período é bem mais curto.
Por isso, quando decido adiar a estatina com base em um zero, combino com o paciente quando reavaliar. Não é um exame anual, mas também não é para nunca mais repetir.
Escore de cálcio não descarta emergência
Um laudo antigo com escore zero não deve ser usado para minimizar dor no peito, falta de ar súbita, desmaio ou sintomas neurológicos. Nessas situações, procure atendimento imediato — o SAMU atende pelo 192.
Também é importante diferenciar escore de cálcio de angiotomografia de coronárias. A angiotomografia usa contraste e mostra placas, inclusive as sem cálcio, e estreitamentos. São exames com objetivos diferentes.
Como usar a informação sem perder o foco
O escore é uma peça, não o quebra-cabeça inteiro. Pressão arterial, cigarro, alimentação, atividade física, peso e glicemia continuam sendo o centro da prevenção. Um resultado favorável é uma boa oportunidade para manter os hábitos protetores.
Se o colesterol caiu depois de começar o remédio, leia também por que normalizar o colesterol não significa poder parar a estatina. E vale investigar causas associadas, como hipotireoidismo, que pode alterar o colesterol, e a resistência à insulina e síndrome metabólica.
Quem tem diabetes merece um olhar específico; veja tratamento do diabetes. Se estiver em dúvida sobre qual especialista procurar, escrevi sobre colesterol: endocrinologista ou cardiologista. Para integrar laudos e histórico em um plano, você pode agendar uma consulta.
Principais Pontos
- Zero significa ausência de cálcio detectável naquele momento, não ausência de placa.
- O exame é mais útil quando há dúvida real sobre iniciar a estatina.
- Escore acima de 100, ou acima do percentil 75, indica aterosclerose subclínica.
- LDL a partir de 190 mg/dL, diabetes e tabagismo podem manter a indicação de tratar.
- O zero costuma valer de 3 a 7 anos, e menos no diabetes.
- O escore não serve para acompanhar a resposta à estatina.
- Escore de cálcio e angiotomografia são exames diferentes.
- Sintomas de emergência pedem atendimento, mesmo com exame anterior favorável.
Erros Comuns
Erro: interpretar zero como artérias "limpas" para sempre
O exame não vê placas sem cálcio e perde validade com o tempo. O zero indica menor risco hoje, não proteção vitalícia.
Erro: suspender a estatina sem rever o motivo da prescrição
Se a indicação foi LDL muito alto, diabetes ou doença cardiovascular, o escore zero não muda a necessidade de tratar. Discuta com o médico antes de qualquer mudança.
Erro: pedir o exame para todo mundo
Sem uma decisão a esclarecer, o escore só gera ansiedade e custo. Ele é mais útil em quem tem risco intermediário e dúvida sobre a estatina.
Erro: repetir o escore para ver se a estatina funcionou
A estatina pode até aumentar o cálcio das placas enquanto as estabiliza. O acompanhamento do tratamento é feito com LDL, ApoB e avaliação clínica.
Erro: usar o escore para descartar uma dor no peito atual
O escore não avalia estreitamentos nem placas sem cálcio. Dor no peito suspeita exige avaliação de urgência.
Perguntas Frequentes
Escore de cálcio zero significa que minhas artérias estão limpas?
Não é possível afirmar isso com esse exame. Ele detecta cálcio nas coronárias, mas não enxerga placas jovens sem calcificação. O resultado é favorável, mas precisa ser interpretado junto com idade, colesterol, diabetes, tabagismo e histórico familiar, sem ser tratado como garantia permanente.
Posso parar a estatina se meu escore deu zero?
Não por conta própria. A indicação pode continuar válida por LDL muito alto, diabetes, doença cardiovascular ou outros fatores. O zero ajuda mais quando havia dúvida antes do exame. Leve o laudo à consulta e revise o motivo original do tratamento antes de qualquer mudança.
De quanto em quanto tempo devo repetir o escore de cálcio?
Depende do seu risco. Estudos do MESA mostram que o zero costuma se manter por 3 a 7 anos, conforme sexo e perfil, e por menos tempo em quem tem diabetes. Não é um exame anual. O intervalo deve ser combinado com o médico, de acordo com a decisão que ele pode mudar.
O que significa escore de cálcio acima de 100?
Indica aterosclerose subclínica relevante. Pela diretriz brasileira de 2025, escore acima de 100 ou acima do percentil 75 para idade e sexo aumenta a categoria de risco, e acima de 300 caracteriza muito alto risco. Em geral, esses valores reforçam a indicação de estatina e de metas de LDL mais rigorosas.
Escore de cálcio e angiotomografia são a mesma coisa?
Não. O escore é uma tomografia sem contraste que mede apenas o cálcio. A angiotomografia usa contraste e mostra placas, inclusive sem cálcio, e estreitamentos das artérias. A escolha depende da pergunta clínica, dos sintomas e da avaliação médica.
LDL acima de 190 com escore zero pode ser ignorado?
Não. Esse nível de LDL exige avaliação de hipercolesterolemia grave e de causas familiares. O escore zero indica menos cálcio naquele momento, mas não apaga a exposição acumulada ao colesterol ao longo da vida. As diretrizes não o usam como liberação para abandonar a prevenção.
Quem tem diabetes pode usar o escore zero para evitar estatina?
Com muito cuidado. O diabetes já eleva o risco cardiovascular, e o período em que o escore permanece zero é mais curto nesse grupo. Idade, tempo de diabetes, rins e outros fatores pesam na decisão. Na maioria dos adultos com diabetes, a estatina continua indicada.
O escore de cálcio tem muita radiação?
Não. É uma tomografia sem contraste, com dose baixa de radiação. Mesmo assim, como qualquer exame com raio X, só deve ser feito quando o resultado puder mudar uma decisão. Repetições frequentes, sem objetivo claro, não são recomendadas.
Endocrinologista ou cardiologista deve interpretar o resultado?
Ambos podem. O endocrinologista avalia alterações do colesterol e causas metabólicas, como diabetes e tireoide; o cardiologista aprofunda a avaliação do coração, especialmente com sintomas ou doença estabelecida. O mais importante é integrar as informações. Dor no peito suspeita exige urgência.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Um exame só vale quando ajuda a tomar uma decisão melhor. Atendo no Instituto Aster, no Campo Belo, e no Hospital Israelita Albert Einstein, em Perdizes, em São Paulo.
Agende sua consulta presencial ou, se preferir, faça seu atendimento por telemedicina.
Este artigo foi escrito pelo Dr. Rodrigo Bomeny, endocrinologista e metabologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, com residência no Hospital das Clínicas da USP e aproximadamente 20 anos de experiência clínica em diabetes, obesidade e doenças metabólicas. CRM-SP 129869 | RQE 60562.
Última atualização: outubro de 2026. Conteúdo educativo; não substitui a avaliação individual.
Referências
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose — 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640.
- Writing Committee Members, Blumenthal RS, Morris PB, et al. 2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia. 2026.
- Sandesara PB, Mehta A, O'Neal WT, et al. Clinical significance of zero coronary artery calcium in individuals with LDL cholesterol ≥190 mg/dL: the Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis. 2020.
- Dzaye O, Dardari ZA, Cainzos-Achirica M, et al. Warranty Period of a Calcium Score of Zero: Comprehensive Analysis From MESA. JACC Cardiovasc Imaging. 2021.
- Soffer DE, Marston NA, Maki KC, et al. Role of apolipoprotein B in the clinical management of cardiovascular risk in adults: an Expert Clinical Consensus from the National Lipid Association. 2024.
- Sturm AC, Knowles JW, Gidding SS, et al. Clinical Genetic Testing for Familial Hypercholesterolemia: JACC Scientific Expert Panel. 2018.
