Testosterona na mulher: vale dosar na menopausa?
Exame de testosterona feminina: valores de referência, quando pedir e o que o resultado significa
Resumo rápido
- A testosterona da mulher diminui com a idade, sem queda brusca na menopausa natural.
- Nos valores femininos, a espectrometria de massas é mais confiável que o imunoensaio comum.
- Pelo consenso internacional de 2019, nenhum valor de testosterona diagnostica desejo sexual baixo na mulher.
- O exame serve para investigar excesso, como pelos, acne, ciclos irregulares e virilização, e para acompanhar o tratamento.
- O único tratamento com evidência é para desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, em dose feminina; no Brasil, não há produto feminino aprovado.
Imagine uma mulher de 52 anos, na menopausa há dois anos, cansada e com a libido em baixa. O check-up incluiu o exame de testosterona feminina, que veio com 9 ng/dL, perto do limite de baixo. Logo ela ouviu que precisava de um "chip" para repor.
O número, sozinho, não diz isso. Pode vir de um método que mede mal valores baixos, e nenhum corte de testosterona separa mulheres com e sem desejo sexual baixo.
A seguir, explico quando dosar e como ler o resultado, sempre com sintomas e exame físico.
O que Você Precisa Saber
Testosterona também é hormônio da mulher. Em quantidade bem menor que no homem, e não some na menopausa.
O método pesa. Nos valores femininos, o imunoensaio comum erra; a espectrometria de massas mede melhor.
O exame não diagnostica "testosterona baixa". O consenso internacional e a Endocrine Society não reconhecem um valor de deficiência na mulher.
O exame tem endereço certo. Investigar excesso e acompanhar quem usa testosterona, não rastrear cansaço ou libido.
De onde vem a testosterona da mulher e o que muda na menopausa
Costumo explicar que a mulher tem duas pequenas fábricas de testosterona: os ovários, que a produzem sob o comando do LH, e as suprarrenais, que liberam precursores, como o DHEA, transformados em testosterona em outros tecidos.
família de hormônios chamados de "masculinos", que inclui a testosterona, a androstenediona e o DHEA.
Num estudo australiano com 1.423 mulheres de 18 a 75 anos, os androgênios caíram com a idade, mais nas primeiras décadas; entre 45 e 54 anos, a menopausa em si não teve efeito independente.
Na mulher, a testosterona vem dos ovários e das suprarrenais e diminui aos poucos na vida adulta. A menopausa natural não provoca queda brusca, porque o ovário da pós-menopausa continua produzindo testosterona; a queda é mais marcada quando os dois ovários são retirados.
A menopausa, portanto, não cria necessidade universal de testosterona; a reposição, quando indicada, é de estrogênio, como explico em reposição hormonal na menopausa.
O problema do método: por que o número engana
A faixa da mulher é mais de dez vezes menor que a do homem, e nela, pelo consenso internacional, os imunoensaios diretos da rotina são muito pouco confiáveis.
método que separa as moléculas pelo peso antes de medir e evita confundir a testosterona com substâncias parecidas. É a referência para os valores da mulher, ainda sem padronização internacional.
Um laboratório americano que usa espectrometria de massas informa de 10 a 55 ng/dL antes da menopausa e de 7 a 40 ng/dL depois; um brasileiro, de 15 a 70 ng/dL, sem separar a fase da vida.
Três detalhes mudam a leitura:
- SHBG. A pílula e o estrogênio em comprimido aumentam essa proteína, que prende a testosterona: sobra menos livre, e a total pode parecer mais alta. Veja testosterona livre e SHBG.
- Horário e ciclo. A testosterona é mais alta de manhã, como no exame de testosterona do homem; na investigação de excesso, em quem menstrua, as faixas valem para o 4º ao 10º dia do ciclo.
- Anticoncepcional hormonal. A diretriz internacional de síndrome dos ovários policísticos (SOP) orienta pausa de pelo menos três meses, com outro método, quando é preciso dosar.
Por que o exame não diagnostica "testosterona baixa"
A Endocrine Society recomenda não diagnosticar síndrome de deficiência de androgênios em mulheres saudáveis nem tratar valores baixos de rotina.
diminuição ou ausência persistente do desejo sexual que causa sofrimento à própria mulher, depois de avaliadas outras explicações, como remédios, humor e relacionamento. É diagnóstico clínico, feito na conversa.
Em nota conjunta de 2025, SBEM, FEBRASGO e Sociedade Brasileira de Cardiologia afirmaram que dosar testosterona de rotina, ou alegar "déficit androgênico", não tem respaldo científico.
Pelo consenso internacional de 2019, endossado por 11 sociedades, entre elas a Endocrine Society, nenhum valor de androgênio no sangue separa mulheres com e sem desejo sexual hipoativo, e a testosterona total não deve ser usada para diagnosticar esse transtorno, apenas como base para monitorar o tratamento.
Quando vale dosar a testosterona na mulher
Sinais de excesso. Pelos em áreas típicas do homem, acne persistente, queda de cabelo no padrão masculino e ciclos irregulares levantam a suspeita. A Endocrine Society sugere dosar os androgênios quando a pontuação de pelos está acima do normal, mas não em quem menstrua regularmente e tem só pelos localizados. Depois dos 40, ciclos irregulares também podem ser a perimenopausa.
Virilização ou sintomas que avançam rápido. Voz mais grossa, aumento do clitóris e ganho de massa muscular de instalação rápida levantam a suspeita de tumor produtor de androgênios. Depois da menopausa, testosterona acima de 150 ng/dL é o corte sugerido para investigar tumor ou hipertecose ovariana, uma causa não tumoral; abaixo disso, com sintomas leves a moderados, a SOP é a explicação mais provável. Como alguns tumores elevam pouco o hormônio, a história pesa tanto quanto o número.
Antes e durante o tratamento. Pelo consenso, mede-se a testosterona total antes, de 3 a 6 semanas depois e a cada seis meses. A diretriz de 2021 da Sociedade Internacional para o Estudo da Saúde Sexual da Mulher (ISSWSH) acrescenta a SHBG no início: acima do normal, o benefício é menos provável.
Não peço para explicar cansaço, como rastreio de libido, no check-up ou para decidir reposição sem diagnóstico, como explico em exames na menopausa.
Situação por situação: o que pedir e o que significa
A tabela orienta; não substitui a avaliação.
| Situação | O que pedir | O que o resultado significa |
|---|---|---|
| Pelos em excesso, acne ou ciclos irregulares | Testosterona total, de preferência por espectrometria de massas, e SHBG | Valor alto confirma excesso; com ciclos irregulares, pensa-se em SOP |
| Virilização ou sintomas que avançam rápido | Testosterona total, DHEA-S e imagem dos ovários e das suprarrenais | Após a menopausa, acima de 150 ng/dL pede investigar tumor; valor pouco alto não descarta |
| Desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, antes de tratar | Testosterona total e SHBG | Não diagnostica; serve de base para o controle |
| Em uso de testosterona | Testosterona total de 3 a 6 semanas após o início e a cada seis meses | Deve ficar na faixa feminina antes da menopausa; acima, reduz-se a dose |
| Chips ou fórmulas, com acne, pelos ou voz mais grossa | Testosterona total | Acima da faixa feminina, confirma excesso |
| Cansaço, libido baixa sem diagnóstico, check-up | Não dosar | Nenhum valor explica a queixa |
Tratamento: a única indicação com evidência
Pelo consenso internacional, no desejo sexual hipoativo da pós-menopausa a testosterona dá, em média, cerca de um evento sexual satisfatório a mais por mês do que o placebo. Não melhora o bem-estar nem o humor, e os dados não sustentam o uso para osso ou memória; pela Endocrine Society, faltam dados de segurança além de 24 meses.
A dose deve manter a testosterona na faixa feminina antes da menopausa; sem benefício em seis meses, suspende-se. No Brasil, a Anvisa não aprovou formulação de testosterona para mulheres; o uso é adaptado, fora da bula, e a ISSWSH orienta começar com um décimo da dose inicial do homem. Veja testosterona para libido na menopausa.
Acima da dose fisiológica, a testosterona pode causar acne, excesso de pelos, queda de cabelo no padrão masculino e voz mais grossa, às vezes permanente; com dose feminina, os estudos mostraram só aumento leve de acne e pelos em parte das mulheres.
Por isso, as críticas valem para os "chips" de gestrinona ou de testosterona em dose alta, para fórmulas sem padronização de dose e para o uso estético ou de desempenho, proibido pelo Conselho Federal de Medicina (Resolução 2.333/2023). O implante de estradiol é outra conversa: embora ainda contraindicado pelas diretrizes médicas, em casos específicos e selecionados pode ser uma via possível de reposição hormonal, com dose controlada, acompanhamento dos níveis hormonais e progesterona em quem tem útero.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Para que serve o exame de testosterona na mulher?
Para investigar excesso de hormônio masculino, com pelos em excesso, acne persistente, queda de cabelo no padrão masculino, ciclos irregulares ou virilização, e para acompanhar quem usa testosterona para desejo sexual hipoativo. Não serve para explicar cansaço nem para rastrear libido baixa: nenhum valor separa mulheres com e sem esses problemas.
- Qual o valor normal de testosterona na mulher?
Depende do laboratório e do método. Um laboratório americano que usa espectrometria de massas informa de 10 a 55 ng/dL antes da menopausa e de 7 a 40 ng/dL depois; um brasileiro, de 15 a 70 ng/dL. Imunoensaios medem mal valores baixos. O número se lê com sintomas, SHBG e uso de pílula ou estrogênio.
- Testosterona total feminina de 8, 13 ou 22 ng/dL é normal?
Em geral, esses valores cabem nas faixas femininas, mas vale a faixa do laboratório que fez o exame e o método usado. Um valor no limite de baixo não diagnostica nada nem indica reposição. Valor alto merece atenção quando há pelos, acne, ciclos irregulares ou voz mais grossa, sobretudo se esses sinais avançam rápido.
- Testosterona baixa na mulher: quais os sintomas e o que fazer?
A Endocrine Society recomenda não diagnosticar síndrome de testosterona baixa na mulher saudável, porque nenhum valor a define. Cansaço, desânimo e libido menor têm muitas causas, como sono, humor, remédios, tireoide e relacionamento. Se a falta de desejo é persistente e causa sofrimento, avalia-se o desejo sexual hipoativo, sem tentar corrigir um número.
- Testosterona alta na mulher: o que causa?
Com sintomas leves a moderados, a SOP é a explicação mais provável, inclusive depois da menopausa. Hiperplasia adrenal não clássica, síndrome de Cushing, hipertecose ovariana e tumores dos ovários ou das suprarrenais são menos frequentes, e hormônio de fora, em chips ou fórmulas, também conta. Virilização rápida pede investigação sem demora.
- Vale a pena repor testosterona na menopausa?
Só com diagnóstico de desejo sexual hipoativo, depois de avaliadas outras causas. O benefício médio é modesto, cerca de um evento sexual satisfatório a mais por mês, com dose feminina e exames antes, de 3 a 6 semanas depois e a cada seis meses. Sem melhora em seis meses, suspende-se. Para cansaço, humor, memória ou osso, não há indicação.
- Testosterona na mulher emagrece?
Não é tratamento para emagrecer nem para ganhar músculo. A Endocrine Society desaconselha o uso para fins metabólicos ou de bem-estar, e as sociedades brasileiras afirmam que não há reconhecimento oficial para uso estético, modulação corporal ou desempenho. Em dose alta, efeitos masculinizantes, como a voz mais grossa, podem ser permanentes.
- Testosterona baixa na mulher causa queda de cabelo?
A queda que se liga à testosterona é a do excesso: acima da dose fisiológica, ela pode causar queda no padrão masculino. Na mulher, a queda de padrão androgenético costuma ter base genética, e a queda difusa tem outras causas comuns, como ferritina baixa, tireoide e pós-parto, que vale investigar; veja tireoide e queda de cabelo.
Entenda o seu exame com orientação individual
Se a sua testosterona veio fora da faixa ou alguém sugeriu repor, vale uma avaliação completa. Veja também endocrinologista para mulheres depois dos 40 e o tratamento da menopausa.
Consulta presencial: agende sua consulta com o Dr. Rodrigo Bomeny no Instituto Aster (Campo Belo) ou no Hospital Israelita Albert Einstein (Perdizes), em São Paulo.
Cuide da sua saúde com orientação individual
Telemedicina: se você está em outra cidade ou prefere atendimento remoto, conheça a consulta por telemedicina, quando apropriado.
Referências
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- Wierman ME, Arlt W, Basson R, et al. Androgen Therapy in Women: A Reappraisal: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2014;99(10):3489-3510. doi:10.1210/jc.2014-2260.
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