Câncer medular de tireoide: quando a família precisa investigar?
Câncer medular de tireoide hereditário: quando a família precisa investigar?
Resumo rápido
- O câncer medular de tireoide nasce das células C, produtoras de calcitonina, e é diferente do carcinoma papilífero.
- Cerca de um em cada quatro casos é hereditário, ligado a uma alteração germinativa no gene RET.
- Todo diagnóstico confirmado merece discussão do teste genético, mesmo sem outros casos na família.
- Uma variante patogênica identificada permite teste direcionado e prevenção em pais, irmãos e filhos.
- Antes de pedir exames por conta própria, procure um endocrinologista para organizar a investigação familiar.
Receber um diagnóstico de câncer medular da tireoide costuma trazer uma segunda preocupação: “Meus filhos e meus irmãos também precisam investigar?”. É uma pergunta pertinente, e minha resposta sempre começa pelo mesmo ponto: confirmar o tipo de tumor e fazer a avaliação genética da pessoa diagnosticada.
O câncer medular não segue as mesmas regras do carcinoma papilífero, que é o mais comum. Parte dos casos está associada a uma alteração hereditária no gene RET.
Identificar essa alteração pode permitir cuidar dos familiares de forma preventiva, muitas vezes antes de qualquer sintoma. E isso deve ser feito sem transformar qualquer nódulo na família em suspeita de síndrome genética.
O que Você Precisa Saber
O nome completo do diagnóstico importa
“Câncer de tireoide” reúne doenças diferentes. No tipo medular, o tumor nasce nas células C, que produzem o hormônio calcitonina. Um familiar com carcinoma papilífero não precisa automaticamente da mesma investigação de RET. O laudo anatomopatológico e os relatórios do tratamento esclarecem qual é a situação na família.
O teste genético responde a uma pergunta específica
Em quem tem câncer medular confirmado, recomendo avaliar uma alteração germinativa em RET mesmo quando não há outros casos conhecidos. O resultado orienta o cuidado da própria pessoa e dos parentes. Testar o tumor e testar a predisposição hereditária são exames diferentes, com finalidades diferentes.
Resultado genético exige interpretação
Uma variante patogênica ou provavelmente patogênica pode mudar o acompanhamento de toda a família. Já uma variante de significado incerto não confirma doença hereditária. Antes de qualquer decisão importante, a equipe precisa analisar a classificação da variante, o contexto clínico e eventuais atualizações do laudo.
A história familiar também importa para remédios de obesidade e diabetes
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida trazem, na bula, alerta para quem tem história pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. Por isso, sempre pergunto sobre esse histórico antes de prescrevê-los.
O que é o câncer medular de tireoide e por que ele é diferente?
O câncer medular de tireoide é um tumor maligno originado das células C da tireoide, que produzem calcitonina. Pode ser esporádico ou hereditário, e a identificação de uma alteração germinativa no gene RET tem implicações para o paciente e sua família.
A tireoide tem dois tipos principais de células. As células foliculares produzem os hormônios tireoidianos e dão origem aos cânceres papilífero e folicular. As células C (ou parafoliculares) são uma população menor, produtora de calcitonina, e é delas que nasce o câncer medular.
Essa diferença de origem explica por que exames, seguimento e tratamento não são os mesmos dos outros tumores. Dois marcadores de sangue são centrais:
- Calcitonina: hormônio produzido pelas células C. No câncer medular, costuma estar elevada e acompanha a quantidade de doença.
- CEA (antígeno carcinoembrionário): proteína que também pode subir no câncer medular. Ajuda no seguimento, mas não é específica, porque pode se alterar em outras situações.
Outra diferença prática: as células C não captam iodo. Por isso, o iodo radioativo, útil em alguns casos de câncer papilífero, não trata o câncer medular.
Também não é adequado aplicar ao câncer medular, sem avaliação especializada, uma orientação lida sobre vigilância ativa no câncer papilífero. Da mesma forma, investigação familiar não é rastreamento indiscriminado de qualquer pessoa com nódulo de tireoide. A grande maioria dos nódulos não é câncer medular.
O câncer de tireoide está entre os cinco tumores mais frequentes nas mulheres brasileiras. O INCA estima cerca de 16,4 mil casos novos por ano entre 2026 e 2028. O tipo medular é raro, entre 1% e 3% dos casos, mas cerca de um quarto deles é hereditário.
Esporádico ou hereditário: qual a diferença?
Cerca de 75% dos casos de câncer medular são esporádicos: a alteração genética surgiu apenas no tumor, ao longo da vida, e não é transmitida aos filhos. Os outros 25% são hereditários.
As formas hereditárias costumam aparecer mais cedo e, com frequência, acometem os dois lados da tireoide.
Dois termos ajudam a entender essa diferença:
- Teste germinativo: procura uma alteração presente em todas as células do corpo, desde o nascimento. Geralmente é feito em sangue ou saliva. É ele que indica risco hereditário.
- Teste somático: analisa alterações presentes apenas no tumor. Pode orientar o tratamento oncológico, mas não informa, sozinho, se há risco para a família.
Encontrar RET alterado no tumor não prova que a alteração foi herdada. Somente o teste germinativo responde a essa pergunta.
Por que testar RET mesmo sem outros casos na família?
A ausência de história familiar conhecida não exclui a forma hereditária. Há três razões principais:
- Parentes sem diagnóstico: alguns familiares podem ter a alteração e ainda não ter desenvolvido a doença.
- Informação incompleta: muitas vezes não sabemos de que tipo de câncer de tireoide um avô ou tio-avô morreu.
- Mutação de novo: a alteração pode ter surgido pela primeira vez na própria pessoa diagnosticada. Isso ocorre em cerca de 5% a 9% dos casos de NEM2A e em metade dos casos de NEM2B.
Por isso, as diretrizes da American Thyroid Association recomendam avaliação genética em todos os casos confirmados. Vale lembrar que a nova diretriz da ATA, de 2025, trata do câncer diferenciado. Para o câncer medular, a referência continua sendo a diretriz específica de 2015.
Ter cerca de 25% de casos hereditários justifica a investigação. Mas isso não significa que cada familiar de uma pessoa diagnosticada também terá o tumor.
O que é a neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2)?
A neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2, ou MEN2 na sigla em inglês) é uma síndrome hereditária causada por variantes específicas do gene RET. Ela afeta aproximadamente 1 em cada 35 mil pessoas. Quase todos os portadores desenvolvem câncer medular ao longo da vida, mas outras glândulas também podem ser afetadas.
NEM2A
É a forma mais comum. Além do câncer medular, pode envolver:
- Feocromocitoma: tumor da glândula adrenal que produz adrenalina em excesso. Pode causar crises de pressão alta, palpitações e suor. Ocorre em cerca de 40% a 50% dos portadores de NEM2A.
- Hiperparatireoidismo primário: excesso de funcionamento das paratireoides, glândulas que regulam o cálcio no sangue. Ocorre em cerca de 20% a 30%.
O chamado câncer medular familiar é hoje entendido como uma variante da NEM2A, com menos manifestações fora da tireoide.
NEM2B
É a forma mais rara, com cerca de 5% dos casos, e a mais agressiva. O câncer medular costuma surgir já nos primeiros anos de vida. Também pode haver feocromocitoma, mas não há hiperparatireoidismo.
Algumas pessoas apresentam sinais físicos característicos, como pequenos nódulos nos lábios e na língua (neuromas mucosos) e corpo alongado, de membros longos. Como metade dos casos surge de novo, muitas vezes não há nenhum caso anterior na família.
Por que isso importa antes de uma cirurgia
Um feocromocitoma não identificado pode causar oscilações graves de pressão durante uma anestesia. Por isso, em quem tem NEM2 confirmada ou suspeita, a equipe precisa descartar esse tumor antes de qualquer cirurgia, inclusive a da tireoide, e também antes de uma gestação planejada.
Isso não significa que todos os familiares devam pedir, por conta própria, uma lista extensa de exames hormonais ou de imagem. A equipe define quais avaliações são necessárias e em que ordem.
Quem da família deve ser avaliado e quando?
Quando uma variante germinativa patogênica é identificada, os familiares em risco podem fazer o teste em cascata. Trata-se de um exame direcionado que procura apenas aquela variante já conhecida na família. Pais, irmãos e filhos costumam ser os primeiros da lista, mas a sequência depende da árvore familiar.
A NEM2 tem herança autossômica dominante: cada filho de um portador tem 50% de chance de herdar a variante. Essa chance vale para cada gestação. Não significa que exatamente metade dos filhos será portadora, nem informa sozinha a idade em que a doença surgirá.
O momento da cirurgia preventiva depende da variante
O grande avanço no cuidado da NEM2 é poder retirar a tireoide antes de o câncer se desenvolver. Essa cirurgia preventiva é chamada de tireoidectomia profilática.
A diretriz da ATA classifica as variantes de RET em três categorias de risco:
| Categoria de risco (ATA) | Exemplos de variante | Momento sugerido da tireoidectomia | Início do rastreio de feocromocitoma |
|---|---|---|---|
| Risco mais alto | M918T (NEM2B) | No primeiro ano de vida | A partir dos 11 anos |
| Alto risco | Códon 634, A883F | Até os 5 anos, ou antes conforme a calcitonina | A partir dos 11 anos |
| Risco moderado | Demais variantes patogênicas | Vigilância com calcitonina e ultrassom a partir dos 5 anos; cirurgia quando a calcitonina sobe | A partir dos 16 anos |
Essa tabela é um mapa geral, não uma prescrição. A decisão envolve a variante específica, a idade, os níveis de calcitonina, os exames de imagem e a conversa com os pais ou responsáveis.
Por isso, quando há crianças na família em risco, a avaliação não deve ser adiada automaticamente até a idade adulta.
Como é o tratamento do câncer medular?
O tratamento principal é cirúrgico: tireoidectomia total, muitas vezes com retirada dos linfonodos do pescoço (esvaziamento cervical).
Depois da cirurgia, a pessoa passa a usar levotiroxina para repor o hormônio tireoidiano, como em qualquer tratamento de hipotireoidismo. No câncer medular, o objetivo da levotiroxina é apenas a reposição, e não a supressão do TSH como em alguns casos de câncer papilífero.
O seguimento é feito com dosagens periódicas de calcitonina e CEA. A velocidade com que esses marcadores sobem ajuda a estimar o comportamento da doença.
Nos casos avançados ou metastáticos, há terapias-alvo. O selpercatinibe, um inibidor seletivo de RET, tem registro na Anvisa para câncer medular avançado com mutação em RET a partir dos 12 anos. No estudo de fase 3 LIBRETTO-531, ele mostrou melhor controle da doença do que os medicamentos multiquinase usados antes, como cabozantinibe e vandetanibe.
O cuidado costuma envolver endocrinologia, genética e cirurgia de cabeça e pescoço, com a oncologia quando pertinente. Veja como se complementam o endocrinologista e o cirurgião na avaliação da tireoide.
Diante de câncer medular confirmado, a pessoa diagnosticada deve fazer o teste germinativo de RET e descartar feocromocitoma antes da cirurgia. Se houver variante patogênica, os familiares de primeiro grau devem receber aconselhamento e teste direcionado. O momento da cirurgia preventiva depende da variante identificada.
Câncer medular e remédios para obesidade e diabetes
Este ponto merece atenção especial, porque muitos dos meus pacientes usam ou pensam em usar agonistas de GLP-1 (como semaglutida) ou tirzepatida.
As bulas desses medicamentos no Brasil trazem alerta para pessoas com história pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou com NEM2. O alerta vem de estudos em roedores, nos quais essas substâncias estimularam tumores de células C.
Até hoje, essa relação não foi demonstrada em humanos. E dosar calcitonina rotineiramente em quem usa esses medicamentos tem valor incerto.
Minha orientação é simples: conte ao seu médico sobre qualquer caso de câncer de tireoide na família antes de iniciar um remédio para emagrecer ou para diabetes. Com o laudo em mãos, consigo avaliar se o caso era medular e se a medicação é adequada ou se há alternativas.
Como se preparar para a conversa familiar
Não é preciso saber todos os detalhes para começar a consulta. Mas alguns documentos ajudam muito:
- Laudo anatomopatológico que confirma o tipo de tumor.
- Relatórios de cirurgia e exames de calcitonina e CEA.
- Resultado do teste genético de RET, se já foi feito.
- Lista dos parentes que tiveram câncer de tireoide, tumores da adrenal, cálculos renais ou alterações de cálcio, com idade aproximada.
Se há câncer medular confirmado na família, procure aconselhamento antes de escolher exames por conta própria. Leve o laudo do familiar afetado e, se disponível, o resultado de RET. A equipe poderá definir quem está em risco, qual teste responde à pergunta e quando o acompanhamento deve começar.
A comunicação deve ser clara e respeitar a privacidade e a autonomia de cada familiar. Um resultado hereditário é uma oportunidade de organizar a prevenção, e não um motivo para culpar quem transmitiu a variante. É natural haver ansiedade, e buscar apoio faz parte do processo.
Para escolher profissionais, saiba como verificar o RQE de um endocrinologista. Conheça também a minha formação na FMUSP e no Hospital das Clínicas. Se quiser organizar essa avaliação, agende uma consulta no Campo Belo ou em Perdizes, ou faça a primeira conversa por telemedicina.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Todo câncer medular é hereditário?
Não. A maioria dos casos, cerca de 75%, é esporádica. Os outros 25% estão associados a variantes germinativas no gene RET. Por isso, a investigação genética é discutida mesmo sem história familiar. O resultado precisa ser interpretado junto com o diagnóstico e pode orientar tanto o paciente quanto seus parentes.
- Qual a diferença entre câncer medular e papilífero? Meu familiar teve papilífero: preciso testar RET?
O papilífero nasce das células foliculares e é o tipo mais comum. O medular nasce das células C e é bem mais raro. O teste hereditário de RET não é uma recomendação geral para qualquer câncer de tireoide na família. Confirme o laudo e leve a história ao médico, que avaliará se há indicação de outra investigação.
- Um ultrassom normal exclui a alteração hereditária?
Não. O ultrassom avalia a estrutura da tireoide naquele momento e não identifica uma variante genética. Em uma família com alteração germinativa patogênica conhecida, o teste direcionado pode ser necessário mesmo sem nódulos. A equipe define como combinar avaliação genética, calcitonina e exames de imagem ao longo do tempo.
- Se o teste for positivo, a cirurgia é sempre imediata?
Não existe uma resposta única. A cirurgia preventiva considera a variante específica, a idade, a calcitonina, os exames e o contexto clínico. Algumas variantes exigem cirurgia no primeiro ano de vida; outras permitem vigilância e cirurgia mais tarde. Essa decisão deve ser tomada por equipe experiente, nunca apenas pela leitura do laudo.
- Uma variante de significado incerto confirma NEM2?
Não. Esse resultado indica que ainda não há informação suficiente para classificar aquela alteração de forma conclusiva. Ele não deve ser tratado como causa confirmada da síndrome. O aconselhamento genético orienta a interpretação, uma eventual reclassificação e quais decisões podem ou não ser sustentadas pelo achado.
- Quem teve câncer medular precisa avaliar outras glândulas?
Depende da avaliação genética e clínica. Em quem tem NEM2, pode ser necessário investigar feocromocitoma e alterações das paratireoides. Descartar feocromocitoma é especialmente importante antes de qualquer cirurgia. A indicação e a sequência dos exames são individualizadas e não devem ser substituídas por um painel pedido sem orientação.
- Quem tem câncer medular na família pode usar semaglutida ou tirzepatida?
As bulas desses medicamentos no Brasil trazem alerta para quem tem história pessoal ou familiar de câncer medular ou NEM2. O risco veio de estudos em roedores e não foi demonstrado em humanos. Mesmo assim, informe o histórico ao médico antes de começar. Ele avaliará o laudo do familiar e as alternativas disponíveis.
- Como avisar os familiares sem causar alarme?
Explique que existe uma informação de saúde que pode orientar prevenção e acompanhamento, e compartilhe o laudo com apoio da equipe. Evite afirmar que todos terão câncer. O aconselhamento ajuda a esclarecer quem realmente está em risco, como testar e quais medidas são possíveis para cada resultado.
- Quando devo procurar um endocrinologista?
Procure um endocrinologista se você ou um familiar recebeu diagnóstico de câncer medular, se há variante de RET identificada na família ou se existe calcitonina elevada em algum exame. Também vale consultar antes de iniciar remédios para obesidade ou diabetes quando há câncer de tireoide na família.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Referências
- Wells SA, Asa SL, Dralle H, et al. Revised American Thyroid Association guidelines for the management of medullary thyroid carcinoma. Thyroid. 2015;25(6):567-610.
- Kim BH, Kim IJ. Recent Updates on the Management of Medullary Thyroid Carcinoma. 2016.
- Shariq OA, Waguespack SG, Hamidi S. Approach to the Patient: Hereditary Medullary Thyroid Carcinoma. 2025.
- Zhang D, Liang N, Sun H, et al. Critically evaluated key points on hereditary medullary thyroid carcinoma. Front Endocrinol. 2024.
- Ryška A, Capdevila J, Dettmer MS, et al. Molecular predictive biomarker testing in advanced thyroid cancer — a European consensus. 2025.
- Eng C, Plitt G. Multiple Endocrine Neoplasia Type 2 — GeneReviews. 2023.
- Hadoux J, et al. Phase 3 Trial of Selpercatinib in Advanced RET-Mutant Medullary Thyroid Cancer (LIBRETTO-531). N Engl J Med. 2023.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2026.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Bulário eletrônico — Retsevmo (selpercatinibe). Consulta em 13/10/2026.
- American Thyroid Association. Medullary Thyroid Cancer. Consulta em 13/10/2026.
