Elastografia hepática: quando pedir e como ler o resultado (kPa e CAP)
Resultado da elastografia hepática: kPa, CAP e qualidade do laudo
Resumo rápido
- A elastografia hepática mede a rigidez do fígado (kPa), que estima a fibrose, e o CAP (dB/m), que estima a gordura.
- Entra depois do FIB-4, a partir de 1,3, ou de 2,0 depois dos 65 anos.
- Abaixo de 8 kPa, fibrose avançada é improvável; de 12 kPa para cima, o risco é alto.
- O CAP não tem corte universal e não define o risco.
- Refeição, inflamação, congestão por doença do coração, bile obstruída e álcool elevam a rigidez; o jejum é de 3 horas.
Imagine uma mulher de 54 anos, com diabetes tipo 2 e esteatose no ultrassom, que abre o resultado da elastografia hepática: 9,1 kPa e CAP de 318 dB/m. O laudo não diz "normal" nem "alterado", e cada tabela da internet traz um corte diferente.
Perceba que os dois números respondem a perguntas diferentes. O CAP confirma a gordura que o ultrassom já mostrava; os 9,1 kPa caem numa zona intermediária, que pede confirmação.
A seguir, explico como ler cada número.
O que Você Precisa Saber
Dois números, duas perguntas. O kPa estima a fibrose, a cicatriz do fígado; o CAP, a gordura.
O kPa pesa mais. Quem define o risco do fígado é a fibrose, não a gordura.
Exame mal feito engana. Jejum, número de medidas e variação entre elas mudam a confiança.
Faixa não é diagnóstico fechado. O número se lê com o FIB-4, as enzimas, o álcool e o coração.
O que a elastografia mede: rigidez e gordura
Costumo explicar assim: o fígado saudável é macio como uma esponja, e a fibrose o deixa firme. O aparelho envia uma vibração leve: quanto mais duro o fígado, mais rápida a onda e maior o kPa. Já a gordura atenua o ultrassom como a neblina atenua o farol, e é isso que o CAP mede.
exame com uma sonda apoiada na pele, sobre o fígado, que mede sem agulha a rigidez em quilopascais (kPa) e o CAP (parâmetro de atenuação controlada), em decibéis por metro (dB/m).
Ligada ao metabolismo, a esteatose hoje se chama doença hepática esteatótica metabólica (DHEM; MASLD, em inglês), tema do guia de gordura no fígado.
Onde a elastografia entra: depois do FIB-4
O primeiro passo é o FIB-4, indicado a quem tem diabetes tipo 2, pré-diabetes ou obesidade com fatores metabólicos, mesmo com enzimas normais; veja TGO e TGP normais com gordura no fígado.
índice calculado com idade, TGO, TGP e plaquetas que estima o risco de fibrose avançada: abaixo de 1,3, baixo; de 1,3 a 2,67, indeterminado; acima de 2,67, alto.
Pela diretriz europeia, ele funciona mal abaixo dos 35 anos.
Pelas diretrizes europeia (EASL-EASD-EASO, 2024) e americana (AASLD, 2023), a elastografia hepática é o segundo passo, com FIB-4 a partir de 1,3, ou de 2,0 depois dos 65 anos. Abaixo disso, o risco de fibrose avançada é baixo.
Como ler o kPa: as faixas de rigidez
Os cortes são da elastografia transitória na esteatose metabólica; outras doenças do fígado têm os seus.
| Rigidez (kPa) | O que sugere | O que costuma acontecer depois |
|---|---|---|
| Abaixo de 8 | Fibrose avançada improvável | Tratar o metabolismo; reavaliar em 1 a 3 anos |
| 8 a menos de 12 | Zona intermediária | Confirmar e considerar o hepatologista |
| 12 ou mais | Alto risco de fibrose avançada | Hepatologista |
| 15 ou mais | Doença crônica avançada muito provável | Hepatologista |
| 25 ou mais | Pressão alta nas veias do fígado (hipertensão portal) | Hepatologista sem demora |
As três primeiras linhas vêm das diretrizes europeia e americana; as duas últimas, do consenso Baveno VII, de 2022.
cicatrizes que o fígado forma em resposta à inflamação repetida, de F0 (sem fibrose) a F4 (cirrose); fibrose avançada é F3 ou F4.
A diretriz brasileira (SBEM, SBH e Abeso, 2023) chama 8 kPa de corte mais validado e situa a fibrose avançada acima de 12 a 15 kPa. Pela diretriz europeia, cerca de um terço das medidas acima de 7,9 kPa não se confirma num novo exame.
Elastografia por ultrassom. A elastografia por ondas de cisalhamento (SWE), feita no aparelho de ultrassom, usa cortes adaptados, pela diretriz europeia: 9 kPa num método não equivalem a 9 kPa no outro. Acompanhe sempre pelo mesmo método.
Como ler o CAP: por que não existe um corte universal
Pela diretriz europeia de testes não invasivos, de 2021, não há corte de consenso, e acima de 275 dB/m pode indicar esteatose. A europeia de 2024 cita 248, 268 e 280 dB/m para os graus 1 a 3; a brasileira, 300 dB/m para o grau 1. Peso, diabetes e a própria doença mexem no CAP, e os estudos chegaram a cortes diferentes.
O CAP estima a gordura no fígado, mas não tem corte universal: as diretrizes citam de 248 a 300 dB/m. Como não mede inflamação nem fibrose, ele não define, sozinho, o risco do fígado.
CAP alto com kPa abaixo de 8 é gordura sem sinal de fibrose avançada, também em quem tem peso normal; veja gordura no fígado em pessoa magra.
O laudo é confiável? Os critérios de qualidade
Olho primeiro a qualidade:
- Medidas válidas: 10, no protocolo do inquérito de saúde americano NHANES.
- IQR/mediana: abaixo de 30%, no mesmo protocolo; acima disso, as medidas variaram demais.
- Sonda: na obesidade, a XL falha bem menos que a M (3% a 4%), com os mesmos cortes, pela diretriz europeia de 2021.
razão entre a dispersão das medidas (intervalo interquartil, IQR) e o valor do meio (mediana); quanto menor, mais elas concordam.
Na obesidade grau 2, pela diretriz de 2024, muitas técnicas de ultrassom perdem confiança; veja exames para obesidade.
O que dá resultado falso alto e como se preparar
A diretriz europeia de 2021 lista como causas de rigidez falsamente alta:
- refeição recente;
- inflamação do fígado: TGO acima de duas vezes o limite pede cautela;
- fígado congestionado, em geral por insuficiência cardíaca;
- obstrução da saída da bile;
- álcool em excesso: com TGO ou GGT acima de duas vezes o limite, repetir após pelo menos uma semana sem beber ou bebendo menos.
Preparo: jejum de pelo menos 3 horas, pela diretriz de 2021, ou o que o serviço orientar; leve TGO, TGP e plaquetas.
O que fazer com cada resultado e quando repetir
Abaixo de 8 kPa. O risco que mais pesa passa a ser o do coração, e o tratamento é metabólico; veja gordura no fígado tem cura.
De 8 a menos de 12 kPa. Confirmo em boas condições, somo outro teste e intensifico o tratamento, às vezes com o hepatologista. Ferritina alta nem sempre é ferro demais; veja ferritina alta e gordura no fígado.
12 kPa ou mais. O hepatologista avalia a fibrose e as complicações; veja gordura no fígado: endocrinologista ou hepatologista.
Biópsia. Rara: pela AASLD, fica para testes indeterminados ou dúvida sobre a causa.
Para repetir: 1 a 3 anos no baixo risco (europeia); 12 meses com F2 ou F3 e 6 meses na cirrose (brasileira).
Tratamento: o que melhora o fígado e o laudo
Não existe equilíbrio, existe prioridade: a resistência à insulina está no centro da esteatose; veja insulina alta com glicose normal.
Peso. Pela diretriz europeia de 2024, perder cerca de 5% do peso reduz a gordura do fígado; de 7% a 10%, a inflamação; 10% ou mais favorece a melhora da fibrose. A relação cintura-altura ajuda a acompanhar.
Alimentação low carb. Oriento menos de 130 g de carboidrato por dia (26% a 45% das calorias, referência da SBD), sem açúcar nem suco: metade do prato de proteína, um pouco mais de um quarto de vegetais e legumes, menos de um quarto de carboidrato e gordura na medida do sabor, não à vontade.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou inibidor de SGLT2 precisa ajustar a medicação com o médico antes de reduzir o carboidrato, pelo risco de hipoglicemia e de cetoacidose euglicêmica. Diabetes tipo 1, gestantes, idosos frágeis e doença renal avançada exigem acompanhamento próximo.
Exercício e álcool. A diretriz europeia pede mais de 150 minutos semanais de atividade moderada ou 75 de intensa; pela AASLD, com fibrose F2 ou mais, álcool zero.
Remédios, em casos selecionados. A semaglutida 2,4 mg (Wegovy) foi aprovada pela Anvisa em dezembro de 2025 para esteato-hepatite com fibrose moderada a avançada, sem cirrose. A diretriz brasileira recomenda a pioglitazona na esteato-hepatite comprovada e, para quem não tem diabetes, admite a vitamina E; o resmetirom foi aprovado nos Estados Unidos e na União Europeia.
Principais Pontos
Erros Comuns
Perguntas Frequentes
- Como interpretar o resultado da elastografia hepática?
Olhe primeiro a qualidade: 10 medidas válidas e IQR/mediana abaixo de 30%. Depois, a rigidez em kPa, que estima a fibrose: abaixo de 8, fibrose avançada improvável; de 8 a 12, zona intermediária; 12 ou mais, risco alto. Por último, o CAP, que estima a gordura, sempre com o FIB-4.
- Qual é o valor normal da elastografia hepática?
Pelo Memorial Sloan Kettering, a rigidez normal costuma ficar entre 2 e 7 kPa. Na esteatose, as diretrizes usam 8 kPa: abaixo disso, fibrose avançada é improvável. Para o CAP, não há valor normal de consenso; a diretriz europeia de 2021 admite que acima de 275 dB/m indique esteatose.
- O que significa o CAP na elastografia hepática?
É o parâmetro de atenuação controlada, em decibéis por metro. Estima a gordura no fígado: quanto mais gordura, maior o número. Não existe corte universal, e as diretrizes citam de 248 a 300 dB/m, conforme o estudo. O CAP não mede fibrose; quem define o risco do fígado é o kPa.
- Elastografia hepática precisa de jejum?
Precisa. Comer aumenta a rigidez do fígado e pode dar um resultado falsamente alto. A diretriz europeia de testes não invasivos, de 2021, pede pelo menos 3 horas de jejum; siga o tempo que o serviço orientar. Conte também sobre álcool recente e doença do coração, que alteram a medida.
- Qual a diferença entre elastografia por ultrassom e elastografia transitória (FibroScan)?
As duas medem a rigidez do fígado. A transitória usa um aparelho próprio e mede também o CAP; a elastografia por ondas de cisalhamento é feita no aparelho de ultrassom, com imagem. Os números não são intercambiáveis: pela diretriz europeia de 2024, cada método usa cortes adaptados. Acompanhe com o mesmo método.
- Elastografia hepática alterada é cirrose?
Não necessariamente. De 8 a 12 kPa é zona intermediária, e refeição, inflamação, congestão por doença do coração e álcool elevam o número. Pelo consenso Baveno VII, de 15 kPa para cima a doença crônica avançada do fígado é muito provável. Mesmo assim, quem confirma o quadro é o hepatologista.
- De quanto em quanto tempo devo repetir a elastografia hepática?
Depende do resultado. No baixo risco, a diretriz europeia de 2024 sugere de 1 a 3 anos; a brasileira, 2 a 3 anos sem fibrose avançada, 12 meses com fibrose moderada a avançada e 6 meses na cirrose. Um valor intermediário isolado pode ser repetido antes, em boas condições, para confirmar.
- A elastografia hepática substitui a biópsia?
Na maioria das pessoas, sim, para estimar a fibrose. Pela AASLD, a biópsia fica para quando os testes não invasivos são indeterminados ou há dúvida sobre a causa. Mas a esteato-hepatite, a forma com inflamação, só a biópsia confirma com certeza. Por isso, o laudo se lê com os outros exames.
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Referências
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- Rinella ME, Neuschwander-Tetri BA, Siddiqui MS, et al. AASLD Practice Guidance on the clinical assessment and management of nonalcoholic fatty liver disease. Hepatology. 2023;77(5):1797-1835. doi:10.1097/HEP.0000000000000323.
- European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on non-invasive tests for evaluation of liver disease severity and prognosis – 2021 update. J Hepatol. 2021;75(3):659-689. doi:10.1016/j.jhep.2021.05.025.
- de Franchis R, Bosch J, Garcia-Tsao G, Reiberger T, Ripoll C; Baveno VII Faculty. Baveno VII – Renewing consensus in portal hypertension. J Hepatol. 2022;76(4):959-974. doi:10.1016/j.jhep.2021.12.022.
- Moreira RO, Valerio CM, Villela-Nogueira CA, et al. Brazilian evidence-based guideline for screening, diagnosis, treatment, and follow-up of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD) in adult individuals with overweight or obesity: a joint position statement from SBEM, SBH and Abeso. Arch Endocrinol Metab. 2023;67(6):e230123. doi:10.20945/2359-4292-2023-0123.
- Centers for Disease Control and Prevention, National Center for Health Statistics. National Health and Nutrition Examination Survey 2021-2023: Liver Ultrasound Transient Elastography (LUX_L), documentação dos dados. Hyattsville: NCHS.
- Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Understanding Your Liver Elastography (FibroScan) Results. Material de educação do paciente. Consultado em outubro de 2026.
- Conselho Federal de Farmácia. Anvisa amplia indicação do Wegovy para tratamento de gordura no fígado com inflamação. Brasília: CFF; 15 de dezembro de 2025.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes: terapia nutricional no diabetes. Edição atual.
